Encenador está com duas montagens em cartaz criadas a partir de textos do dramaturgo para dialogar com o atual momento político
Por Ubiratan Brasil (publicada em 11 de novembro de 2025)
Nelson Rodrigues (1912-1980) foi um dos maiores dramaturgos brasileiros, autor de um conjunto de peças que ainda instiga os criadores da atualidade. O diretor Nelson Baskerville é um deles e está com dois espetáculos inspirados em Rodrigues em cartaz em São Paulo. Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária ou no Brasil todo mundo é Peixoto, em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, é uma distopia na qual um espelho cruel reflete as hipocrisias brasileiras. E, em 17x Nelson – onde os canalhas pagam por seus crimes, no Espaço Barra Funda, jovens artistas desfilam por 50 personagens em várias situações. Curiosamente, as duas montagens são montadas em teatros localizados na mesma Rua Barra Funda.
Nelson Rodrigues não abrandava em seus textos – trágicos em sua aparente banalidade, oprimidos sob o peso de uma religião arcaica e castradora, os personagens rodrigueanos tentam matar dentro deles desejos, pulsões e instintos que acabam por explodir nas mais tortuosas maneiras. E, quando isso ocorre, divididos pela contradição entre desejo e culpa, só no sofrimento ou na morte encontram a redenção de seus pecados. Mas, em meio a tanta tragédia, Nelson conseguia captar também o patético, o que tornava seus textos repletos de bom humor.

Em Otto Lara Resende…, Baskerville parte do avanço da extrema direita para contar a história de Edgard, um homem marcado pela miséria apesar de anos de dedicação ao patrão Werneck, que recebe uma proposta tentadora: casar-se com Maria Cecília, jovem rica e “bonitinha” , mas envolta em um passado controverso. A partir do dilema entre dinheiro e moralidade, o personagem é arrastado para um universo de desejos reprimidos, traições e valores distorcidos.
Já em 17x Nelson, o encenador reúne fragmentos originais das 17 peças mais conhecidas de Nelson Rodrigues. Por meio de 50 personagens, a peça mostra, em quase todas as cenas, que os canalhas sofrem as consequências, com a falha trágica de cada anti-herói. A peça busca dialogar com o momento político ao revelar o lado hediondo que todo ser humano possui.
“Nos anos 1940, o dramaturgo começou a detectar esse tipo brasileiro, racista sem parecer ser racista, homofóbico sem parecer homofóbico, misógino sem parecer, ou seja, uma vida na qual as pessoas usam máscaras. Em suas peças, Nelson faz cair essa máscara, e é este o olhar mais apurado que mostramos agora em 17 x Nelson”, diz o encenador.

Esta é a terceira edição de um projeto artístico criado em 2005 por Baskerville e a AntiKatártiKa Teatral (AKK), que marcou a cena cultural ao revisitar a obra de Nelson Rodrigues de forma inovadora. As anteriores foram O Inferno de Todos Nós (família como foco, parte 1, 2005) e Se não é eterno, não é amor (amor e morte – parte 2, 2012).
“Nelson Rodrigues tinha de ser estudado nas escolas, assim como o inglês é alfabetizado com Shakespeare; o francês, com Molière, o alemão, com Goethe. O ensino médio deveria ter uma matéria sobre Nelson Rodrigues para entendermos a sociedade”, diz o encenador.
Serviço
17x Nelson – onde os canalhas pagam por seus crimes
Espaço Barra Funda. Rua Barra Funda, 519
Sábado e domingo, 20h. R$ 60
Até 30 de novembro (estreou 1º novembro)
Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária ou no Brasil todo mundo é Peixoto
Teatro Núcleo Experimental. Rua Barra Funda, 637
Quintas-feiras, 20h30. R$ 60
Até 27 de novembro (reestreou em 6 de novembro)
