Além de dirigir, Caio contracena com Ricardo Blat na dramaturgia baseada em três contos do escritor checo construída por outro primo, Rogério Blat
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 19 de março de 2026)
O ator Ricardo Blat, de 75 anos, reconstitui o dia em que conheceu o primo de terceiro grau, Caio Blat, hoje com 45 anos. Radicado no Rio de Janeiro, o intérprete paulistano veio visitar a família em São Paulo e se encantou com um menino de 3 anos sentado no tapete da sala. Ricardo se colocou ao lado dele e inventou a narrativa de uma cidade imaginária para distraí-lo. Para a sua surpresa, Caio contribuiu na contação de história, criando falas para os personagens e interferindo nas ações. “Fiquei impressionado e avisei aos pais dele: ‘esse garoto já é um ator’”, lembra Ricardo, primo do avô materno de Caio.
A previsão não demorou para se concretizar e, ainda no começo da adolescência, na década de 1990, Caio fez os primeiros trabalhos na televisão e no teatro. Ricardo, por sua vez, em 1998, ocupou o porão do Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, com dois espetáculos marcantes. Sob a direção de Gilberto Gawronski, ele protagonizou Na Solidão dos Campos de Algodão, do francês Bernard-Marie Koltés (1948-1989), e a peça infantil O Patinho Feio, parte de um projeto sobre o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), completado por A Roupa Nova do Rei e O Soldadinho de Chumbo, todos adaptados por outro primo, Rogério Blat.
Sentado na plateia, o jovem Caio se deu conta da dimensão artística daquele parente que via com certa frequência na televisão. “Na Solidão dos Campos de Algodão e O Patinho Feio foram duas porradas para mim”, diz o ator. “Imediatamente, o Ricardo se tornou uma referência de profissional que carrega todas as tradições do teatro e pode ser imprevisível, surpreendente em cena.”

A vida correu e, sem que Caio percebesse, aquele primo chegou aos 75 anos em 2025. É urgente, é a hora de corrigir essa falha e a gente deve trabalhar junto, pensou ele. O espetáculo Subversão Kafka, que estreia nesta sexta, dia 20, no Teatro do Sesc Bom Retiro, é o resultado deste encontro. Além de contracenar com Ricardo, Caio assumiu a direção do projeto que tem dramaturgia de Rogério, o terceiro primo, construída em cima de três contos do escritor checo Franz Kafka (1883-1924) relacionados à angústia dos artistas.
No palco, Caio e Ricardo interpretam dois atores de uma companhia teatral que realiza o último espetáculo e, na metalinguagem, Kafka traduz os desafios que pautam o dia a dia de quem se dedica aos palcos. Ricardo, porém, trata de frisar que a adaptação de Rogério busca uma comunicação ampla, e o resultado se afasta das abordagens excessivamente cerebrais que o escritor costuma receber no teatro. “Por isso, o título é Subversão Kafka”, avisa. “Não queremos fazer nada ‘cabeção’.”
No primeiro conto, O Artista da Fome, publicado em 1922, Caio é o ator que enfrenta um jejum público depois que as plateias começaram a rejeitá-lo. Em A Primeira Dor, de 1924, Caio assume a função de narrador para o protagonismo de Ricardo na história do trapezista que se recusa a descer para o chão, isolando-se na própria arte. “Eu me identifico com esta história porque fala sobre a ideologia de um artista diante de uma transformação do sistema e do mundo”, observa Ricardo. “Hoje, não existe segurança para nenhum profissional, seja artista, médico ou cientista, e só trabalhando não nos abatemos com isso.”
Por fim, Josefina, A Cantora, de 1924, novamente interpretado por Ricardo, traz a fábula de uma artista da música que perde a voz, mas continua idolatrada por seus fãs, os ratos que, surpreendentemente, lotam o teatro para reverenciá-la. “São os últimos textos escritos por Kafka, quando ele já estava debilitado pela tuberculose, quase morrendo”, afirma Caio. “Ao escrever Josefina, por exemplo, com a traqueia corroída, ele não falava mais.”

Mexer com as palavras do escritor é um sonho antigo de Caio. Em 2003, ele chegou a convidar o diretor Fauzi Arap (1938-2013) para acompanhá-lo neste projeto. “O Fauzi, com aquele jeito dele, disse ‘eu não entendo nada destes textos, não quero fazer’”, recorda. Caio, que, nos últimos anos, enfrenta um processo de reinvenção, tem trazido à tona ideias alimentadas desde a adolescência. A primeira delas, a adaptação teatral do romance Os Irmãos Karamázov, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), atravessou o ano passado nos palcos, em uma encenação assinada em parceria com a diretora Marina Vianna. “Estou tirando do baú projetos que tenho desde os meus 18 anos, antes de trabalhar na Globo.”
Na sala de ensaios de Subversão Kafka, Caio confessa que praticamente não precisou se esforçar como diretor e o processo fluiu de uma forma orgânica. “Foi um jogo de improvisação entre dois atores que evoluiu com base na intuição”, resume. Pode ser modéstia do diretor, mas é claro que, depois de comandar Os Irmãos Karamázov com um elenco de 15 intérpretes e uma história com múltiplos pontos de vistas, qualquer tipo de insegurança parecia driblada. “Eu já esperava que tudo seria mais suave até porque o Ricardo em cena é um acontecimento”, declara. “São poucos os que têm coragem de bancar certas atitudes, dentro ou fora da cena, como ele.”
Ricardo fica tímido ao ouvir os elogios feitos pelo primo e, como uma espécie de explicação, começa a listar a sua trajetória de muito trabalho e um deslumbramento cortado na raiz. Em 1968, ele estreou com um grupo de teatro amador em Mogi das Cruzes e, três anos depois, chamou a atenção na encenação do diretor Antunes Filho (1929-2019) para o clássico Peer Gynt, de Henrik Ibsen (1828-1906). Em 1975, o ator Paulo Autran (1922-2007) e o diretor Celso Nunes o convidaram para o espetáculo Equus, de Peter Shaffer (1929-2016), no Rio de Janeiro. A repercussão foi tanta que veio o convite da Rede Globo para a novela Estúpido Cupido, e o início de uma nova fase.
“Eu fiz em sequência as novelas Estúpido Cupido, Sem Lenço, Sem Documento, Te Contei? e Marrom Glacê e me iludi com a televisão, passei a me achar a cereja do bolo”, reconhece. “Foi o Rogério quem me alertou para esse excesso de vaidade e larguei tudo para correr o Brasil na peça Navalha na Carne, com a Glória Menezes, depois participei de Bent, ao lado do José Mayer, e entendi de vez onde era o meu lugar.”

Ricardo rejeita até hoje qualquer afetação e tem claro que o exercício de ator não é nada diferente de ser açougueiro, engenheiro ou motorista de ônibus. Há 40 anos, ele pratica medicação, foge de qualquer agito ligado ao mundo das celebridades e busca se reconectar com a natureza, sempre que é possível, na cabana que mantém em Teresópolis, na serra fluminense.
“Tudo o que procuro é um mergulho para recuperar a minha essência e, no teatro, que é como comida feita na hora, às vezes, eu consigo”, compara Ricardo. “Só que nada é garantido porque mesmo o melhor dos chefs pode errar o ponto ou o tempero e, naquele dia, a receita não dá certo.”
Serviço
Subversão Kafka
Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185
Sexta e sábado, 20h. Domingo e feriado (exceto dia 3 de abril), 18h. Sessões extras nos dias 17 e 24 de abril, sextas, às 15h, e 21 de abril, terça, às 18h. R$ 60
Até 26 de abril (estreia em 20 de março)
