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Uma peça para as crianças conhecerem a força feminina das palhaças

Sinopse

“A Cavaleira”, com o Grupo Bota Fulô, inaugura o horário de teatro infanto-juvenil do Teatroiquè, no bairro do Butantã, e mostra com força e diversão o protagonismo feminino ainda tão raro na arte da palhaçaria

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 6 de fevereiro de 2026)

Teatroiquè, no Butantã, um dos espaços teatrais mais novos de São Paulo, inaugura em fevereiro uma programação dedicada também às infâncias. O primeiro espetáculo infantil já estreou, no domingo passado, e segue por mais três semanas. Trata-se de A Cavaleira, do Grupo Bota Fulô. É a primeira montagem infantil a ocupar o palco do teatro e marca o início de um projeto permanente voltado a crianças e famílias.

Sempre aos domingos, às 11h, a peça, dirigida e coescrita por Vini Silveira, propõe uma narrativa poética inspirada no circo itinerante, em Dom Quixote e na palhaçaria latino-americana, colocando em cena uma protagonista feminina que ressignifica a figura do cavaleiro herói. “O primeiro domingo de A Cavaleira no Teatroiqué foi emocionante e muito simbólico”, conta Vini. “Sentimos o público extremamente presente, atento e disponível para a escuta. As crianças, que acompanharam a história com curiosidade, riso e silêncio nos momentos mais delicados, e os adultos, como tem sido costume, nos elogiaram por serem contemplados com o espetáculo. Houve uma troca verdadeira, daquela que só acontece quando todo o público se sente parte da jornada.”

Cena do espetáculo infantil A Cavaleira. Foto Igor Franco

Sobre o novo teatro, ele acrescenta: “O Teatroiqué se mostrou um espaço acolhedor, potente e necessário: um teatro que nasce já com vocação para o encontro, para a experimentação e para o diálogo com a cidade”. Bruna Alves, Jackson Gleizer e João Bastos estão no elenco. “Trabalhar com o Bota Fulô é uma experiência de troca constante, confiança e escuta”, garante o diretor. “Minha relação com eles é de parceria artística e afeto. As ideias circulam e se transformam no encontro. A Cavaleira nasce justamente dessa relação, de um desejo comum de falar sobre arte, resistência e imaginação.”

“O que mais peço ao elenco é que se divirtam”, relata Vini. “Que vivam quando estão em cena! A história já está em seus corpos, mas a descoberta de como ela vai atravessar o público é constante e depende da escuta – deles mesmos, do público e do próprio ridículo. Peço precisão sem perder o jogo, entrega sem perder a consciência. Eles respondem com generosidade, rigor e disponibilidade para experimentar. Existe um entendimento de que o espetáculo se constrói no detalhe, no olhar, e no erro que vira achado.”

Achado mesmo é essa vontade forte de homenagear as palhaças. Mais amplamente: o feminino na arte. Vini deita e rola ao comentar: “Retratar a força feminina na palhaçaria é um ato político e poético. Historicamente, o riso, a coragem e o heroísmo foram associados ao masculino, enquanto às mulheres couberam, muitas vezes, papéis secundários. Em A Cavaleira, a palhaça ocupa o centro da narrativa como motor da ação, da imaginação e da resistência. Isso amplia o imaginário das crianças – especialmente das meninas – e reafirma que a comicidade, a bravura e o desejo de transformação também pertencem às mulheres”.

Quais seriam as palhaças preferidas de Vini Silveira e que serviram de referência para A Cavaleira? “Tenho profunda admiração por palhaças que abriram caminhos e reinventaram linguagens, como Gardi Hutter, Pepa Plana e Angela de Castro”, responde, de pronto. “No contexto latino-americano e brasileiro, me inspiram palhaças que misturam humor, política e delicadeza, que fazem da vulnerabilidade uma potência e da presença em cena um gesto de afirmação. Também sou fã de Maristela Chelala!”

O Grupo Bota Fulôna na peça A Cavaleira. Foto Igor Franco

Mas o que a palhaça tem que o palhaço não tem? Vini se aprofunda na resposta: “A palhaça carrega uma história de resistência específica. Ela traz no corpo não só o fracasso humano universal, mas também as marcas de um mundo que historicamente tentou silenciá-la. Isso faz com que sua presença em cena seja, por si só, um gesto de afirmação. A palhaça ri, cai, insiste – e, ao fazer isso, abre espaço para outras formas de existir, rir e ocupar o mundo”. O espetáculo não poderia deixar de render tributo especial à eterna palhaça Jujuba (Julieta Hernández), que morreu tragicamente em 2024, vítima de feminicídio.

A Cavaleira, que Vini escreveu com Ricardo Martins, faz uma escolha pela estética monocromática. O diretor explica a intenção: “A escolha pelo monocromático amarelo nasce da ideia de que, em um mundo regido por lógicas duras e pragmáticas, as cores vão pouco a pouco se apagando. Costumo dizer que, se não restasse nenhum fio de esperança, essas personagens seriam cinzas. Mas, como é justamente a esperança a única coisa que possuem, é a ela que se agarram – e o amarelo passa a ser a cor que vestem e que carregam consigo. Contudo, ao fim da história, um novo horizonte se abre…” É isso mesmo, Vini, sem spoiler. Vamos conferir? 

Fique de olho também nas próximas atrações para crianças do Teatroiquè: Marie e a Descoberta Luminosa, com a Companhia Delas, entre 28 de fevereiro e 21 de março, no horário das 15h, e Do Outro Lado do Rio, com a Cia. Peixes Voadores, de 8 a 29 de março, também aos domingos, 15h. 

Serviço

 A Cavaleira

Teatroiquè. Rua Iquiririm, 110 – Butantã

Dias 8 e 22 de fevereiro e 1º de março, domingo, 11h. R$ 70

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Ficha Técnica

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Serviço

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