Peça traz uma leitura que cruza “Mão na Luva”, de Oduvaldo Vianna Filho, com os conceitos de Rainer Werner Fassbinder, Brad Fraser, Clarice Lispector e o imaginário de Magritte
Por Ubiratan Brasil (publicada em 23 de setembro de 2026)
Ator e dramaturgo, Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, deixou uma marca no cinema, TV mas principalmente no teatro, no qual teve voz ativa da resistência ao governo militar e deu importantes contribuições no rumo de uma cultura nacional-popular. Sua dramaturgia coloca em cena a realidade brasileira por meio do homem simples e trabalhador.
Escreveu peças que se tornaram clássicas como Chapetuba Futebol Clube (1959) além de criar um seriado de TV, A Grande Família (1973), que se tornou clássica. Entre tantos textos, um só foi conhecido depois de sua morte: Mão na Luva, apaixonado relato de amor escrito em 1966 e que só foi encenado em 1984, com direção de Aderbal Freire-Filho.

É justamente essa peça que um grupo de atores liderado pelo diretor Sergio Ferrara tomou como ponto de partida para O Tempo das Coisas, espetáculo que chega ao Teatro Nair Bello. Não se trata da montagem integral do trabalho de Vianinha, mas da fusão dele com as ideias do dramaturgo e cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder, do dramaturgo canadense Brad Fraser, da escritora Clarice Lispector e do imaginário do pintor belga René Magritte.
Se na peça de Vianninha um casamento está terminando e o casal passa sua última noite junto, na releitura dirigida por Ferrara o casal original é deslocado para uma investigação sobre gênero e as várias configurações do afeto.

Em cena, casais atravessam os escombros de suas histórias, entre encontros e desencontros, vivendo o paradoxo de ainda estarem presentes na vida um do outro mesmo depois do término. Com uma dramaturgia poética e não linear, a peça reflete sobre a busca por pertencimento, o vazio da ausência e o desejo de se reconhecer no outro, mesmo quando esse olhar já não existe.
As escolhas dos autores se justificam pois Fassbinder e Fraser tratam, a seu modo, da solidão crônica contemporânea, que também inspira os escritos de Clarice. Tudo sob olhar da pintura de Magritte, como Os Amantes, projetada no fundo do palco, que consolida sua marca como filósofo da arte moderna.
Serviço
O Tempo das Coisas
Teatro Nair Bello. Rua Frei Caneca, 569, 3º piso. Shopping Frei Caneca
Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 80
Até 4 de outubro (estreia 24 de setembro)
