Carla Zanini e Ricardo Henrique dirigem Noemi Marinho, Jane Fernandes, Lucelia Sergio e Samanta Precioso em peça ambientada em um hospital
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 26 de fevereiro de 2026)
Fundada em 2015, a DeSúbito Cia. oficializou a parceria de dois egressos da Escola de Arte Dramática (EAD), da USP. Carla Zanini e Ricardo Henrique, hoje com 35 e 38 anos, são amigos desde a adolescência em Franca, no interior de São Paulo, onde nasceram. Por lá, começaram a fazer teatro e, nos corredores da faculdade, mesmo que nunca tenham feito parte da mesma turma, traçaram objetivos comuns.
A peça de estreia foi Casa e Nuvem Branca, versão de Rafael Augusto para As Três Irmãs, do russo Anton Tchekhov (1860-1904), que, além de Carla, tinha Angela Ribeiro e Melissa Campagnoli nos papéis principais, sob a direção de Henrique. “Levantamos o dinheiro em um site de financiamento coletivo e demos início a um grupo intenso e transitório entre artistas, como costumamos definir”, conta Carla.
A maturidade da DeSúbito Cia. começou a ser desenhada nos últimos três anos com os espetáculos Afeto – Uma História de Amor (Violenta e Difusa) entre Mulheres Quebradas, de 2023, e Raiva – Nós Temos um Cão que Morde, de 2024, escritos por Carla, que fecha uma trilogia com Coragem – Um Lugar Melhor que Aqui, estreia desta sexta, 27, no Teatro do Sesc Ipiranga. “Primeiro, escrevi Raiva e, depois de Afeto, percebi uma continuidade de estéticas e sentimentos, sempre detonadas por mulheres, que merecia a terceira investigação”, justifica Carla, que, além de autora, compartilha a direção da atual montagem com Henrique.

Protagonizada pelas atrizes Noemi Marinho, Jane Fernandes, Lucelia Sergio e Samanta Precioso, Coragem – Um Lugar Melhor que Aqui é ambientada em um hospital e, entre o drama, o humor e o suspense, aborda a violência contra pacientes e profissionais da saúde.
A enfermeira Vera (papel de Jane) continua dedicada ao trabalho enquanto aguarda a aprovação do seu convênio particular para uma cirurgia. Suas colegas, Marlene e Glória (interpretadas respectivamente por Noemi e Samanta) lutam para manter viva a fé no ofício, enquanto Raiza (representada por Lucelia), uma bancária recém-demitida e filha de Vera, organiza uma festa de aniversário para a mãe.
Acontecimentos surreais na comemoração promovem um trânsito entre realidade e alucinação, e o quarteto enfrenta a dureza daquele cotidiano, a iminência do fim e a necessidade de seguir em frente. “Coragem fala de vida e morte em diversos sentidos, mas, assim como nas outras duas peças, o forte vínculo entre as personagens femininas, esboça a possibilidade de um futuro”, explica a autora.
Afeto – Uma História de Amor (Violenta e Difusa) entre Mulheres Quebradas, dirigida por Carla e Angélica Di Paula, mostrava três desconhecidas (as atrizes Agnes Zuliani, Maria Fanchin e Teka Romualdo) que enfrentaram a violência de gênero. Em Raiva – Nós Temos um Cão que Morde, encenada por Henrique, Carla e Renata Gaspar interpretaram duas irmãs que lutam para manter aberto um espaço cultural e acolhem uma professora foragida (vivida por Georgette Fadel).
“Ali, a gente falava da perseguição aos educadores e artistas e, agora, é a vez dos profissionais da saúde, que cuidam das pessoas e são os primeiros a sofrerem as violências desse sistema”, aponta Carla. “Tenho familiares e amigos na área da saúde e esta é uma questão que tem me pegado forte nos últimos tempos.”

A atriz Noemi Marinho, de 72 anos, assistiu às montagens de Afeto e Raiva sem imaginar que trabalharia com Carla e Henrique em um futuro próximo. Ela se interessou de cara por um tipo de atrevimento da dramaturgia acompanhado pela direção de não ter medo de fugir do óbvio que se repete no atual projeto. “Eu sou do sim, da novidade e, felizmente, quanto mais fico velha, mais tenho a sorte de trabalhar com gente jovem”, diz a intérprete.
Para ela, Marlene foge do padrão das outras enfermeiras porque parece que já precisou testar outras vezes a sua coragem. É uma mulher libertária, que não se casou ou teve filhos para se dedicar à profissão e adora tomar sua cerveja. “Pela segurança da Marlene, ela já foi e voltou, é a coragem de quem tem uma vontade de ir maior que a força do medo que te segura ou leva para trás”, observa.
Quando Carla define a DeSúbito como um coletivo “intenso e transitório entre artistas” ela fala da integração com artistas de diferentes linguagens e gerações que se juntam. Depois de Agnes Zuliani em Afeto e Georgette Fadel em Raiva, Noemi Marinho é a festejada referência que se faz presente em Coragem. A ideia de chamá-la para o papel de Marlene veio inspirada no espetáculo anterior da atriz, O Vazio na Mala, dirigido por Kiko Marques, em que ela viveu uma senhora judia acometida pelo mal de Alzheimer.
“Quis trazer a Noemi para um personagem diferente, de uma mulher para frente, livre e que toca a vida, longe da imagem da velhice”, aponta Henrique. “Como ela também é dramaturga, nos ofereceu um olhar importante no processo, já que este foi o primeiro texto que levamos à sala de ensaio sem a finalização.”
A DeSúbito cumpre na prática o rodízio de funções, algo pregado entre as companhias e pouco visto no cotidiano delas. Só nos três últimos trabalhos, a variedade fica evidente. Em Afeto, Carla escreveu e codirigiu, enquanto Henrique participou como ator. Ele foi diretor de Raiva, texto dela que ainda fez como atriz. Agora é a vez de os dois dividirem a direção.
Para Henrique, a confiança na amiga faz com que ele se desafie em provocações que, em um primeiro momento, lhe geram insegurança. “Carla investe em um teatro do absurdo que me assusta e testa o meu jeito ‘certinho’ de pensar o espetáculo”, ressalta ele, que se considera mais ligado à visualidade e à encenação, enquanto a colega se volta ao texto e às atuações. Carla ameniza qualquer preocupação inicial de Henrique e garante que não enxergava esse trabalho de outra forma: “Dirigir junto com ele faz o maior sentido no encerramento da trilogia”.
Serviço
Coragem – Um Lugar Melhor que Aqui
Teatro do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Não haverá sessão em 3 de abril. Sessão extra em 10 de abril, 15h. R$ 60
Até 12 de abril (estreia 27 de fevereiro)
