“Os Óculos Mágicos de Charlotte”, livro que virou desenho animado e série agora ocupa os palcos, com criação de Miguel Falabella e da ilustradora Suppa, falando de temas diversos e necessários como educação, cortesia, poluição e empatia
Por Dib Carneiro Neto (publicado em 11 de julho de 2025)
Um desenho animado genuinamente brasileiro, exibido no Disney+, YouTube e demais plataformas digitais, chega aos palcos do teatro. Isso mesmo. Animação audiovisual se transformando em dramaturgia, em arte viva e efêmera. Os Óculos Mágicos de Charlotte nasceu como livro da artista visual, ilustradora e diretora de arte Suppa, brasileira formada em Paris. Para a série e para a peça, ela chamou um parceiro bem especial, Miguel Falabella, que assina com ela a criação do espetáculo, além de ter escrito as letras de todas as canções.
A idealização desse incrível projeto cênico é de Filipe Fratino, que também assina a direção de produção. Na direção artística e dramaturgismo está Juliana Sanches, com o assistente Nicolas Trevijano. Na direção musical e arranjos, Vinícius Loyola. Cenografia e figurinos são da própria Suppa, com Felipe Cruz. Uma turma da pesada. Quem acompanha o teatro paulistano sabe o peso dessa gente criativa e sempre inspirada. Charlotte, portanto, foi parar em ótimas mãos.

A peça estreou na semana passada no Teatro Alfredo Mesquita, com entrada gratuita, em cartaz até o fim deste mês de julho. Na sequência, segue para o Teatro Sérgio Cardoso, onde cumprirá temporada em agosto, não mais com ingressos gratuitos. Na trama, muito parecida com o livro original, Charlotte (Niccole Lara) perde um dente de leite e, em troca, ganha da Fada Belle (Paula Tavares) um par de óculos mágicos. Assim, passa a enxergar o mundo como ele poderia — e deveria — ser: gentil, empático, justo. Ao lado do seu cão Pelusso (Adriano Tunes) e de outros amigos, ela vive aventuras cômicas e poéticas, tudo muito simples e eficiente, explorando temas como aprendizado, convivência, natureza, poluição, desigualdade, celebração das riquezas do Brasil, festas populares e tantos outros assuntos. Completam o elenco: Ana Lamana (Sylvette), Lakis Farias (Dora), Gui Giannetto (Romano), Allira (Fada Manu) e Nestor Fonseca (Valentão).
A ideia dos óculos mágicos é fazer – brincando – o contraponto entre a vida como ela é e a vida como ela deveria ser. A criadora Suppa, por exemplo, se usasse esses óculos gostaria de ver o quê? Ela responde: “Gostaria de ver que todas as crianças já conhecessem a Charlotte e se inspirassem nela para fazer deste mundo um lugar melhor!” A diretora Juliana Sanches também responde: “Se eu colocasse os óculos mágicos, eu gostaria de ver um mundo com mais empatia pelo outro, sabe? Que a gente tivesse um pouco mais da capacidade de se colocar no lugar do outro, e eu tenho certeza que isso já eliminaria muitas guerras e muita diferença social. Acho que é isso que eu gostaria”. O produtor Filipe Fratino: “Eu gostaria de ver algo simples e verdadeiro”.
Suppa está feliz com o resultado nos palcos, realizada ao ver a personagem que desenhou primeiro no papel ganhar essa vida toda no teatro. “Nosso maior desafio foi criar o visual que lembrasse o desenho animado”, diz ela. “O visual tanto de cada personagem quanto o cenário. Mas conseguimos! O teatro deve ser um grande aliado da imaginação, dar vida a ela!” Juliana, a diretora, concorda: “O maior desafio foi manter a linguagem da criação da personagem Charlotte. Então, houve um cuidado muito grande na escolha dos atores, mas também em cada escolha, figurino, cenário, tudo pensando em manter a essência da personagem. E foi muito gratificante ver isso tomar forma nessa linguagem teatral, nos palcos, com os atores em cena. Enfim, é muito, muito, muito, muito gratificante.”

Desafio é um substantivo bastante conhecido por que produz teatro, os chamados produtores ou diretores de produção. Felipe Fratino acrescenta: “Para mim, criar uma peça teatral é construir uma estória que seja relevante para o público. Do ponto de vista artístico, o maior desafio é encenar um texto que envolva as crianças em uma jornada de emoções e conhecimento. Do ponto de vista de produção, temos sempre um grande desafio em conseguir recursos. As leis de incentivo funcionam, os editais são excelentes fontes de financiamento, mas o caminho para a realização exige muita dedicação e persistência.”
Em uma peça que o tempo todo propõe imaginar um mundo mágico e melhor, como será que seus realizadores encaram o papel (a função, os rumos) que o teatro para crianças terá no futuro? Afinal, já estamos caminhando velozmente para a segunda metade do século 21. Juliana Sanches declara: “Principalmente agora, que as crianças já nascem viradas para as telas e os pais transmitem seu nascimento pelo celular para a família toda, o teatro ganhou uma importância enorme, maior ainda do que já tinha. Porque toda vez que você está num teatro, você sabe que o que está sendo feito ali ficará ali, só naquele momento e só daquele jeito, pois amanhã será diferente. Isso é presença real e muda o seu estado de presença. O corpo é acionado, a atenção é acionada de uma forma muito mais efetiva, por isso que é tão mágico. É isso. A experiência teatral é muito mágica. É incrível ver o jeito que as crianças saem do teatro, a maioria já falando que quer voltar.”

O diretor de produção Filipe Fratino completa a mesma ideia: “O teatro infantil terá um papel importantíssimo para a formação das gerações do século 21. Vivemos uma enorme crise cognitiva. As telas e os conteúdos digitais, em vez de promoverem o conhecimento, estão sobretudo diminuindo a capacidade de concentração, de atenção e de leitura profunda. Os conteúdos curtos e a velocidade com que trocamos de assuntos nas dezenas de telas digitais nos levam a viver em um tempo suspenso, em um limbo. Estar inteiro no momento presente é uma raridade. Todos nós temos uma enorme dificuldade de experimentar o agora. O teatro proporciona o que atualmente é raro para nossa geração: no teatro nós mergulhamos em um espaço único, em uma sala reservada apenas para aquilo, todos estão lá presentes e atentos, e todos juntos percorremos uma jornada única e tocante. O teatro será a grande redenção para as nossas gerações. Temos de reaprender o que nós fizemos há milênios como espécie.”
De fato, reaprender sobretudo o básico da vida. A peça quer inspirar o público a reaprender a conviver, reaprender a cortesia, a gentileza, como está muito bem descrito na letra de Falabella para a canção do cãozinho Pelusso, que na peça é um boneco manipulado por Adriano Tunes. Se liga na letra: “Com licença, por favor, muito obrigado/São palavras que eu guardo com cuidado/Pois com elas sou um cão bem educado/E aprendo a conviver bem ao seu lado/Cortesia é a mãe da educação/Seja gato, papagaio ou seja cão/Cada um tem seu espaço nesse chão/E o segredo é a comunicação/E por isso eu cultivo a gentileza/Como a rosa se cultiva no jardim/Se você me tratar bem, eu com certeza/Vou poder gostar um pouco mais de mim”.
Serviço
Os Óculos Mágicos de Charlotte
Teatro Alfredo Mesquita. Av. Santos Dumont, 1770. Até 27 de julho, sábados e domingos, 16h. Grátis
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa, 153. De 2 a 30 de agosto. Sábados, 15h. Domingos, 11h (não haverá apresentação dia 9 de agosto. Sessão do dia 30 de agosto será gratuita). R$ 40
Até 30 de agosto (estreou 5 de julho)
