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“Travessia” enfoca naufrágios da atualidade sob a perspectiva de intérpretes de diferentes culturas

Sinopse

Com dramaturgia e direção de Gabriela Mellão, o espetáculo ganhou forma inspirado no quadro “A Balsa de Medusa”, do francês Théodore Géricault

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 1º de abril de 2026)

A jornalista, dramaturga e diretora paulistana Gabriela Mellão, de 51 anos, não sabia nada ao certo. Estava à deriva nos pensamentos e descartou qualquer princípio de razão até chegar a um ponto. Ela queria pesquisar o universo do encenador inglês Peter Brook (1925-2022), começou a se reunir com alguns colegas, como o ator Ney Piacentini e o escritor João Wady Cury, e lá se vão mais de dois anos. Até que veio uma luz: só faria sentido se fosse desenvolvido algo específico do teatro de Brook, como o trabalho dele com atores e atrizes de diferentes etnias e culturas, travado em Paris na década de 1970.

Desta proposta, tão difícil de executar e um tanto idealista, nasceu Travessia, espetáculo com dramaturgia e direção de Gabriela, que estreia nesta quarta, 1º, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. No longo processo, os parceiros foram se modificando, as poucas certezas sendo derrubadas e, na sala de ensaios, a artista começou do zero para levantar uma montagem que brotasse das vivências de cada um.  Intérpretes conhecidos da cena paulistana, como Miriam Rinaldi, Rodrigo Bolzan e Vitor Britto, dividem o palco com artistas em situação de deslocamentos em um painel sobre experiências diversas e questões referentes à desigualdade social e a crise humanitária. 

Prudence Kalambay e Shambuyi Wetu, que vierem da República Democrática do Congo, Mariama Bintu Bah, da Gâmbia/Senegal, a brasileira indígena Dani Mara, o boliviano indígena Mario Tadeo e o venezuelano Victor GeeRosales completam o elenco multicultural e colaboradores da dramaturgia coletiva. “Foi uma travessia de troca, de repensar a vida e, agora, este sonho começa a acontecer”, diz a diretora. “Esqueci completamente o Peter Brook e fui me contagiando com o que ouvia deles para criar uma ficção que desse conta desta representatividade.”

Cena do espetáculo Travessia, com artistas-colaboradores. Foto Bob Sousa

Não há nada, porém, mais Peter Brook. Para que esta história ganhasse um eixo, Gabriela idealizou em cena a imagem de uma balsa que flutua como metáfora para as injustiças e os naufrágios de hoje. A inspiração surgiu na sala de ensaios a partir da ideia do quadro A Balsa de Medusa, do francês Théodore Géricault (1791-1824), que retrata a fragata francesa que afundou na costa africana depois da negligência de um capitão movido por interesses políticos. 

Sem botes suficientes, 150 pessoas foram abandonadas em um barco precário e apenas 15 sobreviveram depois de duas semanas. O ano era 1816, mas, infelizmente, não surpreenderia se uma notícia deste tipo fosse divulgada nos tempos atuais em que o racismo, a xenofobia e a intolerância ainda rendem discussões urgentes. “Foi interessante partir de uma história real, o retrato artístico das injustiças do mundo, e trazer a narrativa para as travessias de cada um”, observa Gabriela. “Fiz entrevistas individuais, fui misturando situações como se fosse um jogo e só queria que eles ficassem felizes com as suas falas.”

A dramaturga e diretora comenta entusiasmada o perfil dos artistas-colaboradores que serviram de material para o espetáculo. Prudence Kalambay, por exemplo, foi Miss Congo, trabalhou para o governo de seu país, tem cinco filhos e três netos e, vivendo há 13 anos em São Paulo, cursa a faculdade de direito. O seu conterrâneo Shambuyi Wetu é artista plástico, e Mariama Bintu Bah, da Gâmbia-Senegal, participa de movimentos feministas e grupos da ONU (Organizações das Nações Unidas) sobre mulheres africanas. “Todos têm uma vida difícil, mas se viram de algum jeito”, conta Gabriela. “Ao mesmo tempo, é um grupo que carrega uma alegria contagiante.”

Outra cena do espetáculo Travessia, de Gabriela Mellão. Foto Bob Sousa

Em uma das cenas, o elenco participa de uma audição para uma peça teatral em que disputam os papéis de Clitemnestra e Egisto, personagens clássicos da tragédia grega, e, logo, o agrupamento da espera para o teste se transforma em uma fila da imigração em que se misturam tensões entre identidade e poder. Gabriela, porém, descarta as intenções de um teatro político ou documental e abre espaço para múltiplas camadas a cada cena. 

O ator Rodrigo Bolzan é a simbologia do pensamento do teatro no papel do comandante do navio, em meio a constantes instabilidades e belezas transformadoras. Victor Britto, do Coletivo Ocutá, representa uma cobra que é engolida por uma mulher e vive a transformação de uma vivência ideal para a adaptação em um dito mundo civilizado. A atriz Miriam Rinaldi entrou no processo disposta a falar sobre etarismo, mas se deu conta de que há questões mais relevantes que aquelas que afligem uma mulher branca, artista e de classe média. “Todo mundo precisa ser ouvido, mas fomos nos adaptando diante das experiências tão fortes”, diz a autora e diretora.

Gabriela é jornalista de formação e viveu a virada do século em Paris, onde começou a se interessar e frequentar teatro. No Brasil, passou a escrever sobre artes cênicas para a revista Bravo! em 2005 e, entre 2008 e 2012, foi repórter da Folha de S. Paulo. Os primeiros cursos de dramaturgia e história do teatro foram feitos enquanto morou em Boston, nos Estados Unidos, ainda na década de 2000 e, para as primeiras peças ganharem a cena, foi questão de tempo.

Em 2008, A História Dela, montada no Espaço dos Satyros 2, foi a primeira delas. Na sequência vieram Sagrada Família, Depois do Nada, Nijinsky – Minha Loucura É o Amor da Humanidade, DesolaDor, Kansas, Mutações e Chego Até a Janela e não Vejo o Mundo, entre outras. “Nasceu tudo muito junto, então o jornalismo e o teatro na minha vida sempre se alimentaram um do outro e não imagino o exercício de um ou outro separados”, justifica. “É uma responsabilidade que está na mesma caixinha que os meus dois filhos e não há discussão.”

Mesmo que tudo tenha se iniciado pela dramaturgia é através da encenação que a artista se realiza. Gabriela se considera uma diretora visual, imagética e aposta na intuição, inclusive para praticar o desapego com o que ela mesma escreve. “Acho que a cena sempre precisa de mais imagens e menos texto e corto o que for preciso o tempo todo”, assume. “Eu tenho dificuldade com o real, com o concreto, tudo o que faço é bem abstrato e, no entanto, não há nada mais real que o trabalho em Travessia.”  

Serviço

Travessia

Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1000

Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h30. Não haverá espetáculo na sexta, dia 3. Sessão extra na terça, dia 21. 18h30 R$ 50.

Até 3 de maio (estreia nesta quarta, 1º, 20h)

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Ficha Técnica

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Serviço

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