Peça do dramaturgo norueguês Fredrik Brattberg é construída por um ciclo de repetições que marcam a vida de um casal em luto por um filho – a reaparição da personagem morta é o que conduz o drama
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 12 de fevereiro de 2026)
A dramaturgia escandinava, marcada por nomes como Henrik Ibsen e Jon Fosse, se afirma com a presença do também norueguês e compositor de música clássica Fredrik Brattberg, que explora em sua escrita um humor ácido e uma forte inclinação para retratar unidades familiares implosivas.
Sua obra, já traduzida e encenada em diversos países, recebe agora sua primeira montagem no Brasil do texto O Retorno, no qual uma mãe e um pai vivem o luto pela morte de seu único filho, até que ele reaparece. O espetáculo, com direção de José Roberto Jardim e atuação de Helena Ranaldi, Leonardo Medeiros e Pedro Waddington está em cartaz no Sesc Santana.
O texto desconstrói o ideal da família contemporânea e revela suas fragilidades, em uma narrativa marcada pela dualidade entre o corriqueiro e o imprevisível e, ao mesmo tempo, comovente e satírica. As variações de cenas e ações repetidas, uma característica marcante da escrita de Brattberg, refletem sua formação musical e sua habilidade como compositor. Ele propõe uma dinâmica que transborda para a cena: ritmo, pausa, tempo, espaço, intensidade, suavidade e moderação são as ferramentas que compõem essa partitura dramatúrgica.
“Brattberg possui uma estrutura baseada na repetição e na variação de cenas cotidianas. Essas repetições, que inicialmente podem parecer familiares e até confortáveis, gradualmente levam o público a perder as certezas sobre a narrativa, revelando novas camadas de significado, tons ocultos e verdades desconcertantes”, revela Jardim.

Sobre essa construção da dramaturgia e a partir da influência que a música tem em sua escrita, Brattberg afirma: “Estudei composição e passei a maior parte da minha juventude compondo música. Na música, a repetição é o ingrediente formador fundamental. A repetição na música é o que permite que uma peça tenha um processo. Quando uma melodia retorna pela segunda vez em uma sinfonia, ela geralmente é composta de forma um pouco diferente e executada de maneira um pouco diferente. Quando a melodia volta, ela mudou, foi influenciada pelas melodias tocadas entre uma aparição e outra”.
É isso o que se nota também em sua escrita, a partir das repetições que acontecem. No caso de O Retorno, a volta constante do filho que, no início do texto, estava morto.
A montagem traz parcerias marcantes da vida. Em cena há o reencontro da dupla Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros, que juntos já fizeram como casal A Música Segunda, em 2009, peça baseada em Marguerite Duras; e a novela A Favorita. E pela primeira vez Ranaldi dividirá a cena com seu filho, Pedro Waddington.
Serviço
O Retorno
Sesc Santana. Avenida Luiz Dumont Villares, 579
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Sessões extra nos dia 16 e 17/02, segunda e terça, 18h (carnaval), e 27/02, sexta, 15h. R$ 60
Até 1º de março (estreou em 30 de janeiro)
