Peça do inglês Mike Bartett volta em cartaz, agora no Teatro Vivo, com discussões sobre amor e bissexualidade
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 31 de março de 2026)
O dramaturgo inglês Mike Bartlett cria uma obra que é contundente com o momento em que vivemos, é profundo e provocador ao mesmo tempo que tem uma escrita clara e objetiva. Foi assim em peças como Contrações e Love, Love, Love, montadas pelo Grupo 3 de Teatro, e agora com Cock, que volta em cartaz no Teatro Vivo.
Preciso ao apontar como uma geração libertária produz condições que paralisam as seguintes e também como ideologias são abandonadas quando mudam as condições sociais, Bartlett trata aqui de temas muito íntimos como identidade, relacionamentos, desejo e bissexualidade.
Com direção de Nelson Baskerville, Cock acompanha o turbulento processo de descoberta da identidade e da sexualidade de John, que namora há sete anos com um homem. Quando ele e seu companheiro decidem dar um tempo, o protagonista se apaixona por uma mulher, algo novo em sua vida.
Marcado por angústias e sentimentos conflitantes, John é pressionado a decidir entre o amor de seu antigo namorado e de sua nova parceira. Mas a maior luta do protagonista é para entender quem ele realmente é e o que sente. Esse conflito é ainda mais agravado pelos próprios desejos de John e pela pressão social para que ele se enquadre em rótulos pré-determinados.

A montagem, que originalmente estreou em 2021, traz como novidade a presença de Bruna Thedy no papel antes interpretado por Andrea Dupré. “O tempo só aprofunda as relações e acontece o mesmo comigo e esse personagem. Sinto que entendo ainda mais suas angústias de tentar descobrir quem ele é e sua dificuldade de se definir dentro de caixas já predeterminadas”, afirma Daniel Tavares, que vive John.
“Ele se vê entre um amor antigo, cheio de conflitos, e uma paixão nova que sugere muitas possibilidades”, completa o ator, que também divide o palco com Marco Antônio Pâmio e Hugo Coelho. A peça é ambientada em uma arena quadrada representando um ringue, que pode ser associado às lutas de boxe ou às brigas de galo. O motivo é que Bartlett começou a escrever a peça durante um intercâmbio no México, país da luta livre e onde ainda existem as brigas de galos.
“Cock”, em inglês, é uma palavra com múltiplos sentidos. Significa galo, pau/pênis e também é uma gíria para descrever alguém de personalidade arrogante. Com uma trama centrada em embates cortantes e emocionais, a peça acompanha a tentativa de cada personagem em convencer os demais sobre seu ponto de vista. Nessa disputa, a plateia é colocada com muita delicadeza no papel de voyeur e é convidada a pensar sobre as questões debatidas.
“A encenação cria um espaço de confronto em que cada palavra e cada silêncio contam. A ideia é aproximar o público das tensões desses personagens, para que ele acompanhe suas respirações, sinta suas inquietações e também sofra por eles e possa torcer para que se machuquem o menos possível, porque é evidente que vai doer. O amor é transgressivo e dói”, comenta o diretor.
Serviço
Cock
Teatro Vivo. Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460
Quartas e quintas, 20h. R$ 100
Até 11 de junho (reestreia em 2 de abril)
