“Projeto Wislawa”, espetáculo dirigido por Cesar Ribeiro que une oito poemas da autora a uma trama ficcional para tratar de destruição e autoritarismo, estreia no Teatro Paulo Eiró
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 3 de fevereiro de 2026)
Depois de Projeto Clarice, apresentado entre outubro e novembro, o diretor e dramaturgo Cesar Ribeiro investe em outra personalidade feminina da literatura para criar o seu teatro de conceitos e imagens. Projeto Wislawa, que estreia nesta sexta, 6, no Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro, coloca as atrizes Clara Carvalho e Vera Zimmermann em um jogo metalinguístico idealizado sob a inspiração da obra da poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012).
Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996, ela alternou em poemas curtos um olhar sensível para o cotidiano, o afeto e a infância com visões críticas do mundo a partir de temas duros, como a tortura, o nazismo, a Guerra do Vietnã ou os atentados ao World Trade Center – momentos históricos acompanhados de perto pela escritora. “Essa visão da ação e da destruição foi o que mais me interessou na obra dela desde que a li pela primeira vez, há uns 15 anos”, afirma Ribeiro. “A questão para levá-la ao palco é que as poesias são curtas demais para construir uma narrativa e precisei pensar em outra solução para não parecer uma colagem.”
Ribeiro, de 54 anos, encontrou tudo o que move as suas encenações dentro do universo de Wislawa. Desde o começo desta década, ele se aprofundou em uma pesquisa sobre os efeitos destrutivos do totalitarismo. As peças O Arquiteto e o Imperador da Assíria (2022), Dias e Noites de Amor e de Guerra (2024), Prontuário 12.528 (2024),Trilogia Kafka (2025) e até mesmo Projeto Clarice são exemplos de suas montagens pautadas por sistemas autoritários que se transformam em violência estrutural e cultural. Referências das histórias em quadrinhos e do mundo pop completam a sua estética.

O desafio desta vez seria trazer a contundente visão social e política de Wislawa Szymborska associada ao teatro e às disputadas de poder que, segundo o artista, permeiam a obra da escritora polonesa. Depois das adaptações em torno de Clarice Lispector (1920-1977) e Wislawa, o encenador pensa em desenvolver projetos similares em cima de outros escritores, como a brasileira Lygia Fagundes Telles (1918-2022), o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e o inglês Oliver Sacks (1933-2015). “Há um caminho de fazer Clarice, Wislawa ou qualquer outro escritor a partir da representação dele mesmo no palco e isto não me interessa”, garante Ribeiro. “Eu busco a essência de cada autor, como ele pensa e como o mundo se manifesta através de sua obra.”
Para fugir de um recital ou de um teatro biográfico, Ribeiro criou uma dramaturgia em diálogo com oito poemas de Wislawa, e uma personagem fictícia – interpretada por Clara Carvalho – assume o comando da ação como simbologia para a destruição da poesia no cotidiano. Em cena, a atriz é a assassina fictícia que matou Wislawa e, às vésperas da execução na cadeira elétrica, reflete sobre passagens fundamentais de sua história, como a infância e a juventude, e as motivações que a levaram ao crime. Na vida real, a poeta morreu na cama, dormindo, devido às complicações de um câncer de pulmão, aos 88 anos, na Cracóvia, onde morava desde a infância.
Vera Zimmermann, de 61 anos, interpreta quatro personagens, entre elas a própria Wislawa. As outras são duas mães, a da assassina e da escritora polonesa, além de uma amiga de infância da criminosa. “Em sua maioria, as falas da Vera são extraídas dos poemas de Wislawa e criam uma unidade dentro de uma estrutura que sustenta a violência no conflito”, diz o diretor. “O texto de Clara, ao contrário, é praticamente todo ficcional e criado por mim.”
Clara Carvalho, de 67 anos, se tornou uma parceira constante de Ribeiro – está no terceiro trabalho com o diretor, depois de Prontuário 12.528 (2024) e o recente Projeto Clarice. A atriz conheceu Wislawa no livro Um Amor Feliz, que leu em 2020, no começo da pandemia, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Ela ficou impressionada com uma poesia tão sucinta e repleta de ironia e profundidade e com uma autora capaz de tratar de temas delicados de um jeito tão desconcertante.

“O Cesar tem o dom de trazer para a cena um universo literário associado à violência”, define Clara. “Aqui, acho que ele vai um pouco mais longe ao representar, através da minha personagem, essa obsessão de coisas vivas que desejam matar outras coisas vivas, não apenas pessoas, mas a poesia, a criação artística, a solidariedade.”
Ao contrário de Clara, Vera é uma artista mais experiente em montagens que fogem do realismo, devido aos seus trabalhos com encenadores como Gerald Thomas e Gabriel Villela. Projeto Clarice foi o seu primeiro espetáculo com Ribeiro, e o convite para participar de Projeto Wislawa surgiu no meio daquele processo.
A artista, sem conhecer a obra da poeta ou mesmo ler da dramaturgia preparada para a peça, confirmou a sua participação sem pestanejar. “Eu acredito na sua condução e na maneira como ele pensa o teatro, sem naturalismo e com extrema intensidade”, justifica. “Fácil não é, mas só o desafio pode me transformar e me fazer crescer.”
O primeiro contato de Vera com Wislawa foi mesmo através da leitura da dramaturgia e veio o encanto imediato com a sua simplicidade, a clareza e a beleza para falar de vida, morte, tragédias e do próprio teatro sem qualquer solenidade. “O Cesar, além de excelente diretor, escreve muito bem e costurou as palavras de Wislawa com a trama da assassina de uma forma que fica difícil saber onde está a poesia ou a ficção”, elogia a intérprete. “Como autor, ele encarnou a própria poeta na feitura deste texto.”
Serviço
Projeto Wislawa
Teatro Paulo Eiró. Avenida Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro
Quinta a sábado, 20h.Domingo, 19h. R$ 20. Sessão extra no dia 25 (quarta), 20h
Até 1º de março (estreia 6 de fevereiro)
