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“Gota d’Água” desafia Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi em revisão da peça de duas décadas atrás

Sinopse

Os intérpretes, que viveram Joana e Jasão em 2006, voltam ao texto de Chico Buarque e Paulo Pontes com a certeza de que a mensagem sobre a luta de classes não mudou

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 25 de março de 2026)

Vinte anos é o tempo de uma vida, capaz de transformar e ampliar as possibilidades de um artista. Não parece suficiente, entretanto, para mudar a mensagem de um texto teatral. Texto este que não envelheceu de 1975 para 2006 e chega vigoroso a 2026, mesmo motivado por uma dramaturgia criada em 431 a.C. 

Gota d’Água – No Tempo, que estreia nesta sexta, 27, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, é uma nova encenação da obra de Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976). A peça, inspirada na tragédia grega Medeia, de Eurípides, é protagonizada por Georgette Fadel, de 52 anos, e Cristiano Tomiossi, de 48, a mesma dupla que a defendeu há duas décadas. 

Hoje, Georgette e Tomiossi são outras pessoas e evoluíram como artistas. Ela se consagrou como uma das principais atrizes e diretoras da país e tem encontrado espaço no audiovisual, como no filme Filhas de Maura, de Rodrigo Mesquita, que acaba de rodar. Tomiossi, por sua vez, tomou a frente da Companhia Coisas Nossas e prosseguiu a pesquisa sobre o teatro musical em peças como Noel Rosa, o Poeta da Vila e Seus Amores, Vinicius de Vida, Amor e Morte e O Território do Samba.

Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi em Gota d’Água – No Tempo. Foto Bárbara Campos

A história de Gota d’Água – No Tempo, porém, fala de praticamente as mesmas coisas. É a opressão capitalista que molda personalidades e destrói coletivos.  “O tema continua forte demais”, diz Georgette, que compartilha a direção com o parceiro de cena. “É sobre a luta de classes e o sistema que nos esmaga todos os dias.”

Medeia é a mulher madura que, abandonada pelo marido, Jasão, mata os próprios filhos para se vingar daquele que a trocou por outra mais jovem e rica. Na versão de Chico e Pontes, ela se abrasileira como a contemporânea Joana, moradora de um conjunto habitacional, a Vila do Meio-Dia, traída pelo sambista Jasão em busca da ascensão social e do sucesso nas rádios. 

Em 1975, a atriz Bibi Ferreira (1922-2019), sob a direção de Gianni Ratto (1916-2005), celebrizou Joana a tal ponto de tê-la tornado uma personagem praticamente intocada pelas gerações seguintes. Uma das primeiras a interpretá-la foi Georgette, então com 32 anos, na montagem Gota d’Água – Breviário, que estreou no Sesc Ipiranga em 2006, sob a direção dela e de Heron Coelho

O resultado foi o Prêmio Shell de melhor atriz e um trabalho que, além de alavancar seu nome, fez com que a artista alcançasse uma curva dramática e um processo de composição teatral que ela reconhece jamais ter enfrentado novamente. “Eu era metida, mas sempre tive uma energia de quem tem mais idade, tanto que, na EAD (Escola de Arte Dramática), eu era a velha de Yerma (peça de Federico García Lorca) com 18 anos”, diz. “Vendo os vídeos da época de Gota, percebo o quanto era vaidosa, exagerava nos gestos e, com a maturidade, ganhei consciência do que era excesso e do que posso entregar ao público sem exageros.”

Se Georgette, hoje, tem a idade mais próxima da de Joana, o grande desafio, desta vez, recaiu nas mãos de Cristiano Tomiossi, de 48 anos. O ator, que em 2006 tinha 28, precisa voltar no tempo para demonstrar o vigor ainda juvenil de Jasão e, principalmente, recuperar uma certa ingenuidade típica de um homem de 30 anos. “Isto é o mais difícil porque, claro, ele amadureceu, tem outra cabeça”, comenta a diretora. “O que mais falo para o Cris nos ensaios é ‘você está muito seguro, racional e o Jasão não pode ser assim’.” 

Cristiano Tomiossi e Georgette Fadel são os intérpretes de Gota d’Água – No Tempo. Foto Bárbara Campos

O ator reconhece que o corpo é outro e as compreensões em relação à tragédia foram redimensionadas. O fato de ser pai de Athena, que completa 6 anos em maio, por exemplo, lhe deu uma nova carga que atinge o personagem. A memória corporal, porém, é o que mais lhe persegue. O intérprete, instintivamente, reproduz movimentos daquela época até se dar conta de que hoje o corpo tem outro ritmo. “O que é importa é a gente ter a clareza de que é teatro e, fora as nossas idades, o resto é tudo igual”, compara. “É uma arena, um terreiro, tudo simples, sem qualquer outro aparato técnico, além de nós.”   

No elenco de Gota d’Água – No Tempo ainda estão Débora Veneziani, Joaz Campos, José Eduardo Rennó, Laruama Alves, Leandro Vieira, Lilian Regina, Lívia Camargo e Mawusi Tulani, a maioria participante em algum momento da montagem anterior, e os músicos Alê Moura, Flavio Rubens, Ildo Silva e Renato Passarinho. José Eduardo Rennó interpreta Creonte, o dono do conjunto habitacional, agiota explorador e pai de Alma (papel de Lívia Camargo), a noiva de Jasão e pivô da crise que culminará na tragédia de Joana. “Todos os princípios do original estão mantidos só com um tapinha a mais na música”, garante Georgette.

Das composições de Chico Buarque para a trilha original, a peça, sob a direção musical de Marco França, conserva a canção-título, Bem Querer e Basta um Dia, além de incluir Flor da Idade, excluída da encenação anterior. Gota d’Água – No Tempo descarta a microfonia. Apenas um reforço de amplificação será instalado no fundo do palco e o violão terá a entonação reforçada para ser melhor ouvido pelos atores e atrizes. “É um atributo nosso trabalhar com a voz e usar microfone é como se fosse tirada uma força do nosso peito”, comenta Georgette. “Por isso, fiquei tão feliz de ver Medea, a encenação do Gabriel Villela, em que todos se apoiavam apenas o gogó.” 

A estreia de Gota d’Água – No Tempo dá sequência a uma programação do Sesc Consolação dedicada às releituras das tragédias. Entre o fim de janeiro e meados de março, Medea, na versão de Sêneca, ocupou o palco sob a direção de Villela e o protagonismo de Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros. No começo deste mês, uma atividade paralela, Expansão Medea: O Tempo no Palco – Mulheres, Teatro e Envelhecimento, realizada no Espaço do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), reuniu as três atrizes e Georgette para uma reflexão sobre as diferentes formas de interpretar a personagem. 

“O Gabriel não tem medo de ser antinaturalista, traz estas três atrizes para uma radicalidade absurda e me senti atiçada a fazer o chão tremer”, elogia a protagonista. “Eu tento trazer uma outra linguagem trágica porque a Joana é brasileira e não sei o que vai dar, se as meninas de hoje vão se identificar, mas acho importante as pessoas conhecerem estes textos, seja o de Eurípides, Sêneca ou do Chico e do Paulo Pontes.”  

Serviço

Gota d’Água – No Tempo

Teatro Anchieta – Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245

Sexta e sábado, 20h. Domingo e feriado (1/5), 18h. Sessões extras nos dias 9, 16 e 23 de abril, quintas, 15h. R$ 70

Até 3 de maio (estreia em 27 de março)   

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Ficha Técnica

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Serviço

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