Novo espetáculo do Coletivo Quizumba, “Algoriki – E Se Você Saísse?” procura mostrar ao público mirim, de forma criativa e poética, como a tecnologia pode ser bloqueadora de identidades e de crescimentos, ao privar o mundo da maravilha que é a arte do encontro
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 17 de julho de 2026)
Construir carreiras sólidas, duradouras e coerentes no reino delicado do teatro para crianças é tarefa hercúlea, que exige muita dedicação, persistência e coragem. Fundado por artistas e educadores provenientes do Instituto de Artes da Unesp, Escola Livre de Teatro de Santo André e SP Escola de Teatro, o Coletivo Quizumba – nascido em 2008 – é um desses grupos que merecem toda nossa atenção e respeito, com seu foco fechado nas narrativas e nos símbolos das culturas africanas e afro-brasileiras.
Já realizaram seis espetáculos. O mais recente, Algoriki – E Se Você Saísse?, está em cartaz no Complexo Funarte SP, onde ocupa a Sala Renée Gumiel até 9 de agosto. Em seguida, o espetáculo segue para o Teatro Alfredo Mesquita com apresentações de 15 a 30 de agosto. Todas as sessões são gratuitas.
Com direção de Thais Dias e dramaturgia de Tadeu Renato, Algoriki traz no elenco Camila Andrade (Ayrá), Jefferson Matias (Ayó), Kleiton Breda (Obá) e Bel Borges (Kossi). Em cena, eles são quatro crianças que vivem no mesmo prédio, mas só se conhecem quando um apagão interrompe toda a conexão com a internet e as obriga a deixar, pela primeira vez, a segurança de seus apartamentos. Um tema atualíssimo, urgente e abrangente.

“O apagão interrompe a rotina das crianças”, diz o dramaturgo Tadeu Renato. “Essa descida de seus apartamentos tem um aspecto quase mítico, presente em muitas narrativas: para encontrar o que procuram, é preciso atravessar um percurso, enfrentar provas e sair transformado. Curiosamente, é quando a luz acaba que eles começam a enxergar. Como se a iluminação da rotina escondesse aquilo que realmente estava faltando: o encontro, a brincadeira e a própria rua. Uma busca por outras formas de olhar para o mundo.”
No material para a imprensa, o grupo deixa claro que a peça quer mostrar “como os algoritmos, as telas e redes sociais influenciam a construção da identidade, dos afetos e da percepção do mundo entre crianças e adolescentes”.
Tadeu Renato comenta essa intenção do espetáculo: “A tecnologia não aparece na peça como uma vilã. Ela faz parte da vida das crianças e também cria possibilidades. O que nos interessava era pensar como os algoritmos organizam aquilo que vemos, sugerem desejos, modelos de beleza e até formas de nos relacionarmos. Aos poucos, eles acabam influenciando a maneira como a gente percebe o mundo e a nós mesmos. A peça convida as crianças a perguntarem: quem escolhe o que eu vejo? E quem escolhe quem eu quero ser?”.
A sinopse nos conta que, na peça, há “uma criança que costura caminhos”. O dramaturgo nos explica essa beleza de imagem na caracterização da personagem: “Ela é uma criança que aproxima pessoas. Ela não dá respostas prontas, mas cria encontros, abre caminhos e convida os outros a experimentar o mundo de outro jeito. A imagem de ‘costurar caminhos’ veio justamente dessa ideia de ligar o que estava separado: vizinhos que não se conheciam, crianças que estavam isoladas, o prédio e a rua, o virtual e o presencial”.

Algoriki – título que une as palavras “algoritmo” e “oriki” (identidade, em iorubá) – põe em evidência tudo o que se perde quando o brincar, a experiência compartilhada, o corpo e o encontro deixam de ocupar espaço na vida cotidiana. “Acho que se perde uma parte importante da infância”, opina Tadeu Renato.
“Brincar é experimentar o mundo com o corpo, negociar regras, inventar histórias, descobrir o outro e descobrir a si mesmo. A tecnologia pode ampliar experiências, mas ela não substitui o encontro. A peça nasce dessa vontade de lembrar que crescer também passa por ocupar os espaços comuns, brincar junto e perceber que a cidade pode ser um lugar de convivência.”
Serviço
Algoriki – E Se Você Saísse?
Complexo Funarte SP – Sala Reneè Gumiel. Alameda Nothmann, 1058
Sexta a domingo, 16h. Dias 1 e 8 de agosto, sessões duplas 14h e 16h. Grátis – Retirada de ingressos 1 hora antes
Até 9 de agosto (estreia 17 de julho)
Teatro Alfredo Mesquita. Av. Santos Dumont, 1770
Sábado e domingo, 16h. Grátis – Retirada de ingressos 1 hora antes
De 15 a 30 de agosto
