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“O Rei Leão”: nos anos 1990, peça com ator afro-americano era sobre racismo, diz Julie Taymor

Sinopse

Criadora de um dos musicais de maior sucesso de todos os tempos fala com exclusividade ao Canal MF sobre a importância da representatividade e da ilusão do teatro

Por Ubiratan Brasil

A diretora e criadora Julie Taymor jamais tinha visitado a África nos anos 1990, tampouco conhecia a animação O Rei Leão, que a Disney lançou em 1994 e alcançou sucesso planetário. “Acho que ela era uma das poucas pessoas no mundo que não sabia do que se tratava o desenho”, brinca Thomas Schumacher, presidente da Disney Theatrical Group, o braço teatral da The Walt Disney Company. “Mesmo assim, seu trabalho no teatro e no cinema me convenceu de que ela teria o olhar necessário para transformar a versão em musical também em sucesso.”

De fato, desde que estreou na Broadway em novembro de 1997, O Lei Leão logo se transformou em um dos mais duradouros êxitos entre os musicais, encantando mais de 112 milhões de pessoas ao redor do mundo, das quais mais de 850 mil no Brasil. Aqui, uma versão estreou em 2013, que contou com a supervisão de Julie Taymor e revelou o talento de Tiago Barbosa. Agora, uma nova montagem está em cartaz no Teatro Renault, com praticamente todos os ingressos vendidos até o final do ano.

O mais encantador é que o “segredo do sucesso” da encenadora foi o de apostar nas regras básicas de ilusão do teatro. Julie simplesmente criou uma encenação artesanal: máscaras transformam os atores em leões e outros animais surgem como marionetes manipulados pelo elenco. Há também o uso original do figurino e até o tradicional teatro de sombras. E, em todos os momentos, o mecanismo é visível pela plateia, que identifica os artistas trabalhando.

Sobre seu processo criativo, Julie, que esteve em São Paulo ao lado de Schumacher julho para  a estreia da montagem nacional, conversou com exclusividade com o Canal MF. Acompanhe:

Plateia acompanha o trabalho dos atores na criação do personagens. Foto Caio Gallucci

“O Rei Leão” estreou em novembro de 1997 e você ainda está envolvida com o show. O que ainda te fascina neste musical?
Estou envolvida porque eu me orgulho e quero que o show seja bom em todos os lugares onde estrear, em todas as línguas. Acho que o trabalho de uma companhia é isso. O elenco aqui é diferente, assim como os bailarinos, mas a produção será tão boa como a de 2013 e como foi originalmente. Quando chego, às vezes me envolvo com a escolha do elenco, especialmente quando há alguma dúvida (aí eu decido), ou algo relacionado à música. Um pouco antes da estreia também me aproximo, pois, como a diretora original, sou a pessoa autorizada a dizer “não, você não tem que fazer isso”, porque estou assistindo aos atores e, mesmo não entendendo o idioma, sei o que estão dizendo. Consigo enxergar os dons dos performers e trazê-los mais para fora. Não quero que façam uma cópia do que viram. Como diretora, eu faço peças de Shakespeare, filmes, trabalho com Anthony Hopkins, com os melhores atores do mundo. Em O Rei Leão, algumas pessoas cantam melhor do que atuam, mas posso dirigi-las para alcançar o melhor de si, e sobretudo para trazê-las de volta para a história, porque a coisa mais fácil é fazer com que as pessoas relaxem com o humor ou com a beleza, e para mim o motivo de O Rei Leão ser tão poderoso é ser uma história que transpassa gerações e culturas, todas as culturas, alta, baixa, rica, pobre, todas elas contém a criança querendo sair, entrar em erupção, e isso acontece inclusive em culturas animais, como com os leões.

“Religiões como cristianismo, judaísmo, funcionam mais como ‘gostamos disso e não daquilo’, são mais como times de futebol, e não resolvem as questões da sobrevivência da alma”

Como assim?
Está na espiritualidade ao ensinar uma jovem criança que não estaremos aqui para sempre, mas viveremos dentro dela para sempre e, se ela olhar para as estrelas, estaremos todos lá. Essa é uma compreensão existente em muitas culturas sobre espíritos ancestrais. Acredito que a nossa cultura moderna é a mais doente no sentido de que perdemos essa conexão, perdemos nossa espiritualidade. Agora as religiões como cristianismo, judaísmo, funcionam mais como “gostamos disso e não daquilo”, são como times de futebol, e não resolvem as questões da sobrevivência da alma, não dão respostas. Eu provavelmente conto as mesmas histórias recorrentemente. Sempre preciso conversar com o elenco sobre como o show afeta as pessoas na plateia, incluindo eu mesma. Meu pai foi para o hospital na estreia original do show e nunca saiu, ele morreu. O mesmo aconteceu com o filme Frida, que dirigi: enquanto trabalhava com O Rei Leão na Austrália, eu me encontrei com pessoas que assistiram ao longa e umas delas me contou sobre sua identificação com Frida e seu sofrimento, pois havia acabado de superar um câncer. Pensei, então, “meus deus, se um trabalho artístico que faço é capaz de causar isso, então estou conectada com o propósito original de ser um xamã, uma diretora, uma atriz, uma escritora”. É isso que me mantém. Posso sentir isso na plateia e nos atores.

É essa sua relação com a arte?
Sim, gosto da antiga forma de contar uma história em duas horas, no teatro ou no cinema. Estar aqui e sentir a plateia é realmente ter uma experiência. Quando você entra em um grande templo e vê sua beleza, isso provoca um “oh!”. Se você fica parado, olhando para baixo, maltratando seu pescoço, é completamente diferente. É por isso que gosto do começo do segundo ato, quando as pessoas veem as pipas. São seres humanos vestidos com roupas tradicionais africanas e você sabe que são performers, mas gosto que a plateia perceba que a seda e uma vara de bambu podem ser animadas para criar algo em que se acredita. Não vou colocar pássaros automatizados voando pelo teatro, nós poderíamos, ou drones, não seria problema, mas…

“Nas produções da Broadway do anos 1990, se uma pessoa afro-americana estivesse no show, esse certamente seria sobre racismo”

Cena do espetáculo musical O Rei Leão, com os personagens Nala e Simba. Foto Caio Gallucci

O musical trata de temas delicados como a morte e principalmente de raça e não racismo.
Há vinte anos, não havia Obama e ninguém acreditava que um dia haveria um presidente americano preto. E há um retrocesso agora, certo? Quando criei O Rei Leão, tive de decidir quem seriam os atores, afinal, eles carregam os pássaros, mas há o ser humano. Então fui ao produtor da Disney, Tom (Schumacher), e disse que noventa por cento do elenco não seria branco… Há havaianos, asiáticos, afro-americanos… Parecia o certo a se fazer, por causa da origem dos animais e das várias tradições que inspiram a história. Há papéis como Timão e Pumba, mas naquele tempo, nos anos 1990, em todas as produções da Broadway, se uma pessoa afro-americana estivesse no show, esse certamente seria sobre racismo, e aqui tratamos de animais, o reino animal.

E como funcionava?
A diferença é que, quando uma plateia branca assistia a O Rei Leão, ela não percebia a questão de raça, mas quando era uma plateia negra, aí sim, e surgia de uma maneira muito poderosa. Há um rei negro! Os personagens negros na TV eram traficantes, não tinham alçado um patamar no qual as personagens negras podiam ser médicas. Então, é algo fascinante para as crianças verem Simba, Nala… O personagem mau, Scar, não é negro, mas há maquiagem marrom sobre ele, você não sabe exatamente, mas é perceptível… Não marrom exatamente, mas a maquiagem com a cor do leão. Timão é verde, não branco. E senti que era importante ter a presença da sonoridade negra, as vozes. E meus colaboradores eram um grupo de excelentes artistas que por acaso eram de raças diferentes.

E você insistiu em personagens femininas mais fortes como a jovem leoa Nala.
Isso vem se tornando mais comum. Sabe, Oppenheimer é Oppenheimer e Barbie é Barbie. Mas e se Oppenheimer fosse mulher e Barbie fosse um homem gay e cor-de-rosa? Quando dirigi A Tempestade, de Shakespeare, montei a peça três vezes com excelentes atores masculinos vivendo o protagonista, Próspero. Eu não tinha um favorito, não sabia quem eu queria. Foi quando encontrei Helen Mirren em uma festa. Adoro Mirren, Meryl Streep, Judy Dench, atrizes maravilhosas acima de 50 ou 60 anos, mas não há papel para elas em Shakespeare. Então, quando conversava com Helen tive meu momento da Rafiki, e perguntei: “você se interessaria em fazer Próspero?”, ao que ela respondeu: “fiz Calibã quando eu tinha 20 anos”. Então pensei em mudar, não em fazê-la interpretar um papel masculino, “vamos transformar Próspero em Próspera”, porque é a única peça de Shakespeare que permite isso. O Rei Lear não funciona com Lear sendo mulher, porque é muito masculino o que ele faz, e há distinções. Mas Próspero é acusado de ser um feiticeiro. Quem mais eram queimadas em fogueiras? Mulheres! Então a ideia de que esse cientista, esse dique, cuja esposa se tornou duquesa, poderia ser uma mulher, uma líder, que é acusada de feitiçaria, como uma bruxa. E Gonzaga a manda para o exílio em vez de queimá-la na fogueira. Isso funciona muito bem com Shakespeare, não foi forçado. E agora você vê isso o tempo todo, mulheres fazendo papéis masculinos.

“É preciso respeitar a plateia, ainda que muitas pessoas a idiotizam: há muito teatro ruim por aí porque se acredita que as pessoas não podem usar sua imaginação”

Cena de tensão entre os irmãos Scar e Mufassa, no musical O Rei Leão. Foto Caio Gallucci

Anos atrás, você disse que as limitações são o que te excita em trabalhar no teatro. Então, a imaginação é muito melhor que a realidade?
Para mim, isso significa respeitar a capacidade da plateia de preencher as lacunas. Eles não precisam da literalização de todas as coisas, mas podem usar sua imaginação para pensar “ok, eu sei que é um homem em pé ali e ele tem uma máscara sobre sua cabeça, mas vou aceitar que é um leão. Vou aceitar que, quando essa máscara fica em sua posição horizontal, este leão está em seu modo mais animalesco e violento de ser, mas, quando a máscara se levanta, esse homem é o equilíbrio entre rei e leão”. É preciso respeitar a plateia, ainda que muitas pessoas a idiotizam e que há muito teatro ruim por aí porque se acredita que as pessoas não podem usar sua imaginação e têm a capacidade de saber.

Qual outro exemplo?
É quando as lágrimas das leoas caem e usamos fitas de seda branca – qualquer criança sabe que são lágrimas. Adultos sofisticados, no entanto, diriam “isso é inteligente”, ou “isso não é uma forma de arte japonesa?”. Como adulto, você pode atravessar muitas camadas de significado e uma criança simplesmente sabe que algo abstrato é real. Eu passei por isso: você pode tirar o ator que manipula o Timão e um grupo de crianças não vai perceber e vai continuar falando com o Timão. Não podemos perder essa habilidade de saber que Timão é Timão, independente de que há um ator por trás. Acredito sempre que O Rei Leão é uma história que transcende idade, gênero e raça. Há um ditado que ouvi de animadores maravilhosos que trabalharam em no filme Frida – eles recriaram o dia dos mortos, e me disseram esse lindo comentário: “a arte que criamos é como um elevador subindo, não 13, mas 14 andares, pois sempre há um andar faltando, e você permite que a plateia saia em qualquer andar”. Shakespeare é um exemplo perfeito de um elevador de multi andares, porque se pode aproveitar o sexo, o humor, a ótima narrativa, a performance, mas haverá ainda políticos, líderes, religiosos ou acadêmicos que discutirão a poesia e a qualidade da linguagem. É como quando eu vivi em Bali.

Como foi?
As peças de nove horas duravam a noite toda e tinham múltiplos reis e histórias e o público, especialmente crianças, vinha e aproveitava. Você poderia descobrir um incrível tema político acontecendo naquelas peças. Aprendi sobre isso em minhas viagens para a Ásia quando tinha 20, 21 anos, e também aprendi fazendo Shakespeare. E acredito que grande parte do enorme sucesso de O Rei Leão é que há diferentes portas abertas. Uma pessoa brasileira me disse que estava conversando com um artista e, sabe quando se pergunta a um artista “qual é a história?”, ele mostrou que a função do artista é a de abrir a porta, e não mostrar o que você já sabe. Na verdade, é mostrar o que você não sabe. Vejo isso no cubismo – não posso ver a parte de trás da minha cabeça. Mas há milhares de shows com a habilidade de fazer isso, e pode haver mais.

“Abandone essa ideia de que você precisa contar a sua própria história – pelo menos até você sair e então olhar para trás”

“Eu queria que O Rei Leão tivesse elegância, e não fosse fofo”, você disse a Oprah em seu programa. Acredito que esta seja uma das chaves criativas do seu processo, certo?
Fiquei muito inspirada quando vi desenhos de Chagal levados para o teatro, ou os bonecos de Picasso, máscaras africanas, marionetes japonesas. São esculturas mais sofisticadas. No Japão, visitei o estúdio de um criador de máscaras No e vi como ele organizava seus pincéis de pintura e ferramentas de esculpir e como as máscaras tinham que ser posicionadas, o ritual e respeito pela peça que ele estava criando, a história e seu significado. Essa juventude na Ásia para mim é inspiradora – você tem de sair da América! Saia da sua vizinhança! E abandone essa ideia de que você precisa contar a sua própria história – pelo menos até você sair e então olhar para trás. Quando você sai e então olha para si mesmo de longe, aí você pode contar essa história. Meu filme Across the Universe tem essa história. Sou uma escultora, e sim, meu bonecos se parecem com a animação original, mas não muito, quando olha para a máscara de Scar, você o reconhece, mas a maneira como eu a esculpi, meu estilo de pintura, ali revelo meu conceito. Eu não queria uma pintura com aerógrafo com a cara da Disney. Elas são as minhas máscaras e eu queria que fossem como uma madeira japonesa, então isso foi uma nova imagem para a Disney lá atrás, esse tipo de arte. E eles felizmente estavam abertos, a porta estava aberta.

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