O urgente tema da tecnologia interferindo no cotidiano das crianças, em suas amizades e convivências, está presente na peça ‘Eugênia e os Robôs’, que estreia domingo no Sesc Pinheiros e faz duas sessões também no feriado de segunda-feira
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 9 de outubro de 2026)
Uma equipe impecável, capitaneada pela experiente e premiada diretora Thaís Medeiros, conhecida sobretudo por sua atuação na Companhia Delas, e um tema atualíssimo – a tecnologia interferindo nas amizades e convivências. Com esses atrativos, que não são poucos, estreia no auditório do terceiro andar do Sesc Pinheiros o espetáculo Eugênia e os Robôs, escrito por Carla Kinzo, premiada autora de Caro Kafka’ um grande sucesso dos palcos em 2022, premiado com o APCA.
A peça se baseia no livro de menos nome, de Janaina Tokitaka, e conta a história de uma menina que vive muito bem com a tecnologia e até cria seus robôs, usados por ela para encontrar soluções a respeito de tudo aquilo que não consegue resolver na vida. O material de divulgação alerta: nesta peça, a tecnologia não é vilã.
“Eu acho que a tecnologia tem nos ajudado muito e é um recurso valioso para os dias atuais”, declara a diretora Thaís. “Então, ela não é a vilã, de forma alguma. O problema está no uso que a gente faz dela e, principalmente, na forma como temos preferido lidar com tecnologia em vez de lidar com pessoas, com suas contradições, seus medos e suas diferenças.”
Ela prossegue: “Eu sinto que a tecnologia, e mais especificamente as inteligências artificiais, acabam nos dando uma sensação de que estamos sempre certos. É como se ela tirasse o confronto das nossas relações. E isso, para mim, tem sido muito ruim, porque estamos ficando cada vez mais ensimesmados, vivendo dentro de bolhas, enquanto o diálogo, que é tão importante para a vida em sociedade, vai se perdendo”.

Thaís Medeiros deixa transparecer nessas palavras o quanto foi desafiador dirigir Eugênia e os Robôs. Ela conta: “Eu acho que o primeiro grande desafio foi fazer uma adaptação que parte de uma obra literária, um livro delicioso, muito legal. A Janaína é uma autora excepcional. Então, eu sinto que o livro é uma obra muito potente, e fazer essa transposição para a cena, para o palco, é sempre um grande desafio: manter a essência daquela história, daquela obra, e, ao mesmo tempo, encontrar uma forma de fazer tudo isso existir no teatro. É um grande desafio, mas é um delicioso desafio”.
Mas foi uma tarefa ainda mais complexa do que isso. Thaís prossegue: “O segundo desafio foi conseguir uma certa atualização da obra. Fizemos questão disso para o espetáculo. O livro é de 2013 e, naquela época, a nossa relação especificamente com as inteligências artificiais era praticamente inexistente. Então, fazer essa atualização, mantendo a essência da obra, mas, ao mesmo tempo, dialogando com as crises e as questões que estamos vivendo hoje nessa relação com a inteligência artificial, foi bastante trabalhoso. A gente quebrou muito a cabeça para encontrar esse equilíbrio”.
A lista de desafios prossegue: “E o terceiro grande desafio foi transpor tudo isso para um espetáculo que converse com crianças, jovens e famílias, e em que os atores estejam bem, estejam se divertindo. Porque, por mais difícil e espinhoso que seja o tema, a gente quer conseguir falar sobre ele de uma maneira original, que se comunique com a plateia. E esse é, no fim das contas, o nosso objetivo maior: que todas essas questões estejam presentes, mas que elas cheguem ao público por meio do teatro, do jogo, do humor e do prazer de estar ali compartilhando uma história”.
A diretora lembra também o quanto trabalhar em parceria com a dramaturgia só leva a ganhos muito significativos e até pragmáticos para o espetáculo. “Eu acho que o que há de melhor nessa adaptação foi a presença da Carla Kinzo durante todo o processo, numa escuta muito ativa e participativa”, relata ela.
“O nosso texto teve uma primeira versão, que ela propôs, e depois foi se atualizando junto com a sala de ensaio, junto com a encenação. Então, o que eu acho de mais potente nessa adaptação é justamente ela refletir esse diálogo forte que toda a equipe teve com a obra da Janaína e com a cena. O texto é resultado de muitos artistas pensando juntos e tentando traduzir para o palco palavras, emoções, dúvidas e crises. Acho que essa é uma das grandes qualidades do texto: ele carrega não só a obra da Janaína, nem só a adaptação da Carla, mas também o diálogo que foi acontecendo entre os artistas e o nosso tempo”, continua.
Thaís nos detalha um pouco como foi seu trabalho na sala de ensaio com o elenco, formado por Luana Tanaka, Manuela Afonso e Marcelo Moraes. “Primeiro de tudo, pedi que eles gostassem do que estavam fazendo, que se divertissem e que a gente pensasse juntos sobre o discurso do espetáculo”, começa ela. “Mais do que pedir que eles se esforçassem para alcançar uma excelente interpretação, para mim era importante que eles também se sentissem representados por aquilo que estavam dizendo e fazendo em cena.”

A tarimbada encenadora explica melhor por que acha que é mais proveitoso trabalhar feliz no teatro. Ela esclarece: “Eu sempre insisto que os atores estejam felizes e se divirtam em cena, porque acredito que esse jogo cênico livre, aberto e revelado, como eu gosto de propor, é também uma forma de conquistar o público. Acho que a gente chega na plateia muito mais através da alegria e do prazer do elenco em estar ali”.
Tecnologia desafiadora é um tema que também está presente no cotidiano de Thaís Medeiros e sua família. Como ela lida com isso? “Meu filho, Santiago, tem quatro anos, e a tecnologia já aparece de diversas formas na vida dele”, relata.
“Nós estamos rodeados por telas, e ele também. Desde pequenininho, temos um desafio grande de controlar tanto o acesso ao que ele consome nas telas quanto o tempo que passa diante delas. A gente sente que, nesse momento de formação, esse estímulo tem um impacto muito maior. Ao mesmo tempo, reconhecemos o quanto é difícil resistir à captura das telas. Isso é uma questão que nós, adultos, também atravessamos. Eu atravesso, meu companheiro atravessa. Então, quando tentamos restringir ao máximo o acesso dele às telas, fazemos isso também pensando no que gostaríamos de ter conseguido fazer por nós mesmos, porque sentimos o quanto essa captura é forte”, afirma.
Pais tentando controlar o uso de aparelhos celulares dentro de casa – eis outra questão premente no mundo contemporâneo. Thaís comenta: “O que eu sinto que é especialmente desafiador dentro da nossa casa é o celular. É não olhar para o celular, não estar o tempo todo respondendo mensagens quando estamos com nosso filho. Às vezes estamos dando jantar, na praça, brincando, e existe aquela urgência de responder alguma coisa no celular. E eu sinto que o Santiago nos pede muito essa presença. Às vezes ele mesmo chama a nossa atenção quando estamos ao lado dele olhando para o telefone. Isso aparece muito concretamente na nossa casa e é algo com que temos nos esforçado bastante. Principalmente, deixar o celular de lado quando estamos juntos com ele. E, se formos assistir televisão, por exemplo, que seja um momento compartilhado: que a gente assista em família, esteja todo mundo junto, compartilhando aquele momento”.
Não tem, claro, como relacionar tudo isso com o assunto principal abordado em Eugênia e os Robôs. Com a palavra, a diretora: “Acho que, para mim, essa é uma das questões mais importantes que o tema da peça traz para dentro da nossa própria casa: não se trata apenas de controlar o acesso da criança à tecnologia, mas também de nós, adultos, refletirmos sobre a nossa própria relação com ela. Porque o futuro que queremos para nossos filhos também depende, de alguma maneira, do exemplo que damos hoje.”
Serviço
Eugênia e os Robôs
Sesc Pinheiros – Auditório. R. Paes Leme, 195
Domingos, 15 e 17h. Sessões extras no dia 12/10, 15h e 17h. R$ 40. Grátis para criança até 12 anos
Até 29 de novembro (estreia 11 de outubro)
