Espetáculo mostra Gal Costa não apenas como a “musa da Tropicália”, como dizia seu apelido, mas uma das mais importantes figuras desse movimento, um símbolo feminista e uma das maiores cantoras do mundo
Por Ubiratan Brasil (publicada em 9 de março de 2026)
“É como se personagens da animação ‘Divertida Mente‘ viessem para o palco”, brinca o ator Marco França sobre uma das principais novidades de Gal, o Musical, espetáculo que estreou no 033 Rooftop, espaço localizado junto ao Teatro Santander, no Complexo JK Iguatemi, em São Paulo. Mais que um simples detalhe, a opção dramatúrgica Marilia Toledo e Emilio Boechat permite que o espetáculo não se limite à mera biografia de Gal Costa (1945-2022), uma das principais cantoras da história da música brasileira.
“Fizemos uma grande pesquisa e descobrimos uma mulher muito reservada, que pouco revelava sobre sua intimidade”, conta Marília. “Assim, criamos três entidades mitológicas, três sombras que só existem na cabeça dela e que a questionam e também a impulsionam nos momentos mais delicados.” Os dramaturgos partiram, então, da psicologia analítica do suíço Carl Jung que foca na integração consciente-inconsciente, utilizando arquétipos, sonhos e o processo de individuação para promover o autoconhecimento e a saúde mental.
Surgem, assim, Ereskigal (interpretada por Badu Morais), divindade da mitologia suméria que representa as diversas formas de medo, desejo e prazer, em contraponto à sua irmã Inana (Fernanda Ventura), deusa do amor e da vida e aqui representa a conexão com a Terra. O trio é completado por Gilgamesh (Marco França), rei sumério conhecido pela arrogância e tirania.

“Na peça, ele representa o masculino tóxico na figura do pai de Gal, que se ausentou da vida dela tornando-a alguém com muita autocobrança”, conta França. “Esses três personagens a ajudam a compreender as profundas transformações atravessadas por ela ao longo da vida.”
Em linhas geris, Gal, o Musical conta passagens emblemáticas da vida de Maria da Graça Costa Penna Burgos, uma das maiores cantoras brasileiras, desde seu nascimento, suas conquistas como artista, seu encontro com os personagens da Tropicália, a relação dela com sua mãe, até a adoção do filho Gabriel.
“Queremos redimir a figura da Gal”, conta Walerie Gondim, atriz escolhida para viver a protagonista. Ela já havia feito uma ponta em Djavan – O Musical: Vidas pra Contar também como Gal, mas agora a personagem ganha mais complexidade.
Walerie buscou detalhes para sua composição, como a forma como Gal mexia com as mãos. “Sua voz, no início da carreira, era mais escura e ganhou brilho a partir da metade de sua carreira”, conta.
A atriz vive com intensidade as adversidades enfrentadas por Gal no início da carreira, ponto de partida do livro A Todo Vapor – O Tropicalismo Segundo Gal, de Taissa Maia, que serviu de apoio para a pesquisa de Marilia Toledo e Emilio Boechat, assim como A Jornada da Heroína, de Maureen Murdock, além das considerações trazidas pelo pesquisador Tallys Braga, que estava escrevendo uma biografia oficial da artista.

“Maia defende a tese de que o papel de Gal na Tropicália foi muito maior do que a nossa imprensa machista e patriarcal gostaria de admitir. A partir dessa tese, começamos a pensar que nosso musical deveria ter um viés feminista ao invés de simplesmente relatar a vida de Gal desde a infância na Bahia até o sucesso comercial”, comenta Boechat. “Até porque a história íntima dela, uma artista muito reservada, não era conhecida. Preferimos, então, contar a história da artista sob um prisma psicológico e profundo, do que simplesmente desfilar gravações, discos e hits da artista.”
O espetáculo começa quando Mariah (Dani Cury), mulher abandonada pelo marido, está grávida e, esperançosa de que a criança seja um menino, passa várias horas escutando música clássica, preparando-o para ser um pianista. “É uma imagem figurativa do útero daquela mulher, que vai criar a filha sozinha”, conta Marília, lembrando que a cena é pontuada pela canção Vaca Profana.
A trilha sonora, aliás, é costurada pelos principais sucessos eternizados por Gal, como Força Estranha, Baby, Divino, Maravilhoso, Azul, Vapor Barato, Sorte, Brasil, Balancê e outros. “Há somente três números de shows, o restante das canções ajuda a contar ou a comentar a história”, explica a dramaturga, que divide a direção com Kleber Montanheiro.
Ciente de que Gal foi uma mulher que resistiu no seu tempo, quebrando padrões e contando do seu modo a história da música brasileira, Montanheiro definiu que as cenas seriam curtas, quase cinematográficas. Nesse sentido, é importante acompanhar o colorido dos figurinos, que representam as diversas fases da cantora, desde o início ainda tímido (marcado pelo preto e branco) até a profusão de cores com a Tropicália, já com a carreira consolidada. “É a dramaturgia das cores”, explica.

O encenador também pediu à cenógrafa Carmen Guerra que se inspirasse em Hélio Oiticica (1937-1980), artista plástico que foi fundamental na arte contemporânea e no Tropicália, para a ocupação do espaço do Rooftop, especialmente no experimentalismo, na quebra da barreira entre arte e espectador, no uso de cores vibrantes e na criação de “antiarte” (como os Parangolés).
“Nós nos inspiramos em instalações do Oiticica para compor um ambiente onde os espaços físicos abordados na dramaturgia do espetáculo fossem sugeridos e compostos com elementos que trouxessem a ideia de obras de arte, representando cada local de uma forma dinâmica, sucinta e inventiva”, comenta o diretor, lembrando ainda dos carrinhos que, por meio de um trilho, promovem a ligação entre os três palcos.
Também inspiradora é a trilha sonora assinada pelo diretor musical Daniel Rocha, que trabalhou com uma transcrição dos arranjos originais das músicas de Gal com adaptações. “Escolhemos o que ela ouvia, o que fazia sentido em sua vida e como exemplificava seu humor naquele momento”, diz ele, exemplificando com Vapor Barato, que se relaciona com a fase com que a cantora enfrentava a depressão, quando estava em Nova York.
Rocha aponta também para a importância na forma de falar. “O baiano tem muita musicalidade em sua prosódia e o sotaque representa também uma atitude política, especialmente Caetano Veloso, sempre muito combativo”, diz ele. “Por isso que penso na atitude dele, no palco e fora dele, sempre gerador de debate”, afirma Edu Coutinho, intérprete de Veloso.
A escolha dos atores, aliás, que interpretam Caetano, Maria Bethânia (Calu Manhães) e Gilberto Gil (Théo Charles), nomes marcantes da Tropicália, seguiu um conceito da produção, que buscou manter a maior fidelidade possível à origem e à trajetória dos artistas. Sendo assim, 80% do elenco é do Nordeste, incluindo cinco representantes da Bahia, com audições realizadas em Salvador.
“Bethânia é um ser representado pelo fogo, pela bravura, enquanto sou mais água, mas o que me inspira é sua disposição em ajudar Gal a se colocar como mulher em um ambiente masculino”, conta Calu. “Ela também acredita na música como uma missão.”
“Mais que quatro amigos, eles nos ajudam a formar o imaginário brasileiro de várias épocas”, completa Théo Charles.
Serviço
Gal, o Musical
033 Rooftop – Complexo JK Iguatemi. Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
Sextas, 20h30. Sábados, 16h30 e 20h30. Domingos, 15h30 e 19h30. R$ 50 / R$ 300
Até 10 de maio (estreou 6 de março)
