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Peça recupera o salvador encontro entre Graciliano Ramos e Nise da Silveira; veja vídeo

Sinopse

Com direção e dramaturgia de Gabriela Mellão e João Wady Cury, a peça “Chego Até a Janela e Não Vejo o Mundo” mostra a beleza da amizade nascida durante o horror do Estado Novo

Por Ubiratan Brasil

Denunciados e presos como subversivos, duas importantes figuras da arte e da ciência brasileiras acabaram se conhecendo em uma situação marcada pela violência: o escritor Graciliano Ramos (1892-1953) e a médica Nise da Silveira (1905-1999). É a amizade nascida em condições tão inóspitas que trata a peça Chego Até a Janela e Não Vejo o Mundo, em cartaz no teatro do Itaú Cultural.

Alagoanos, eles foram presos pela ditadura Getúlio Vargas nos anos 1930 por “contrariarem” o regime. Nise foi presa em 1936, denunciada por uma enfermeira como comunista (ela nem pertencia ao PC) e ficou detida na Casa de Detenção ao lado de Olga Benário Prestes. Já Graciliano foi preso em Maceió, em março do mesmo ano, acusado de ser um militante apoiador da Intentona Comunista, uma tentativa de golpe contra o governo Vargas, em 1935. O escritor ficou detido, sem acusação formal, passando por prisões em Recife e no Rio de Janeiro, até ser libertado em janeiro de 1937.

Reconhecida como a pioneira no uso dos tratamentos humanizados para os pacientes com transtornos mentais, Nise ficou presa até agosto de 1937, quando então escapou da prisão e se escondeu no interior da Bahia. Em 1938, ela foi absolvida das acusações.

Cena da peça Chego até a janela e não vejo o mundo. Foto Giorgio D’Onofrio

“Eles se conheceram de uma forma muito peculiar”, conta João Wady Cury, que assina a direção e a dramaturgia com Gabriela Mellão. “Quando Nise chegou na prisão, um amigo de Graciliano queria apresentar os dois por serem alagoanos. Ele relutou porque estava sofrendo muito na prisão, mas acabou cedendo. Foi o encontro de um homem mais magro que o habitual com uma mulher pequenininha que, Graciliano já sabia, era conhecida do médico Mário Magalhães da Silveira, com quem ela se casaria. Foi uma situação constrangedora.”

Wady Cury lembra que logo as diferenças se dissiparam, pois ambos tinham objetivos comuns, como a curiosidade pelo ser humano, o amor pelo cinema, que é lembrado de uma forma poética na peça. “É uma ficção carinhosa muito carinhosa pois começamos a delirar e criamos situações, como o fato de estarem na mesma ala, apesar de serem homem e mulher. O detalhe é que foram empurrados para a ala dos presos primários no presídio Frei Caneca, o que facilitou o encontro.”

Cena da peça Chego até a janela e não vejo o mundo. Foto Giorgio D’Onofrio

“Para contar essa história vivida por Nise e Graciliano, abordar o horror da perseguição política e a beleza da amizade nascida entre grades, nos interessava a cumplicidade criada no claustro entre eles sem abrir mão de uma narrativa onírica e poética de um lado, e também aterrorizante e delirante do outro. Sem esse abstrato não há como retratar o que eles passaram na prisão”, conta Gabriela Mellão, que começou a elaborar a peça ao trocar inúmeras mensagens com Cury durante o período de reclusão imposto pela pandemia da covid.

Até que, num certo dia, para dar mais colorido à conversa, ela propôs escrever como Nise enquanto ele responderia como Graciliano. “Concordei desde que a gente deixasse de ser pessoa física, ou seja, assumiríamos mesmo nossos personagens”, respondeu ele. Foi, de fato, estimulante. “Eram pessoas complementares, mas, como há pouca informação sobre a história da Nise, foi mais difícil acessar detalhes. Há o contraponto entre os dois: ele é mais sisudo, minimalista, enquanto ela é mais falante, apaixonada, questionadora”, disse Gabriela.

Quando foram presos, os dois estavam em momentos diferentes da carreira. Graciliano já tinha publicado Caetés (1933) e São Bernardo (1934), além de ter sido prefeito de Palmeira dos Índios e diretor da Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente a Secretário Estadual da Educação. Já Nise da Silveira trabalhava no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, após ter concluído uma especialização em psiquiatria.

O encarceramento gerou impactos diferentes em cada um. “Graciliano publicou livros logo ao sair da prisão, filiou-se ao Partido Comunista, foi candidato a deputado e relatou sua experiência em Memórias do Cárcere, publicado postumamente. Ao contrário dele, depois de liberada, Nise passou oito anos escondida no interior da Bahia por medo de ser presa novamente. Só retomou a sua carreira em 1944, quando a perseguição política do Estado Novo foi amenizada”, acrescenta Wady Cury.

A definição do elenco tornou-se uma tarefa mais fácil que o imaginado. Simone Iliescu, por exemplo, acabara de filmar uma série para o Canal Curta sobre cientistas brasileiros. “Meu papel era o de uma atriz que estuda o trabalho da Nise da Silveira para interpretá-la e, coincidentemente, depois disso, João e Gabriela me chamaram para viver a Nise no palco”, observa.

Erom Cordeiro revelou muitas coincidências, a começar pelo fato de também ser alagoano. “Tão logo João e Gabriela me convidaram para participar da peça, eu tinha acabado de ler Memórias do Cárcere, que me permitiu descobrir o encontro da Doutora Nise com o Graciliano na prisão.”

O livro é considerado um dos clássicos da literatura brasileira e ficou inacabado: faltava escrever só mais um capítulo d quando Graciliano faleceu, em março de 1953. Apesar de inacabado, o livro foi publicado de forma póstuma em setembro do mesmo ano. Originalmente foram quatro volumes, com uma “Explicação final” assinada pelo filho do escritor, Ricardo Ramos, como se fosse uma conclusão. Logo, Memórias do Cárcere se tornou o maior sucesso de Graciliano que, apesar de elogiado pela crítica, era pouco lido pelo público em geral.

Veja trechos da dramaturgia de Chego Até a Janela e Não Vejo o Mundo, assinada por João Wady Cury e Gabriela Mellão:

GRACILIANO

Eu escrevo. Somente escrevo. Escrevo o que vejo, não invento coisas que não existem porque o mais importante é retratar a realidade como ela é para que as pessoas que não vivem esta realidade saibam como é. O mundo das minhas histórias é o mundo que eu vejo e que vivo. É por isso que escrevo. Para as pessoas. Como você. Fazemos pelo outro, por quem precisa, por quem merece.

NISE

Você acha que eu compreendo as pessoas que estão doentes, que são pobres e que sofrem por estar aqui? Eu me identifico com elas, me sinto uma delas.

GRACILIANO

Há frases que tomam todas as horas do dia, até que fiquem como eu espero. Não faço planos, sigo, somente sigo. (..) As crises passam, tão certo como a vida passa. Então por que diabos prende indivíduos como eu, para quê?

NISE

Ser livre é ter espaço interno para poder ser o que se é? Eu sei quem sou? Em nome do que eu me corrompo? Em nome de desejos? (…) Ter de seguir as normas sociais, as leis e as imposições? De quais condutas estou me referindo, as do sistema, as dos poderosos, do meu ego, do meu inconsciente?

Serviço

Chego Até a Janela e Não Vejo o Mundo

Sala Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, Piso Térreo. Tel. (11) 2168-1777

Quinta-feira a sábado, 20h. Domingos e feriados, 19h.

Entrada gratuita. Reservas de ingressos pela plataforma INTI – acesso pelo site do Itaú Cultural:  www.itaucultural.org.br

Até 14 de abril

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Ficha Técnica

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Serviço

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