A peça, ambientada em um salão de beleza, é inspirada em caso de estupro ocorrido no interior paulista na década de 1980
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 10 de setembro de 2025)
O dramaturgo e diretor paulista Carlos Canhameiro, de 48 anos, carrega uma história na cabeça há algumas décadas. O garoto, nascido em Campinas e criado na região das cidades de Penápolis e Birigui, tomou conhecimento de uma tragédia ocorrida nas redondezas que, mesmo camuflada na época, permaneceu em seu imaginário e serve de inspiração para um projeto alimentado desde 2018.
Em 1986, uma estudante de uma escola de segundo grau –atual ensino médio – foi abusada por dois colegas de classe. Grávida em decorrência do estupro, a jovem de 16 anos foi obrigada pelos pais a deixar a cidade e passou a viver com os avós longe de todos. “Era uma gente da elite econômica local, pai e avô advogados, e nada poderia abalar seus interesses”, aponta Canhameiro.

Seis anos depois, a moça ganhou uma bolsa para um curso no exterior e voltou com o filho para entregá-lo ao pai, o homem que a violentou. Vendo o ex-colega afeiçoado à criança e disposto a assumi-la, ela praticou uma reparação de acordo com as próprias regras e disparou dois tiros contra o menino diante do pai. Até hoje não se tem notícias da “Medeia brasileira”, como foi apelidada em um raro registro da imprensa, e tampouco se sabe se está viva.
Passadas quase quatro décadas, Canhameiro ficcionou esta história no espetáculo Reparação, que estreia nesta quinta, 11, na Sala Jardel Filho, do Centro Cultural São Paulo, onde fica em cartaz até o dia 21. No dia 25, a montagem passa a ocupar o Teatro de Arena Eugênio Kusnet, permanecendo por lá até 12 de outubro. Serão duas encenações diferentes, devido às contrastantes configurações das duas salas.
Criado por Canhameiro e José Valdir Albuquerque, o cenário de dois andares, que reproduz um salão de beleza no palco italiano da Sala Jardel Filho, não poderá ser transferido para o intimista espaço circular da região central. “No Arena, o horror vai gritar mais alto”, antecipa o diretor. “Eu tenho uma fé na teatralidade, e um ator e uma cadeira nunca é somente um ator e uma cadeira.”

Diante desta persistente busca pela teatralidade, não se espera de Reparação um espetáculo convencional em que a narrativa se limite a reproduzir fatos com fidelidade ou próximos ao caráter documental. “Tanto que o máximo de informação preservada é que a história aconteceu no interior paulista e não entrego nada além disto”, diz o autor e diretor, que entrevistou moradores da região e pessoas ligadas às famílias dos envolvidos. “Não estou protegendo ninguém, mas prefiro não dar maiores detalhes.”
No salão de beleza típico da década de 1980, clientes e funcionários trocam informações sobre a violência enfrentada pela moça de família distinta. “Eu não escrevi a peça pensando em reproduzir um salão de beleza, mas a ambientação se impõe como um espaço social e importante para a dramaturgia”, salienta Canhameiro.
Os atores Daniel Gonzalez e Luiz Bertazzo, as atrizes Fábia Mirassos, Marilene Grama e Nilcéia Vicente e o músico Yantó apresentam 23 depoimentos que entrelaçam vozes reais e ficcionais em múltiplas versões sobre o episódio. Para injetar realismo na experiência proposta ao público, a manicure Maria França e a cabeleireira e maquiadora Rosa de Carlos participam da montagem na preparação do visagismo do elenco.
“Os depoimentos vão surgindo de um diálogo em sociedade que, muitas vezes, fica em um limite do campo da fofoca”, diz Canhameiro. “Só que, neste caso, a notícia vai a um nível de violência que não estamos acostumados a verificar porque quem mata, normalmente, é um homem e aqui temos uma mulher.”
Em meio ao peso da tragédia, a trilha sonora permeia o espetáculo como um alívio aos espectadores. Grandes sucessos do Roupa Nova, banda que alcançou enorme repercussão nas décadas de 1980 e 1990 com uma fusão de pop e MPB, embalam a peça. Volta pra Mim, Dona, Coração Pirata, Simplesmente e Minha Primeira Vez são algumas das canções selecionadas. “O Roupa Nova é a construção de uma masculinidade em que nada dá errado e entra no espetáculo para deixar claro que estamos fazendo teatro”, justifica Canhameiro.

Reparação é a sequência de uma proposta de Canhameiro em torno da recriação de conflitos de sociabilidade e memória em espaços coletivos cotidianos. Se o cenário da vez é o salão de beleza, Agamenon 12h, montada no Sesc Avenida Paulista em 2022, era ambientada em um camelódromo. Vencedora do Prêmio Shell de melhor dramaturgia de 2023, xs CULPADXS tinha a ação desenrolada em um boteco popular embalado pelo sertanejo feminino das cantoras Roberta Miranda, Sula Miranda e Marília Mendonça, além das duplas As Marcianas, Irmãs Galvão e Simone & Simaria.
Canhameiro vive na ponte aérea entre São Paulo e Lyon, na França, desde 2021. É lá que sua companheira, a atriz Paula Serra, trabalha no doutorado sobre a recepção em peças infantis. Mesmo assim, o dramaturgo e diretor não se distancia da cena local. “Eu ganho em real para gastar em euro”, brinca.
Além de Agamenon 12h e xs CULPADXS, ele realizou uma temporada de MACÁRIO do brazil no ano passado e, em agosto, estreou Sinfonia Capital – Em Tempos de Segunda Mão, espetáculo da Cia. Les Commediens Tropicales e do quarteto À Deriva. A dramaturgia de sua autoria foi apresentada no Cine Dom José, no centro da capital. “O público não precisa ficar ouvindo imposições o tempo todo, como virou regra nos últimos anos no nosso teatro”, observa. “Nós só queremos mostrar o que leva cada personagem a certo tipo de ação e, neste caso, questionar se é possível uma justiça reparativa ou até perdoar um criminoso.”
Serviço
Reparação
Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1000
Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h. Grátis. Ingressos distribuídos uma hora antes.
Até 21 setembro (estreia 11 de setembro)
Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Dr. Teodoro Baima, 94
Quinta a sábado, 19h; domingo, 18h. R$ 40
Até 12 de outubro (estreia 25 de setembro)
