“Quando Anoitece”, espetáculo da Muntu Produções, em cartaz no Sesc Bom Retiro, conta a história da menina negra Melânia, que se ressente por não se identificar fisicamente com nenhum de seus amiguinhos
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 27 de março de 2026)
Ter orgulho das próprias raízes é algo que precisa ser ensinado às crianças desde cedo, sobretudo para aquelas que sofrem bullying e acham que têm motivos para duvidar da força de sua raça. Melânia é uma menina que tem sua turma de amiguinhos, mas se sente solitária muitas vezes, porque é negra e não se identifica fisicamente com nenhum de seus colegas.
Quando Anoitece, em cartaz todos os domingos no Sesc Bom Retiro, até 19 de abril, é um espetáculo para crianças e adultos que conta a história de superação da menina Melânia, pincelando no palco temas muito sérios, que ainda alguns adultos pensam que “não são coisa de criança”, como pertencimento e identidade.
“O público tem recebido o espetáculo de uma forma muito bonita”, diz o diretor Flávio Rodrigues. “Percebo que tanto as crianças quanto os pais, responsáveis e cuidadores se conectam bastante com a história. As crianças se encantam com a linguagem leve e com a cenografia. Já os adultos se emocionam com as referências à própria juventude, como o rádio do Lucas Silva e Silva, o ‘Meu Primeiro Gradiente’ e as brincadeiras de rua, como amarelinha, entre outras brincadeiras.”

No transcorrer da ação, Melânia transita entre seu quarto e o quintal da casa, dois espaços que a montagem valoriza bastante. O diretor explica: “Como eu também penso a cenografia, desde a leitura do texto, já começo a imaginar os possíveis universos. Isso me ajuda a criar, de maneira orgânica, as transições entre os ambientes. Para este trabalho, criei uma casa giratória: a fachada representa a frente da casa, com um quintal, e o interior revela o quarto. Assim, uma única atriz pode girar a estrutura e, de forma simples, apresentar o novo espaço”. Ele acrescenta: “A luz e a interpretação também ajudam a marcar essas mudanças, reforçando as atmosferas de cada ambiente”.
O que será que Flávio Rodrigues mais martelou na cabeça do elenco, para que temas como o valor da amizade, o caminho do respeito e a afirmação da negritude não ficassem perdidos na brincadeira e sem força dramática? “Na direção do elenco, escolhi acentuar principalmente a dimensão do amor e a valorização da diversidade de corpos, sejam eles negros, gordos ou atípicos”, responde Rodrigues. “Acredito que é por meio da escuta e do afeto que podemos realmente fazer a diferença, criar um futuro mais bonito, fraterno. Por isso, peço ao elenco que se lembre da própria infância. Que acesse a memória da amizade, da sensação de pertencimento, da alegria de se sentir acolhido.” Estão em cena Amanda Linhares, Conrado Costa, Leonardo Garcez, Marina Espinoza e Thaís Cabral, como Melânia, também idealizadora da peça.
Em casos como o de Quando Anoitece, uma das armadilhas é cair na “liçāo de moral” explícita, na tal “mensagem da peça”, tāo comuns no teatro infantil didático e chato. A dramaturga Le Conde nos conta o que pensa disso: “Escapar da lição de moral só se torna possível se deixarmos o foco no lugar certo. O amor e a amizade são maiores do que a moral. A moral é importante, mas quando se torna uma lição moralizante, ela acaba atrelada ao julgamento. Uma local de julgamento, como os tribunais, deveria ser somente para adultos. É algo necessário, mas chato, cansativo, pesado. Via de regra, na arte e na vida, quando fazemos tribunais a todo momento, nos tornamos intolerantes, injustos, acusadores e acabamos tratando tudo como presunção de culpa em vez de inocência. E, veja bem, culpados existem! E devem ser julgados e punidos. Mas quando tratamos crianças com lição de moral, quando tudo tem uma lição moralizante, então estamos indiretamente acusando as crianças de não terem nem conhecerem a moral.”
Le Conde se aprofunda ainda mais na questão: “A peça precisa ser e ter moral, mas jamais ser moralista, pois isso seria julgar e acusar as crianças de serem praticantes daquilo que coloco ali (preconceitos vários). Infelizmente temos casos de crianças que são criminosas, mas muitas vezes isso não é por falta de lição de moral, mas da falta de moral em si: que moral tem um pai ou mãe que não cuida e educa seu filho ou filha? Que moral tem uma escola que aceita tudo por dinheiro? Que moral tem um mundo onde pode tudo e tudo se relativiza? Não são as crianças que precisam de lição de moral, mas os adultos que nada (parece) aprenderam. A mensagem não precisa ser explicitada como quem profere uma sentença: quem tiver coração entenderá, reconhecerá.”

Todos os temas sérios de Quando Anoitece são mostrados à plateia sob o ponto de vista de uma criança. Escrever desse jeito é um grande desafio para os dramaturgos que se debruçam sobre criações de censura livre. Le Conde comenta essa tarefa hercúlea – e tão delicada ao mesmo tempo – em seu ofício: “Acredito que o desafio seja superar o meu preconceito sobre o que seja ser criança e a chatice de me julgar muito adulta. Assuntos sérios são também de interesse das crianças, o repertório para explorar e explicar é que mudam com a idade. Tratar a criança como um ser que ‘não entende nada’ é uma falácia, não é à toa que os traumas se enraízam mais facilmente em nós quando somos pequenos, ainda que a criança tenda a aumentar ou não apreender por completo um acontecimento (diminuindo-o). Por exemplo, ao sofrer com o racismo, ela pode não conseguir compreender a extensão total disso, a gravidade do crime, mas sempre há um entendimento de que é algo indesejável, ruim ou, no mínimo, estranho. Cria um ruído, uma marca, que mais tarde sangrará como ferida aberta, ao se dar conta do que passou.”
Ela arremata: “Quem escreve precisa ter empatia e cultivar nossa criança interior para que saibamos levar a sério, como adultos, todas essas questões, curando-as com a leveza de uma criança que toca a vida e canta, porque sabe que o amor e a amizade são maiores do que os males e que podemos crescer não só em estatura física, mas também em medida interna ao nos tornarmos maiores do que aquilo que nos afligiu um dia. Escrever para criança é saber que um dia elas crescerão e que o hoje será repertório para interpretarem o amanhã. E é também saber que os adultos um dia foram crianças e precisam se lembrar de que as conquistas de hoje só fazem sentido se nós fizermos como crianças, crianças melhores do que fomos e do que os adultos que somos.”
Serviço
Quando Acontece
Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185
Domingos, 12h. Sessão extra no feriado de 21 de abril, terça-feira, 12h. R$ 40. Grátis para crianças com até 12 anos.
Até 21 de abril (estreou 8 de março)
Espaço Cultural Inventivo. Rua Limeira, 19. Q. da Paineira. Próximo da estação de metrô Vila Prudente
Dias 25 e 26 de abril, sábado e domingo, 15h. Sessões gratuitas e com audiodescrição
