“A Máquina”, de João Falcão, pode não continuar sendo montada por falta de patrocínio; evento trouxe estreia de Casagrande no palco e grandes montagens como “Dias Felizes” e “O Motociclista no Globo da Morte”
Por Ubiratan Brasil, de Curitiba* (publicada em 6 de abril de 2026)
O Festival de Curitiba deste ano programou mais de 435 atrações entre espetáculos teatrais premiados assim como estreias nacionais, dança, circo, humor, música, oficinas, shows, performances e gastronomia. Até 12 de abril, a 34° edição do evento vai celebrar o teatro como uma arte essencialmente coletiva. Mas algumas peças que atraíram grande público na capital paranaense ainda têm futuro incerto. É o caso de A Máquina e Na Marca do Pênalti.
Escrita e dirigida por João Falcão a partir do original de Adriana Lisboa, A Máquina estreou em 2000 com um elenco formado pelos então desconhecidos Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta. A montagem alcançou pleno sucesso, tornou-se uma referência e, em comemoração aos seus 25 anos, ganhou nova versão no ano passado, em São Paulo, sem patrocínio.
“Já colocamos todo o recurso próprio que conseguimos e, se não tivermos algum patrocínio, não vai ser possível circular. As sessões em Curitiba podem ter sido as últimas”, disse Falcão, que comandou quatro apresentações entre sábado, 4, e domingo, 5, auxiliado pelo sobrinho Gustavo Falcão. O quarteto masculino agora é interpretado pelos integrantes do coletivo paulistano Ocutá (Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto), e a peça conta com a presença afetiva de Agnes Brichta, filha de Vladimir, um dos Antônios na montagem original.

“É uma peça em que transportamos o palco e a as arquibancadas, que são especiais. Como a estrutura é montada em locais que não são teatros habituais, chegamos com certa desvantagem”, disse João, que teme o efeito negativo de uma longa paralisação. “Pode acontecer a desmobilização da equipe técnica e do elenco o que tornaria a continuidade irreversível.”
Já Na Marca do Pênalti representou a estreia no palco do comentarista e ex-jogador Casagrande. Durante uma hora e meia, ele conversa com a plateia recordando-se de fatos de sua vida profissional e privada. O destaque é o período em que participou da chamada Democracia Corinthiana (1982-1984), movimento liderado por um grupo de jogadores politizados como Sócrates, Wladimir e Zenon, até hoje o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro.
E também o período em que foi internado em uma clínica para dependentes de drogas, por conta da sua dependência em heroína e cocaína, em 2007. “Fiquei internado durante um ano, seis meses sem ver ninguém, depois continuei mais um bom tempo o tratamento aqui fora. Patinei para caramba, às vezes achava que não ia conseguir”, conta.

Com direção de Fernando Philbert, o espetáculo estreou nacionalmente em Curitiba na sexta-feira, dia 3, e teve nova sessão no dia seguinte. Com muitos torcedores vestindo a camisa do Corinthians, Casagrande emocionou a plateia quando revelou sua enorme admiração pelo craque Sócrates (“Foi a primeira pessoa na vida para quem eu disse que amava”) e também provocou gargalhadas, especialmente quando relembrou seu namoro com a cantora Baby do Brasil. “Ela me apresentou um conselho genial: como também não se droga mais, ela disse que recupera a sensação de estar sob efeito de droga e assim sente o prazer sem usar material ilícito”, diverte-se.
Na Marca do Pênalti não tem ainda sessões definidas para as próximas semanas. Segundo produtores do espetáculo, há negociações para uma temporada em São Paulo, ainda sem data e locais definidos.
A primeira semana do Festival de Curitiba trouxe peças que movimentaram os espaços culturais da cidade, como (Um) Ensaio sobre a Cegueira, com o Grupo Galpão, uma valiosa versão de um texto de Samuel Beckett, Dias Felizes, pela Armazém Companhia de Teatro, e O Motociclista no Globo da Morte, primoroso monólogo interpretado por Du Moscovis e dirigido por Rodrigo Portella.

A organização do festival ofereceu espaço com muitos lugares para a apresentação, mas Moscovis e o grupo criativo preferiu o Teatro Paiol, com 217 lugares. Em compensação, o ator aceitou fazer quatro apresentações ao invés das tradicionais duas. “O espaço interfere diretamente, pois a encenação, sendo um depoimento do personagem, ganha muito com a proximidade do público. Isso faz toda a diferença”, disse Moscovis.
*O repórter viajou a Curitiba a convite do Festival de Curitiba