O espetáculo ‘Rua’, da premiada Fran Ferraretto, que estreia no Sesc Pinheiros, usa música e dança para falar da amizade tocante entre um menino de comunidade e um garoto de bairro rico
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 27 de fevereiro de 2026)
Se você for ao Google e perguntar para essa espécie de enciclopédia digital o que é passinho, a resposta será: dança urbana brasileira, criada nos bailes funk do Rio de Janeiro, nos anos 2000, misturando ritmos como samba, frevo, break e capoeira com movimentos rápidos e técnicos dos pés e das pernas. O passinho foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio e é marcado pela improvisação e agilidade.
Depois dessa consulta, vai ficar mais fácil você entender qual o conceito do espetáculo infanto-juvenil Rua, que estreia neste fim de semana no Sesc Pinheiros, em São Paulo, usando como força motriz de sua dramaturgia justamente o conceito de passinho. É o terceiro texto de censura livre escrito pela jovem e fervilhante dramaturga Fran Ferraretto. Os outros dois foram A Minicostureira e Valentim Valentinho.
Além de ser autora, Fran está em cena, ao lado de Barroso, Fernando Lüfer, Jennifer Souza e Rodrigo Pavono, time bom sob a batuta do diretor Eugênio Lima, estreante na função. Fran conta que foi “menina de rua”, mas que a peça é “mais um resgate de memórias do que propriamente uma criação autobiográfica”.
Ela garante: “É claro que me inspirei na minha rua no interior de São Paulo, onde a infância acontecia em outro tempo e em comunidade, e fui muito feliz com meus amigos e irmãos. Mas também vivi a realidade dura da desigualdade social. E esse contraste é muito profundo na formação de qualquer pessoa, às vezes até se transformando em um marcador limitante. No meu caso não foi, porque minha família e nossos sonhos sempre salvaram a gente. E isso, por exemplo, foi algo que eu levei da minha história para a dramaturgia, porque sinto que é um contexto que faz parte da vida de muita gente”.

Rua e infância não deveriam nunca ser dissociadas, daí a importância dessa peça ser prestigiada por crianças de cidade grande, moradoras de edifícios. “Brinquei muito na Rua Bahia, que fica na minúscula cidade de 3 mil habitantes, chamada Barão de Antonina, no interior de São Paulo”, relata a autora. “Tenho a lembrança de passar o dia inventando brincadeiras, e já naquela época fazia as minhas peças de teatro com as minhas amigas, e tinha uma banda também (risos).”
Fran Ferraretto sentiu-se segura para abordar o tema da rua e completamente tranquila quanto a ter seu lugar de fala. “Eu e meus irmãos fomos criados em periferia, mesmo depois que viemos embora do interior”, prossegue.
“Naquela época a gente não tinha tanta noção social. Aquela era a nossa vida e ponto. Mas conforme a gente foi crescendo, fomos percebendo os vários mundos dentro do nosso, e essa divisão ficou bem clara. Então, resgatei muito dessa consciência que foi desabrochando em mim, além de também fazer uma pesquisa em algumas comunidades de São Paulo. Tomei muito cuidado para de nenhuma forma romantizar esse tema tão sensível no nosso País, e ao mesmo tempo quis fugir dos estereótipos que reforçam a desigualdade social e racial. Nesse sentindo, o Eugênio foi um grande mestre e parceiro nas trocas e criações. Sempre responsável e atento ao muitos assuntos sérios que abordamos na nossa peça, sem perder a alegria fundamental que o texto propõe, e que acho necessário na abordagem com o público infanto-juvenil.”
No enredo de Rua, o personagem Jeffinho, menino muito talentoso que adora fazer rimas e passinhos, mora em uma comunidade vizinha de um dos bairros mais ricos da cidade. Um dia, brincando na rua que divide as duas condições, ele conhece Lucas, um garoto da mesma idade e que mora do lado de lá. Apesar das diferenças, eles se tornarão amigos e viverão, juntos, descobertas boas e ruins sobre o mundo e a sociedade.

“Essa peça fala de sonhos e oportunidades”, complementa Fran. “Mas também fala de amizade, família e sociedade. Tudo isso ao som de rimas e passinhos, porque essa foi a minha escolha para simbolizar a alegria, a brincadeira e o jogo. Espero que, por meio dessa linguagem feliz e dançante, as crianças sintam e percebam o quão grande pode ser a nossa rua, se a gente gostar das diferenças e entender o valor de sonhar.”
“O público vai observar que, nessa relação entre os dois amigos, Jeffinho sempre vai ser o que vai apontar em Lucas os marcadores sociais contidos na fala do menino”, diz o diretor Eugênio Lima, “desde a forma como ele se refere às pessoas do seu mundo até os indicadores sociais (ter celular, usar roupas de grifes). O Lucas, por sua vez, admira o universo que está conhecendo em Jeffinho, mas não tem habilidade para praticar passinho e dancinha. Ele quer dançar, mas não consegue.” São exemplos de como as classes sociais serão retratadas diferentemente em cada personagem.
Por que incluir passinho em peça infantil? O diretor responde com muita propriedade: “O passinho tem uma marca muito forte brasileira. Colocar isso em peça para crianças é expandir o campo poético desse púbico mirim para além do que está acostumado a ver no teatro. Passinho ocupa o lugar que dança de rua e hip hop ocuparam no início dos anos 1990 até 2000. O passinho e a dancinha fazem parte de uma cultura do funk que muito provavelmente é a mais escutada e admirada no mundo todo neste atual momento histórico. O funk é o código de uma geração e simboliza principalmente a juventude negra periférica contemporânea.”
O diretor Eugênio Lima conta ainda que, durante os ensaios, teve duas frentes de orientação ao elenco, a ética e a estética. “Pedia para nunca naturalizarem os diálogos a ponto que parecessem coloquiais o tempo todo, para garantir o distanciamento entre ator e máscara”, relata. “Outra coisa foi fazê-los encarar a música do espetáculo não como acidental, mas como dramaturgia. A música sempre entra para comentar alguma ação. Ah, e também não infantilizar os personagens, apesar de serem crianças. Não é necessário exagerar nos gestos e na voz.” ´Sábias palavras. Que a peça tenha vida longa e celebre a diversidade da forma mais eficiente possível.
Serviço
Rua
Sesc Pinheiros – Auditório – R. Pais Leme, 195
Domingos, dias 1º, 8, 15, 22 e 29 de março, em duas sessões, 15h e 17h. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos
Até 29 de março (estreia 1º de março)
