Texto publicado em 2022 é uma sátira ao momento recente do país e traz personagens reais da política em uma reconstrução ficcional; leitura acontece no Sesc Pompeia
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 2 de março de 2026)
Após voltar do exílio no final da década de 1970 por conta da perseguição sofrida pela ditadura militar, o crítico literário e professor Roberto Schwarz, inspirado no conto O Alienista, de Machado de Assis, criou uma sátira impiedosa da sociedade brasileira, A Lata de Lixo da História.
Passadas quatro décadas, durante o impeachment farsesco de Dilma Roussef, o seu olhar se concentrou nos meandros na nossa política atual e começou a criar uma alegoria histórica recente do país, que se inicia com as manifestações ocorridas no Brasil, em 2013. Como resultado, publicou, pela Editora 34, em 2022, a peça Rainha Lira, cujo texto será lido nesta terça, 3, no Sesc Pompeia por um grande elenco.
Enquanto a peça A Lata de Lixo da História trouxe o testemunho de Schwarz sobre o golpe militar de 1964 após ter voltado do exílio, Rainha Lira é a resposta do autor à barafunda atordoante de nosso mais recente transe. Sua escrita, que se iniciou com o impeachment da primeira mulher eleita presidente no país, retrata os anos de prisão de Lula, o pleito que elegeu Jair Bolsonaro, a ascensão da ultradireita populista e o subsequente retorno de Lula.
O leitor logo reconhece pessoas reais nos personagens mas, à maneira das peças de Bertolt Brecht, aqui elas são figuras do interesse das classes que se engalfinharam no Brasil desde as manifestações de 2013, transformando o país em um palco do vale-tudo do capitalismo contemporâneo.
Tamanha envergadura dramatúrgica terá pela primeira vez uma encenação, em formato de leitura. Com um elenco de 20 atores, a leitura da obra de Schwarz, hoje com 87 anos, acontecerá no Sesc Pompeia, dentro do projeto 7 Leituras. Concebido por Eugênia Thereza de Andrade, este projeto de realizar leituras encenadas completa 20 anos e reforça a característica de apresentar clássicos e peças contemporâneas com o acréscimo de figurino e elementos cenográficos, divergindo das leituras dramáticas tradicionais.
Pela experiência nesse formato, Eugênia se encontrou com Schwarz para pensar a encenação de Rainha Lira e convidou Kiko Marques para direção artística.
No texto, inspirado em Shakespeare e Brecht, Schwarz enquadra a crise política brasileira da última década e reflete sobre os impasses da esquerda e da direita, revisando a virada autoritária do país em chave alegórica. Personagens reais da política ganharam uma recriação ficcional.
Para o jornalista e professor de história e teoria do teatro Luiz Fernando Ramos, Rainha Lira é uma investida corajosa e cáustica para decifrar um país deflagrado, sua história recente e suas mazelas centenárias.
A leitura contará com um grande elenco de 20 atores, formado por Adriana Lessa, Genezio de Barros, Denise Weinberg, Walter Breda, Agnes Zuliani, Bel Kowarick, Carlos Careqa, Caio del Rossi, Dagoberto Feliz, Dani Theller, Gustävo Smith, Ian Veronico, Ingrid Ruiz, Leandro Villa, Maíra Dvorek, Norival Rizzo, Paulo Xavier, Pedro Henrique Moutinho, Rafael Losso e Virgínia Buckowski.
Serviço
Leitura de Rainha Lira
Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93
Terça-feira, 3 de março, 20h. Grátis
