Adaptado, dirigido e interpretado por João Garcia Miguel, “O Amor é Fodido” é inspirado na obra de Miguel Esteves Cardoso, que trata o amor como um sentimento de difícil compreensão
Por Ubiratan Brasil (publicado em 24 de fevereiro de 2026)
“Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso.” Assim comentou o escritor e crítico português Miguel Esteves Cardoso que, em 1994, lançou um de seus maiores sucessos comerciais, O Amor é Fodido. Polêmico no título, mas incisivo em sua trama, o livro inspira o monólogo de João Garcia Miguel de mesmo título, que estreia no Teatro Manás Laboratório, nesta quarta-feira, dia 25.
Na trama, definida pelo artista como “uma espécie de Romeu e Julieta contemporâneo”, João, já velho e inválido, recorda sua intensa e tumultuada relação com Teresa, um amor quase extremista e doentio, marcado pela impossibilidade de alcançar a perfeição e por um suicídio simulado de Teresa que João só descobre anos depois.
Ambos, porém, permanecem vivos e se reencontram 40 anos depois, paraplégicos e lamentando tudo o que poderia ter sido. Com foco na potência da palavra, João Garcia Miguel fala o texto e conversa com o público o tempo todo. “Ao contrário das últimas peças que eu fiz, nessa eu tenho que estar super disponível para a troca com os espectadores. E, durante os ensaios antes da estreia portuguesa, em janeiro de 2025, eu estive lidando com uma separação, o que adicionou outra camada ao trabalho”, afirma.

A montagem brasileira ganha especial significado graças à configuração do tipo arena do Teatro Manás Laboratório. O personagem veste preto e, por ser pintor, muitos dos seus desenhos aparecem pendurados pelo espaço. Completam a cenografia uma cadeira de rodas e um cubo.
Ao tratar o amor como um sentimento difícil de compreender, Miguel Esteves Cardoso construiu um livro radical, tanto na linguagem quanto na narrativa, organizado de forma fragmentada e sem ordem cronológica. “As escolhas estéticas do escritor causaram um rompimento na monotonia e em uma certa modorra portuguesa. Isso também me atraiu”, comenta João Garcia.
“O sobressalto começa no título. Mesmo o leitor menos experiente suspeita que, embora escritores de todos os tempos e lugares se tenham dedicado a tentar definir o amor, talvez seja improvável que alguém alguma vez tenha optado por terminar uma frase começada pela expressão ‘o amor é’ com a palavra ‘fodido’, observou o escritor e humorista Ricardo Araújo Pereira, no prefácio da edição portuguesa do livro.
Serviço
O Amor é Fodido
Teatro Manás Laboratório. R. Treze de Maio, 222
Quarta a sábado, 21h. Domingos, 18h. R$ 60
Até 29 de março (estreia 25 de fevereiro)
