“Autobiografia do Vermelho”, no Sesc Paulista, convida o espectador a questionar as fronteiras entre mito, realidade e a construção de futuros possíveis
Por Ubiratan Brasil (publicada em 25 de fevereiro de 2026)
A escritora canadense Anne Carson figura sempre na lista dos prováveis premiados ao Nobel de Literatura. Erudita mas sem esnobismos, sua escrita busca esmiuçar a experiência humana. Estudiosa da língua e cultura grega, ela busca atualizar histórias de mitos, tornando-os mais próximos de nosso cotidiano. É o que fez em Autobiografia do Vermelho (1998), apontado por críticos como seu livro mais importante.
Definido pela própria autora como um romance em verso, Autobiografia do Vermelho é fascinante porque surpreende o leitor, o qual, em um primeiro contato com ela, poderá não saber ao certo como “classificar” o texto desconcertante que tem nas mãos. Essas “ruas” aparentemente sem saídas que tornam sua obra singular.
“Aprendi com a Carson a errar deliberadamente, ela erra deliberadamente, inventa, engana”, comenta a atriz Bianca Comparato que, ao lado de Gabi Costa e Daniela Thomas, criou uma versão para o teatro de Autobiografia do Vermelho, que estreia no Sesc Paulista. Sozinha em cena, ela vive sete personagens. “É um monólogo que busca a maturidade da atuação, quando se domina todo o espaço.”

A trama acompanha um herói contemporâneo mas inspirado em um personagem da mitologia grega. O Gerião, monstro de três corpos e seis braços e que está ligado ao décimo trabalho de Hércules, é visto na peça como a figura de um rapaz frágil, que é abusado pelo irmão e ignorado pela mãe que, embora afetuosa, é ineficaz, até conhecer Hércules. E, mesmo sabendo que o destino vai transformá-lo em seu assassino, Gerião sustenta sua paixão até o final. “O foco na subjetividade dele é um dos pontos altos do texto da Carson”, comenta Bianca que, no início do espetáculo, contextualiza a trama.
Gerião é o personagem principal da Gerioneida, um poema lírico narrativo escrito por volta de 650 A.C pelo poeta grego Estesícoro, cujos poucos fragmentos foram encontrados somente em 1967, no Egito. A peça conta a sua história misturando fragmentos da peça original grega com criações de Anne Carson e intervenções de Bianca e Daniela. Gerião, um menino que também é um monstro vermelho alado, revela o terreno vulcânico de sua alma frágil e atormentada em uma autobiografia que ele começa a escrever aos cinco anos de idade.
“Ao inverter o protagonismo que, no mito grego, pertence a Hércules, Carson dá luz aos apagados, o que é uma atitude contemporânea. Gerião não é o selvagem, o feio, o diferente, que tem que ser eliminado. Na mitologia, ele é visto como um ser horroroso e aqui o mostramos como o ser que é obrigado a se sujeitar àquele que chega convencido de ser o dominador. É a mesma história dos indígenas no Brasil: eles são os guardiães da floresta, da manutenção do nosso bem estar, e sofreram com os colonizadores portugueses”, dia a atriz.
Na montagem dirigida por Daniela Thomas, Bianca troca os personagens com movimentos sutis de cabeça, envergadura, tom de voz. Também usa projeções para situar a história no tempo e no espaço. “Sempre gostei de utilizar imagem projetada. Aqui fazemos uma peça iluminada pela luz de um projetor, com luz de cinema”, explica ela que, durante o processo, relembrou do tempo em que iniciou no teatro, nos anos 1980, ao lado de Gerald Thomas, em Nova York.

“Lá assisti e convivi com artistas de grupos de teatro experimental. Artistas como Sam Shepard, Laurie Anderson, Richard Foreman e grupos como Mabou Mines, Wooster Group, Living Theater, que tinham o teatro americano como horizonte. Era a Grécia clássica retomada pelos beats e seu deserto”, conta a encenadora.
Como a história de Gerião é contada por uma narradora, Daniela utiliza a música como apoio, além de adotar o microfone para que a voz surja mais baixa. “É o teatro desdramatizado para contar uma história. A mistura do épico com o banal.”
Serviço
Autobiografia do Vermelho
Sesc Paulista. Avenida Paulista, 119
Quinta a sábado, 20h. Domingos, 18h, R$ 50
Até 22 de março (estreia 27 de fevereiro)
