Novo espetáculo da Cia. De Feitos, “Vovó Surrealista”, baseado em livro do próprio diretor, Carlos Canhameiro, propõe uma série de ‘era uma vez’ para que o público de todas as idades possa “imaginar outras imaginações”
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 2 de outubro de 2026)
É assim que a peça se apresenta no seu material de divulgação. Vejam que máximo: “Era uma vez uma vovó que contava histórias… Ou era uma vez a história de uma vovó que… Ou a história do era uma vez da vovó… Ou era uma vez, duas, três mil histórias para todo lado, para todo gosto e até para dia cabisbaixo. Era uma vez tanta coisa! Era uma vez uma vovó cheia de era uma vez! Afinal, quantos Era uma vez cabem numa peça?”
Em cartaz no Sesc Belenzinho, Vovó Surrealista tem texto e encenação assinados por Carlos Canhameiro, da Cia. De Feitos. Eles sempre adaptam livros de um jeito muito original, mas nunca um livro próprio, de alguém da equipe, como é o caso agora, em que adaptaram o livro homônimo de Canhameiro. No elenco estão Carolina Moreira, Giscard Luccas, Marilene Grama, Odá Silva, mais um músico ao vivo, Yantó. Na entrevista que se segue, com Canhameiro, o diretor, você vai entender que uma peça não precisa embutir lições nem ser completamente explicadinhapara a plateia. Confira.

Quantos ‘Era uma vez’ cabem numa peça?
Talvez essa seja uma pergunta sem resposta, e talvez seja justamente essa a graça. Eu gosto de pensar que o “era uma vez” é menos o começo de uma história do que a abertura de uma possibilidade. Quando ele aparece, alguma coisa pode acontecer. Uma história pode começar, mudar de direção, se multiplicar, desaparecer e reaparecer de outro jeito. Em Vovó Surrealista, queria brincar justamente com essa ideia de que uma história nunca precisa estar completamente encerrada. Por isso, talvez caibam infinitos “era uma vez” numa peça. Cada história contada pode produzir outra na cabeça de quem escuta. Cada espectador pode sair levando uma versão diferente, ou até uma história que nem chegou a ser contada no palco. Para mim, o mais bonito é sustentar essa sensação de que ainda há alguma coisa por acontecer, mesmo quando a peça já tenha terminado.
Como foi adaptar o próprio livro? Facilidades? Percalços?
Essa é a primeira vez que a Cia. de Feitos trabalha com uma dramaturgia autoral. As cinco peças anteriores nasceram de adaptações de livros ilustrados de diferentes autores. Então foi um desafio particular, porque desta vez não havia um livro de outra pessoa para o qual precisássemos encontrar uma forma teatral. O livro era meu, a dramaturgia era minha e, justamente por isso, eu precisava não ficar preso a mim mesmo. Então, não fui fiel a mim mesmo. Acho que essa foi uma das condições para o trabalho acontecer. O livro é um ponto de partida, não uma espécie de escritura sagrada que a cena precisa preservar. Nas minhas escolhas como diretor, a teatralidade está sempre em primeiro lugar. Se alguma coisa funciona no livro, mas não funciona no palco, ela precisa mudar ou desaparecer. Também me interessa fazer uma peça que prolongue a experiência da leitura sem simplesmente transformar um livro em teatro. Existe uma contradição no próprio coração da peça. A vovó sabe ler e não sabe ler. A encenação tenta permanecer nesse lugar em que as coisas podem ser e não ser ao mesmo tempo.
Como o público tem recebido o espetáculo?
Tenho achado muito curioso perceber que o público encontra caminhos muito diferentes para entrar na peça. As crianças dançam sem que ninguém diga que é para dançar, falam com os atores, cantam, se assustam, riem. As menores, muitas vezes, parecem não se prender tanto à narrativa. Elas viajam nas imagens, nas canções, no jogo dos atores, nos espelhos. Não estão necessariamente tentando entender o que acontece, mas vivendo aquilo de algum outro jeito. As maiores, algumas vezes, querem entender melhor a história, especialmente porque os atores se revezam entre diferentes personagens e a própria narrativa brinca com essas mudanças. E, se não entendem, até se frustram. Os adultos também parecem encontrar maneiras diferentes de se entregar à experiência. Há quem entre no jogo junto com as crianças e se permita, por alguns minutos, não saber exatamente para onde a peça vai. Alguns até me inscrevem com leituras mirabolantes sobre a peça! E há, infelizmente, quem não consiga desligar o celular ou chegue ao teatro achando que já sabe o que as crianças querem ver e não aceitam outra possibilidade. Acho curioso porque Vovó Surrealista parte justamente do desejo de não antecipar demais o espectador. Não quero decidir previamente o que uma criança deve entender, sentir ou achar divertido. Quero criar um espaço e ver o que acontece quando cada um entra nele.

A Cia. De Feitos rompe com formatos tradicionais. Conte como é esse rompimento em Vovó Surrealista.
Não sei se eu diria que a Cia. de Feitos rompe com os formatos tradicionais. Prefiro dizer que acreditamos na inteligência e na fruição das crianças e pensamos o teatro como uma experiência ampla, que não precisa ser pedagógica ou moralista. Vovó Surrealista segue esse caminho. É, por um lado, uma peça bastante textual, mas, por outro lado, o texto é apenas uma das camadas. O teatro tem uma gama enorme de camadas para serem exploradas. Nessa peça, por exemplo, eu queria trabalhar o susto como um disparador da imaginação. Queria brincar com efeitos do estilo Monga do circo, em que o espelho revela, esconde, transforma e deforma. Um mundo analógico! A partir daí, fomos todos nos contaminando por um surrealismo menos histórico! Os figurinos não são propriamente representativos, o cenário não se entrega completamente e a luz, especialmente nos jogos de reflexão, cria imagens que podem levar as crianças para além do que está sendo narrado. O elenco se reveza entre as personagens, construindo uma narrativa mais ampla, e temos ainda a música ao vivo e a dança. Tudo isso parte de uma ideia de teatro como experiência sensível e dialética, em que nem tudo precisa ser explicado ou entendido. Gosto de pensar que o prazer de estar diante de uma experiência teatral pode ocupar o lugar das histórias moralizantes e das encenações que imaginam que, para crianças, tudo precisa ser apenas muito colorido, compreensível e previamente organizado.
O que mais você quer que as pessoas saiam pensando ou refletindo depois de ver a peça?
Eu não tenho a pretensão de controlar o que as pessoas vão pensar ou sentir depois da peça. Na verdade, acho que seria contraditório com a própria peça. Não quero entregar uma reflexão pronta, uma mensagem ou um dever de casa. Quero que crianças e adultos venham ao teatro e possam compartilhar esse momento. Criança merece mais do que dever de casa! Merece também o direito de experimentar, se divertir, se assustar, imaginar, não entender alguma coisa, entender outra de um jeito diferente e simplesmente estar ali. Se alguma coisa continuar depois que a peça terminar, ótimo. Pode ser uma imagem, uma pergunta, uma vontade de ler, de inventar uma história, de lembrar alguma coisa da própria infância ou de imaginar uma coisa que nunca existiu. Eu gostaria que a experiência permanecesse um pouco aberta, porque não acredito que o teatro precise produzir certezas. Muito mais do que contar a história de Vovó Surrealista, quero criar um espaço para que nós, as crianças e os adultos, possamos imaginar outras imaginações.
Serviço
Vovó Surrealista
Sesc Belenzinho. Sala 1. Rua Padre Adelino, 1.000
Sábado, dia 3, 17h. Sábado dia 10, domingo dia 11 e segunda dia 12, 15h. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos
