O texto “Uma velha canção, quase esquecida”, escrito em 2023, explora a busca da memória por um ator em um concerto, onde escreve suas lembranças para perpetuação de sua história
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 5 de maio de 2026)
Um velho ator vive a tragédia real do esquecimento. Diagnosticado com Alzheimer, ele escreve obstinadamente na tentativa de manter na memória os registros de pessoas e fatos que marcaram a sua trajetória. A sua busca incessante pela preservação de sua história é a estrutura dramatúrgica do texto Uma velha canção, quase esquecida, da autora irlandesa Deirdre Kinahan, em cartaz no Sesc Pompeia, com a Cia Ludens.
Com direção de Domingos Nunez, o elenco é formado por Genezio de Barros e Iuri Saraiva, ambos vivendo a mesma personagem. O primeiro enfrenta os dilemas do esquecimento já na velhice, enquanto o segundo é sua duplicação mais jovem de si mesmo. Os dois se encontram em um concerto no asilo onde o mais velho mora. Impulsionado pela música e por sua duplicação mais jovem, ele tenta reconstruir sua carreira e relembrar de sua família e seus amores.
Escrita em 2023, com o título original de An Old Song, Half Forgotten, a peça estreou no palco Peacock do Abbey Theatre, o teatro nacional da Irlanda, no mesmo ano. O texto propõe investigar a demência progressiva que afeta irrecuperavelmente a memória e o comportamento daqueles acometidos pelo Alzheimer.

Evidenciando esse processo degenerativo, com o protagonista muitas vezes metalinguisticamente lendo as falas escritas por ele mesmo – em seu esforço para não esquecer fatos e sensações de sua trajetória –, a encenação pretende explorar a relação desse homem consigo mesmo que, por intermédio de sua duplicação, identifica e interpreta as pessoas e peças que marcaram a sua vida e sua carreira de ator. No entanto, mesmo essas anotações escritas não são garantias de que os acontecimentos e indivíduos ficarão retidos na lembrança.
A música tem forte presença na condução da encenação, uma vez que os episódios e as figuras rememoradas da personagem surgem a partir delas e os sentimentos e atmosferas são igualmente desencadeados e sublinhados por elas em seus diversos timbres, ritmos e possibilidades sonoras. Já no início do espetáculo, os músicos Aline Reis, Mafê e Vinícius Leite estão em cena.
O que a princípio parece ser simplesmente o ato deles tocando um concerto em uma casa de repouso onde vive o protagonista, aos poucos, entende-se que se trata também de uma projeção da mente do protagonista, de mais uma possibilidade, como a palavra escrita, de organizar e reter as recordações de uma mente confusa acerca do tempo presente e de ocorrências do passado.
Serviço
Uma velha canção, quase esquecida
Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93
Quartas, quintas e sábados, 20h. Sextas-feiras, 16h e 20h. Domingos, 18h. R$ 60
Até 24 de maio (estreou em 2 de maio)
