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“Macbeth em Cordel” potencializa a conexão da obra de Shakespeare com o público

Sinopse

Espetáculo do Círculo de Atores traz nova roupagem ao clássico, que conta com Sergio Mastropasqua e Chris Couto no elenco

Por Fabiana Seragusa

Após realizar cinco produções baseadas na obra do dramaturgo irlandês Bernard Shaw (1856-1950), o Círculo de Atores agora se debruça sobre um dos clássicos do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), mas de um jeito diferente. “Macbeth em Cordel ou A Peça do Inominável”, em cartaz até domingo (26) no Teatro Alfredo Mesquita, busca potencializar ainda mais a conexão da história com o público por meio do uso da linguagem em cordel.

A ideia é unir a poética e a riqueza do texto a uma cadência rítmica que promova ainda mais clareza às nuances da trama, captando o interesse e criando mais laços com os espectadores. A versão em cordel é assinada por Lafayette Galvão e Gilberto Loureiro, com adaptação e texto final de Thiago Ledier (que também é diretor do espetáculo) e Sergio Mastropasqua (intérprete de Macbeth).

Também fazem parte do elenco Chris Couto (Lady Macbeth), Eduardo Silva, Renato Caldas, Luti Angelelli, Guilherme Gorski, Camila Czerkes, Priscilla Olyva, Márcia de Oliveira, Nicolas Caratori, Luana Frez, Nando Medeiros, Luisa Silva, Rodrigo Chueri, Patricia Pichamone (stand-in).

A trama do espetáculo mostra o retorno no nobre Macbeth após a vitória de seu exército em uma guerra civil, quando, no meio do caminho, três bruxas aparecem para dizer que ele será o próximo rei da Escócia. Depois, ele e sua esposa, Lady Macbeth, passam a planejar o assassinato do atual rei, Duncan, primo de Macbeth, para ficarem com a coroa.

Os figurinos de Chris Aizner, também responsável pelo cenário e pela direção de arte, dialogam com a estética das forças de segurança, remetendo a um mundo que parece estar sempre preparado para a guerra. Essa é uma das referências mais estreitas com os dias atuais, além de haver em cena alusão à revolta da natureza e aos extremos climáticos que observamos cada vez mais fortemente.

A direção musical fica por conta da orquestra São Paulo Chamber Soloists, formada por 14 solistas com ampla experiência internacional, que produziram um repertório que passa pela música barroca, clássica, romância e contemporânea.

Guilherme Gorski, Nicolas Caratori, Nando Medeiros e Rodrigo Chueri_foto – Ronaldo Gutierrez

Abaixo, confira duas perguntas do Canal MF para o ator Sergio Mastropasqua e para a atriz Chris Couto. 

2 perguntas para Sergio Mastropasqua (Macbeth)

A complexidade do personagem-título abre espaço para diferentes visões e questionamentos, ainda mais neste caso, quando se cria uma conexão direta com os dias atuais. Quais são os pontos mais fortes e marcantes de seu Macbeth?

Sergio Mastropasqua – Shakespeare é um autor soberbo. Simples e múltiplo ao mesmo tempo. Eu já havia montado Macbeth quando jovem. E, agora, aos 58, me dei conta de que tinha entendido bem menos do que imaginava. Macbeth é uma peça política, um tratado sobre a conquista de espaço, onde a luta pelo poder e a desconfiança mútua se espraiam de maneira vertiginosa.

As oscilações da vontade de Macbeth, depois das profecias ouvidas no encontro com as bruxas, me parecem agora fundamentais para mostrar o quanto ele é errático e partido. Na primeira vez que interpretei o personagem, vi apenas uma trajetória linear de ambição e queda; agora entendi que todos os movimentos dele partem dessas oscilações. A oscilação o define. Até mesmo na relação com sua esposa, Lady Macbeth. E tudo isso de maneira – surpreendentemente – ao mesmo tempo, forte e delicada.

O nome “Shakespeare” e a ideia de “estou fazendo Shakespeare” podem remeter a expectativas de grandes interpretações de protagonistas, ou até mesmo a um certo “estilo shakespeariano”, seja lá o que for isso. Acredito que seja ainda resquício de uma visão que vem do movimento romântico e que chegou até o presente.

Shakespeare é teatro de trupe. E Macbeth é um personagem dentro de um trabalho de trupe. Não é um protagonista cercado de personagens que apenas alicerçam sua trajetória. Ele é um ponto de vista escolhido pelo autor. A peça poderia ser entendida muito bem sob o ponto de vista de Macduff. Reparei que Macduff, que é o personagem que mata Macbeth no final da peça, desde o início o trata com indiferença ou aguda frieza. Faz isto menos para se impor como antagonista; não há motivos quando do primeiro encontro entre eles para Macduff agir assim. Shakespeare, sendo Shakespeare, não explicita as razões.

Macbeth acabou de sufocar e por fim a uma sangrenta guerra civil e de rechaçar uma invasão militar estrangeira. Como todo grande autor, Shakespeare não explicita, nem detalha, esta distância entre estes dois senhores da guerra. Nem dá informações sobre a participação de Macduff na campanha militar. Mas esse fator, sutilmente, está lá e, no decorrer dos acontecimentos apresentados, faz todo o sentido.

Tudo isto para dizer que o ponto forte é a representação de uma sociedade, através de um personagem, que vive e se justifica pela violência. Macbeth é um elo deste arranjo. Esse foi o principal desafio. Apagar a ideia de protagonismo e investir na peça. A peça é o assunto e a meta da nossa montagem, como sempre disse nosso diretor, o Thiago Ledier.

Quanto à conexão com os dias atuais, é o que sempre digo: qualquer peça de Shakespeare aconteceu ontem ou acabou de acontecer. As conexões com o presente são vergonhosamente explícitas: a banalização da violência, a milicianização dos territórios, os abusos, as guerras, o clima de desconfiança coletiva, a paranoia, e tudo o que há nesta peça veloz, doida e, ao mesmo tempo, delicada.

De qual forma você observa que a peça mexe mais com o público?

Sergio Mastropasqua – Acho que a peça gera a mesma sensação causada no público por nossas seis montagens anteriores de textos de Bernard Shaw: o público faz parte do espetáculo, sente-se parte dele. Ele, público, é o ator que deveria estar na ficha técnica. Ele é a maré na qual navegamos. Em todas as nossas montagens esse foi e é o nosso objetivo.

Fazemos um teatro popular, sem simplificações ou imposição de significados. O espectador pode ter quarta série do primeiro grau ou pós-doutorado; sempre encontrará um ponto de contato ou um ou vários acessos ao espetáculo. Tentamos unir diversão com pensamento e sentimento. E a montagem, com a direção de arte de Chris Aizner e com as opções de direção do Thiago Ledier, para citar apenas dois aspectos criativos, atesta que faz todo sentido montar qualquer obra de qualquer época desde que ela aponte para fora, para o mundo, para o espectador presente e no presente.

Eduardo Silva e Luana Frez – foto – Ronaldo Gutierrez

2 perguntas para Chris Couto (Lady Macbeth)

Ao estabelecer uma conexão estreita entre a história de Macbeth e a nossa sociedade atual, o espetáculo ganha ainda mais camadas. Qual foi o maior desafio na construção de sua Lady Macbeth?

Chris Couto – Falar sobre a Lady Macbeth é um prazer. Eu nunca tive um sonho, “ai, eu vou fazer a Lady Macbeth”. Na verdade, eu também não tenho nenhuma grande ambição de nenhum personagem, eu gosto quando esses personagens entram na minha vida, no momento que eles entram, e a maneira como eu resolvo apresentar essa personagem.

A Lady chegou num momento muito importante, eu acho, aqui no Brasil. A gente fala bastante das questões de violência, de ambição, de armas. Então eu acho que, em fazer a Lady Macbeth, o maior desafio talvez tenha sido sair dessa coisa mais perversa e cruel, ligada a coisas mais agressivas e violentas. Eu tenho pra mim que ninguém é uma coisa só, e você se manter plácido talvez seja tão agressivo quanto. Talvez isso chegue de uma maneira mais forte, eu acho. Essa dissimulação.

É um exercicio muito, muito, muito prazeroso pra mim, no tempo que eu estou no palco, sempre tentar usar a minha placidez, que existe em algum lugar. Procurar isso, quase um zerado, sabe, uma coisa bem neutra. Então eu acho que o maior desafio é achar essa docilidade, porque, através do afeto e do amor que ela tem pelo Macbeth, ela consegue chegar a alguns lugares, inclusive, chegar na loucura. É sair dessa perversa Lady Macbeth, procurar uma outra maneira de mostrar que essas mulheres comportadas e evangélicas, sei lá, têm uma grande perversidade embutida. O desafio que eu mesma me impus, de achar uma doçura nessa mulher, aparentemente, tão brava.

Em sua opinião, como o cordel contribuiu para a construção da peça e de seu resultado final?

Chris Couto – Sobre o cordel, eu acho fundamental. A gente sente como o público fica ligado, prestando atenção, e a maneira como ele recebe isso. Eu acho que o cordel conta de uma maneira mais direta a história do Macbeth, que é exatamente isso, é universal. Então, a maneira como o cordel populariza e traduz, e acho que, pode-se dizer, mastiga, tira daquele lugar muito empolado e traz para cá, para as nossas palavras.

Eu acho que é uma história que fica muito, muito, muito mais acessível através do cordel. Eu sinto isso durante as apresentações. E isso me dá uma alegria enorme. Eu acho que o teatro a gente faz para todo mundo, eu gosto de falar isso. Eu adoro quando os meus amigos da classe vão assistir ao espetáculo, mas eu realmente não faço para eles. Eu gosto que o público assista, eu gosto que o público veja, entenda, participe e tome paixão pelo teatro.

Saiba mais sobre “Macbeth em Cordel”:

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Ficha Técnica

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Serviço

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