Sob a direção de Bruno Perillo, texto do advogado Régis de Oliveira estreia no Teatro Itália e reforça uma corrente nos palcos
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 5 de setembro de 2025)
Uma leva de peças com temáticas psicanalíticas e filosóficas tomou conta dos palcos paulistanos nas últimas temporadas. A Última Sessão de Freud, dirigida por Elias Andreato, e Freud e o Visitante, montagem do Grupo Tapa, que pode ser vista atualmente no Teatro Moise Safra, são dois destes casos. Outro exemplo é Helena Blavatsky – A Voz do Silêncio, monólogo escrito pela filósofa Lúcia Helena Galvão com a atriz Beth Zalcman na pele da pensadora russa, que volta à cidade neste sábado, 6, no Teatro B32, na Avenida Faria Lima.
Uma surpresa junto ao público foi O Deus de Spinoza, texto de estreia do advogado Régis de Oliveira lançado em 2022 e visto por 25 mil pessoas em 102 apresentações. A peça recuperou o pensamento do filósofo holandês Baruch de Spinoza (1632-1677), condenado no século 17 por refletir sobre a relação do ser humano com Deus e a Natureza e contestar dogmas religiosos. Em cinco temporadas na capital, o espetáculo dirigido por Luiz Amorim e protagonizado por Bruno Perillo passou pelos teatros UOL, Itália e Centro Cultural São Paulo e estimulou Oliveira, profundo estudioso do gênero filosófico, a uma nova investida na dramaturgia.

O resultado é O Julgamento de Sócrates, o seu segundo texto, que estreia nesta sexta, 5, no Teatro Itália, para enfocar o grego conhecido como o “pai da filosofia”. Desta vez, Perillo é o diretor, e Amorim interpreta o protagonista, invertendo as funções do trabalho anterior. O elenco conta ainda com outros oito atores, como Carlos De Niggro, Marcus Veríssimo, Nalini Menezes e Roberto Borenstein.
A obra se desenrola a partir da visão de outro pensador fundamental da antiguidade clássica, Platão (428 a.C. – 347 a.C.), já que o personagem principal não publicou nada em vida. Acusado por três cidadãos atenienses de corromper a juventude e profanar deuses, Sócrates é levado ao tribunal e condenado à morte e, na prisão, ele tem a possibilidade de fugir e escapar da execução da sua pena. Como exemplo de ético, ele opta pela coerência e enfrenta o próprio destino.
“É um personagem que dialoga profundamente com a atualidade porque toda filosofia parte de uma negação do saber que a aproxima da sabedoria”, afirma Perillo. “Quando se ouve Sócrates dizer ‘só sei que nada sei’ em tempos de verdades absolutas como os que vivemos agora a mensagem ganha uma força enorme.”
Para o diretor, as questões humanas levantadas não envelheceram e continuam pertinentes na sociedade atual – apesar das transformações. Enquanto Sócrates é condenado à morte por desmontar o pensamento das pessoas e parir as novas ideias de um raciocínio lógico, a humanidade vive um momento em que as discussões foram banidas e quem pensa diferentemente de um grupo sequer tem chance de ser ouvido fora de sua bolha.
“Este homem gera instabilidade por não compactuar com o sistema”, diz Perillo. “Todo mundo tem o direito de dar a sua opinião, mas, hoje em dia, é preciso separar as opiniões sensatas daquelas emitidas por quem não tem conhecimento para falar sobre o assunto ou quer agir de má fé.”
O Julgamento de Sócrates ganha os palcos com uma certa tranquilidade por parte da equipe. Quando estreou O Deus de Spinoza, existia um receio em relação à recepção do conteúdo por se tratar de um filósofo que questionou os livros sagrados judaicos. A boa receptividade, no entanto, chamou a atenção do autor, dos produtores e do elenco. Régis de Oliveira levantou a peça com recursos próprios, manteve as temporadas com o retorno das bilheterias e só contou com verbal de edital para uma circulação pelo interior do Estado.

“São espetáculos que pegam uma outra fatia de público que foge do drama burguês e das questões políticas e andava desacostumada a frequentar teatro”, observa Perillo. “As plateias ganham novos ares porque são pessoas interessadas em um aprofundamento de ideias.”
Como ator, o paulistano Bruno Perillo, de 55 anos, construiu bases nos grupos Tapa e Folias, companhias de correntes distintas que o ajudaram a enxergar o teatro com um olhar diverso. Sua primeira direção foi Nada Mais Foi Dito nem Perguntado, em 2005, peça coletiva inspirada em contos do advogado criminal Luís Francisco Carvalho Filho, montada no Galpão do Folias, sob a coordenação de Marco Antônio Rodrigues, o líder do então Folias d’Arte. “Por coincidência, a gente abordava esse mesmo universo jurídico”, lembra.

O artista calcula que até hoje foram doze encenações sob o seu comando nascidas de textos de diferentes temáticas e estilos. Velhos Tempos (2006), do inglês Harold Pinter (1930-2008), cruzava o realismo com o absurdo, Chernobyl (2019), da francesa Florence Valéro, era centrada em uma família que sofre as consequências dos desastres radioativos, e O Beijo no Asfalto (2019) comprovou a atualidade da dramaturgia de Nelson Rodrigues (1912-1980) ao suscitar debates sobre fake news e homofobia.
O recente Copo Vazio adaptação do romance de Natalia Timerman levada aos palcos no ano passado, usou o metateatro para falar de responsabilidades afetivas em tempos de encontros digitais. “Eu fui moldado pelo teatro clássico do Tapa e pela linguagem de rua do Folias e, como ator e diretor, navego pelas duas fronteiras para alcançar o público”, completa Perillo, que tem 35 anos de carreira.
Serviço
O Julgamento de Sócrates
Teatro Itália. Avenida Ipiranga, 344
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. R$ 100
Até 16 de outubro (estreia 5 de setembro)
