Musical inspirado em canção de Gilberto Gil e na prática da capoeira é o 60º espetáculo dirigido por Alexandre Reinecke, também autor do texto
Por Ubiratan Brasil (publicada em 6 de janeiro de 2026)
Era 1995 quando Alexandre Reinecke escreveu o primeiro esboço do musical Domingo no Parque, em cartaz no teatro Claro Mais SP, em São Paulo. Praticante da capoeira desde os 14 anos, ele percebeu um nítido viés dramatúrgico na letra da canção de mesmo nome, com que Gilberto Gil participou do 3º Festival da Música Popular da TV Record, em 1967, conquistando o segundo lugar.
“Depois que escrevi o primeiro esboço, busquei o aval de Gil. O irmão de um amigo, Rodolpho Stroeter, estava produzindo um disco dele e fez a ponte. Em um belo dia, Gil me ligou e disse que havia gostado muito da história e que eu poderia seguir. Foi o que fiz”, conta Reinecke, que se tornou um atuante encenador – Domingo no Parque é sua 60ª direção. “Mas foi a primeira vez que comandei um musical, daí a importância da presença do Bem Gil, filho de Gilberto, como diretor musical.”

A trama segue fielmente a letra da canção e se passa em Salvador, no início da década de 1970 e tem como pano de fundo toda a situação sociopolítica do Brasil, que atravessava a violenta opressão da Ditadura Civil-Militar. No bairro da Ribeira, toda tarde João (Guilherme Silva), Jozé (Alan Rocha) e um grupo de amigos se reúnem para jogar capoeira, em um momento de descontração e divertimento.
Quando Jozé leva seu amigo para assistir a um show de sua amada Juliana (Rebeca Jamir), a relação entre os dois fica abalada. Juliana, que agora passa a frequentar a roda de capoeira, teve no passado um romance avassalador com João, que terminou quando ele engravidou a jovem Juci (Badu Morais).
Enquanto eles estavam afastados, Juliana seguiu seu sonho de ser cantora e passou a cantar nos bares da cidade. Ela também tornou-se atuante nos movimentos contra a ditadura e passou a ser vigiada pelos militares. O inesperado reencontro reacende o amor entre Juliana e João e também desperta uma inesperada e incontida raiva de Jozé, culminando no crime passional.

“Ele sofre muito por amor e se sente desesperado quando descobre que o amigo o traiu”, conta Alan Rocha. “E João é uma figura passional que precisou adotar a luta física como defesa depois de tanto apanhar da vida. Para mim, é a figura mais amorosa do musical porque defende mais os outros que a si mesmo”, completa Guilherme Silva.
Apesar de se passar nos anos 1970, a trama apresenta temas que continuam atuais. “Principalmente o feminicídio, com a morte de Juliana, mulher que luta contra a ditadura militar e busca se impor como única criadora do filho”, comenta Rebeca Jamir. “E não há culpados na história porque não é possível dominar os sentimentos, como mostra o gesto inesperado de Jozé”, completa Badu Morais.
Além da música-título (cantada no início e no final do espetáculo), Reinecke incluiu outras 19 canções que atuam como fio condutor da história, das quais três compostas exclusivamente para o espetáculo, com letras dele próprio Reinecke e melodia de Bem Gil. Estão presentes canções de Carlos Lyra, Dominguinhos e Anastácia, Dorival Caymmi, Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Tom Jobim e Jackson do Pandeiro.
O elenco conta ainda com Adriana Lessa, como a avó de Jozé, e os atores Ananza Macedo, Gui Giannetto, Jean Amorim, Jack Mandinga, Júlia Perré, Júlia Sanchez, Mestre Tyson, Farini, Renée Natan, Rio Delgado, Sangela Aram, Thiago Mota e Wesley Guimarães. Também as crianças Caio Santos, Mateus Vicente e Vitor Tomé.
Serviço
Domingo no Parque
Teatro Claro Mais SP – Vila Olímpia Shopping, 5º Piso. Rua Olimpíadas, 360
Quinta a sexta, 20h. Sábado, 17h e 20h30. Domingo, 18h. R$ 50 / R$ 250
Até 8 de fevereiro (estreou 3 de janeiro)
