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Marco Nanini volta renovado ao palco com “Traidor”

Sinopse

Ator vive homem isolado em uma ilha, em peça dirigida e escrita especialmente para ele por Gerald Thomas

Por Ubiratan Brasil

Os caminhos cênicos do ator Marco Nanini e do encenador Gerald Thomas primeiro se cruzaram em 2005, com a estreia da peça Um Circo de Rins e Fígados. Um encontro decisivo na carreira de ambos, pois, por meio de um humor anárquico e situações aparentemente sem nexo, os dois artistas, no auge de suas qualidades técnicas, mostraram que o riso é uma forma de transformar o mundo, algo tão eficaz quanto a indignação.

Nanini e Gerald seguiram em frente ao longo desses 18 anos e voltam a se encontrar agora na peça Traidor, que estreia no Sesc Vila Mariana, outro texto especialmente escrito pelo encenador para esse ator superlativo. “Trabalhar com Nanini é estimulante, pois ele não apenas responde bem às minhas indicações cênicas como sempre acrescenta algo, normalmente genial”, observa Gerald. “E ele é um criador incansável, com muitas ideias e um enorme senso artístico para os espetáculos”, devolve o ator.

A troca de elogios, apesar de aparentemente protocolar, mede o alto nível de entrosamento entre eles, algo totalmente necessário para que Traidor não oscile entre o sucesso e o fracasso. Afinal, no texto de Gerald, as palavras pulsam – os diálogos, criados especialmente para os atores que vão proferi-los, transformam a narrativa em um fluxo de consciência, remetendo quase à escrita surrealista, e ainda sugerem ser algo em constante construção, crescendo a cada apresentação da peça.

Desta vez, Nanini está isolado em uma ilha, onde é acusado de algo que não cometeu e dialoga com a própria consciência, com seus fantasmas e suas reflexões sobre o passado, o presente e o futuro. É como se toda a ação se passasse dentro de sua cabeça. “Podemos identificá-lo como um ator, mas não que seja necessariamente”, afirma Nanini, que conversa consigo mesmo e com as suas indagações, materializadas no elenco formado por Apollo Faria, Eder dos Anjos, Hugo Lobo e Wallace Lau.

Marco Nanini em Traidor. Foto Carlos Cabera

Há muitas citações de Um Circo de Rins e Fígados, o que comprova a organicidade do trabalho autoral de Gerald, cuja escrita é resultado da filtragem dos acontecimentos atuais que mais o transformam. Assim, será possível identificar citações tanto sobre a guerra entre Ucrânia e Rússia como o delicado problema na Faixa de Gaza. “São pinceladas que os espectadores mais atentos poderão notar”, explica o encenador.

Outra referência, dessa vez ao volume de problemas que assolam o Brasil, está representada em um enorme boneco de Nanini que repousa deitado no cenário, também criação de Gerald com Fernando Passetti. “É uma referência ao gigante pela própria natureza”, diverte-se o diretor para quem, se houvesse um cruzamento entre Kafta e Shakespeare, “Traidor seria uma espécie de híbrido entre o Joseph K, de O Processo, e Próspero, de A Tempestade, cuja mente renascentista olha para o futuro da civilização, perdoa seus detratores e os absolve”.

Retorno ao palco

A peça, produzida por por Fernando Libonati, marca ainda o retorno de Nanini aos palcos, após Ubu Rei (2017): desde então, ele ele esteve em novelas, estrelou o premiado longa Greta, de Armando Praça, atuou nas séries Sob Pressão e gravou João Sem Deus, já disponível em streaming.  Ainda no período de isolamento, ele idealizou e produziu As Cadeiras junto com Libonati, que também dirigiu a adaptação do clássico de Ionesco. Nesta temporada, o ator ainda lançou a biografia O Avesso do Bordado (Companhia das Letras), escrita pela jornalista Mariana Filgueiras ao longo dos últimos cinco anos.

“Foram momento de muita atividade, mas também de dor, com a morte de Camila Amado que, mesmo doente, participou da gravação de As Cadeiras, deixando um belo testamento sobre como a arte pode enfrentar a finitude”, diz Nanini, que também enfrentou problemas físicos, como excesso de peso, agravado pelo vício do fumo. Uma dieta e exercícios físicos revigoraram também sua auto estima, perceptível em Traidor pela tradicional e meticulosa criação de cada personagem.

A voz

Em uma das cenas da peça, por exemplo, ele aparece vestido como uma dona de casa convidada a gravar o jingle de um comercial. “É simplesmente hilariante”, resume Gerald. “Nanini é o ator mais intenso que conheço. Não tenho dúvidas do que estou dizendo. Digo isso como diretor, mas também como autor. Como dirijo em pé, a um metro de distância dele, ouço cada respiração. Chego no hotel e continuo ouvindo a sua voz. Volto a ler o texto, faço a revisão e a voz. A voz do Nanini. Lá está, a voz. Cada respiração dele.”

De fato, a trajetória de Nanini se confunde com a própria história da cena brasileira desde 1965, quando ele pisou em um palco pela primeira vez.  Como já observou a crítica teatral Mariângela Alves de Lima, “ele ultrapassa em larga medida a categoria de excelência profissional implícita em ‘bons intérpretes’”.

Serviço

Traidor

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141

Quinta a sábado, 21h. Domingos, 18h. R$ 60

Até 17 de dezembro

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Ficha Técnica

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Serviço

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