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Mundo do circo traz malabarista premiado para animar a Páscoa

Sinopse

Rogério Piva, que ganhou o Troféu Picadeiro (2025) na categoria dos malabares, apresenta “A Vida de um Saltimbanco”, mostrando para as novas gerações como um circo feito nas ruas, na base da simplicidade, pode ser divertido e acolhedor

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 3 de abril de 2026)

Mundo do Circo SP, iniciativa da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerenciada pela Associação Paulista dos Amigos da Arte, recebe neste fim de semana de Páscoa o espetáculo A Vida de um Saltimbanco, ganhador do Troféu Picadeiro 2025 na categoria Malabares. É uma peça solo de Rogério Piva, do Circo Mambembe. Estará na lona do Parque Carandiru, nos dias 4 e 5, sábado e domingo, às 17h.

Rogério Piva chega com seu fusca chamado por ele de Pitanga, por causa de sua cor que lembra a fruta, e arrasa nas mais variadas técnicas circenses. “Sou malabarista – foi com os malabares que viajei o mundo e fui contratado por tantas companhias”, declara ele.

“Mas, no meu espetáculo, existem muitos elementos mesclados, como corda bamba, monociclo, música, comicidade e teatro. O Pitanga carrega toda a minha estrutura (camarim, cortina, luzes, som, picadeiro, ribaltas e 70 bancos para a plateia) e acaba fazendo parte do cenário. Ele é uma representação das charangas, do popular, do imaginário, do clássico. Já cruzei o Brasil inteiro nele, atravessei a Transamazônica, as Cordilheiras dos Andes. Uma cineasta russa veio até o Brasil e passou 30 dias viajando comigo a bordo do Pitanga, visitando comunidades pelo interior do Brasil, e gravou um filme que está em uma plataforma na Rússia. Ele sempre foi um fazedor de amigos – é como um abre-portas. Meu Pitanga é um pequeno circo móvel, sem lona, mas que carrega a sofisticação do clássico, do simples, do nostálgico. Nada de luxo, mas sim do essencial, que é sentido a cada momento: na chegada, na montagem, na espera pelo show, durante o espetáculo, na despedida, na desmontagem e na partida”, continua.

Cena do infantil A Vida de um Saltimbanco. Foto Rogério Piva

O título do espetáculo é um convite a descobertas sobre esse mundo itinerante, que é o mundo de Piva. “Ser um artista saltimbanco é saber usar a mesma lógica do circo mambembe, falando o idioma do povo, com arte popular, olhar e encontro, se adequando a cada local sem discriminar pela condição social. Qualquer rua ou praça, seja onde for, é local de fazer um espetáculo e fazer com que a minha bilheteria se adeque à condição de cada povo. Assim, garanto que todos participem, descentralizando e democratizando.”

Ele prossegue: “Sou apaixonado pelas palavras saltimbanco e mambembe. Elas sempre estiveram no meu imaginário como um caminho misterioso de seres místicos. Acho que as pessoas também me veem dessa forma quando chego nos territórios, por vezes com minhas mochilas e monociclos, e aqui pela América Latina com meu fusca, carregando um pequeno vagão que leva todo um mundo”.

Piva é inconformado com o culto às aparências e procura combater isso como pode, com sua arte. Ele diz: “Minha caminhada, com o que levo, que representa o popular e a simplicidade, se choca com um país que rotula pelo que você demonstra ter. O que sempre noto vindo das pessoas, quando chego em algum local, é que no início elas não me veem como um artista qualificado, com um espetáculo bacana, mas sim como um pobre que fracassou no mundo da arte, porque, senão, dizem, eu estaria em um carro melhor, me apresentando na capital. O fato também de me mostrar como artista de rua gera mais preconceito, já que, dizem, se eu fosse bom, estaria em um grande circo ou teatro. Infelizmente, a era do consumo e da ostentação contaminou a mente das pessoas para julgar pelo que o outro demonstra ter.”

Sua crítica se estende também às instituições oficiais. “Isso que menciono é reproduzido dentro das secretarias de Cultura também”, aponta ele. “Elas não estão mais a serviço da arte, mas sim a serviço de uma indústria que se apropriou e traz em seus produtos sempre uma mensagem que reforça essa lógica e esses valores de consumo e ostentação. Mas, apesar de tudo isso, ainda consigo trazer público aos meus espetáculos, nos rincões deste Brasil e do mundo, e, após o show, nota-se o quanto as pessoas mudam a forma de me ver e até mesmo de me tratar.”

Outra cena de A Vida de um Saltimbanco. Foto Rogério Piva

Rogério Piva aponta algumas pistas do que faz o público terminar por entendê-lo e respeitá-lo: “Meu cenário é todo cheio de detalhes e é confortável, remete às lembranças, à nostalgia. O espetáculo tem uma linguagem na qual o povo se sente representado, e a técnica apresentada é de tirar o fôlego. No fim, todos entendem o porquê e como cheguei ali e logo querem ser parte disso, querem colaborar no meu chapéu”.

O combativo artista circense ainda se lamenta de mais alguma coisa muito séria. “Infelizmente, a arte, mesmo a popular, tem se fixado nos grandes centros. Os artistas produzem apenas para caber nas instituições e não se preocupam com o público e como vão chegar até ele. Acredito que a cultura não deve se concentrar, mas circular. Não deve apenas vender, mas transformar. Até mesmo aqueles que se dizem da rua e democráticos só querem se apresentar nos parques do centro da cidade ou nas zonas turísticas, onde o povo não acessa, pois o próprio artista criminaliza a pobreza e julga que o povo humilde não pode contribuir. Só vão até eles para algum recorte de edital ou projeto aprovado na lógica do assistencialismo. Desta forma, acredito que fica fácil para a cultura da indústria abocanhar e alienar ainda mais o povo que mais precisa da arte popular”, disse.

E ele não poderia arrematar a entrevista de uma forma melhor do que essa a seguir. Vejam: “Sou apenas um resistente, que ainda acredita na simplicidade com capricho e na mensagem que transforma, vou na contramão das rotas tradicionais, mas enfrento uma realidade difícil de suporte e acolhimento dos órgãos que poderiam facilitar nossa caminhada. Mas, em cada lugar, em cada comunidade, vivencio as mais belas histórias do povo que me acolhe, que me abriga, que me alimenta e que me financia para continuar. Cada Dona Maria e Seu José, cada Joãozinho de cada comunidade me entrega tanto amor que parece que nunca faltará combustível”. 

Serviço

A Vida de um Saltimbanco

O Mundo do Circo SP. Av. Cruzeiro do Sul, 2630

Sábado, 4, e domingo, 5, 17h. Grátis

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Ficha Técnica

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Serviço

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