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As delicadezas de um espetáculo infantil sobre o espectro autista

Sinopse

Em “Prisma – Eu Sou Assim”, Marcelo Romagnoli na dramaturgia e Cris Lozano na direção aceitam a proposta da Cia. Terralina de “entrar” na cabeça de uma criança neurodivergente e contribuir para o fim do preconceito, do bullying e da desinformação sobre o tema, em um espetáculo tão imaginativo quanto inclusivo

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 16 de janeiro de 2026)

O transtorno de espectro autista (TEA) ganha mais um espetáculo de horário diurno, mas não só para crianças. É muito importante usar o teatro infantojuvenil como ferramenta para retratar situações neurodivergentes, contribuindo para a diminuição do preconceito, da desinformação e do bullying. O espetáculo, que estreia sábado no Sesc Consolação, chama-se Prisma – Eu Sou Assim e propõe um novo olhar sobre o autismo. Foi idealizado por Tertulina Alves, da Cia Terralina, também no elenco, foi escrito por Marcelo Romagnoli e dirigido por Cris Lozano

“Acredito que crianças e adultos, depois de assistirem Prisma, vão ser mais acolhedores com os autistas com quem convivem”, comenta Tertulina, que teve ideia da peça a partir do dia em que seu companheiro de vida foi diagnosticado com TEA. “O espetáculo também coloca a criança autista como dona de sua história, sem capacitismos. Ela escreve a própria história, e isso faz com que crianças autistas também entendam que elas podem escrever.” Para ela, o fato de ter recrutado para o elenco uma atriz autista, Amanda Nascimento, também é potencializador, pois “isso diz para essas crianças que podem ocupar os espaços que elas quiserem, como ser atriz, por exemplo, ou escrever uma peça”.

Tertulina Alves, Alessandro Hernandez e Amanda Nascimento em Prisma – Eu Sou Assim. Foto Cacá Bernardes

Quando se percebe que um consagrado autor, como Marcelo Romagnoli, se propõe “a entrar na cabeça de uma criança autista”, como diz o material de divulgação de Prisma, fica impossível não querer que ele nos conte como se deu esse processo de escrita, pois, na certa, todos aprenderão muito com isso. “Li bastante, observei na prática, ouvi relatos e imaginei sem medo”, conta ele, sempre generoso em abrir seus processos. 

“A primeira inspiração veio de um fluxo de consciência”, prossegue. “O monólogo inicial da protagonista, quando já adulta, em que relembra seu nascimento e os primeiros anos de vida, deu impulso para a escrita continuar por uma linha dramática menos realista, sem compromisso didático, com muita liberdade de construir um universo a partir do prisma de uma criança neurodivergente. São seus pensamentos que movem a ação e criam a realidade do mundo, às vezes no tempo presente e outras no passado. A partir daí veio o mergulho. Um caminho para dentro de sua cabeça, realizando a fantasia de invadir o cérebro da personagem para assistir o que acontece com os neurônios, suas sinapses e os desencontros que suas conexões e desconexões geram no cotidiano. Não sei se consegui, mas arrisquei.”

O papel da direção em uma proposta desse naipe também é de uma responsabilidade imensa, para muito além de apenas ser uma direção criativa e atraente. Cris Lozano conta que teve cuidados muito específicos para abranger pessoas autistas da plateia. Pura inclusão. “Os estímulos foram pensados desde o primeiro dia, desde a primeira leitura do texto”, conta Cris. “Eu sempre pedi para a Amanda Nascimento, que é a atriz autista do elenco, dar retorno sobre tudo o que pudesse ser incômodo – desde a luz da sala onde ensaiávamos até estímulos sonoros usados na preparação corporal, por exemplo. Também tivemos o suporte da Ana Paula Lopez, da Cia La Leche, que é autista e assina a direção de movimento. Então, tanto dentro da cena quanto fora dela, contei com esse olhar muito afiado e extremamente cuidadoso.”

Alessandro Hernandez, Tertulina Alves e Amanda Nascimento em Prisma – Eu Sou Assim. Foto Cacá Bernardes

A sonoplastia também teve de ser bem pensada. Cris Lozano explica: “Em relação à sonoplastia, a Camila Couto, que fez essa parceria com a gente, foi praticamente orientada pela Amanda, que ia sinalizando quais sonoridades poderiam ser mais incômodas ou irritantes, dependendo da vibração e dos agudos que a música atingia”.

A experiente Marisa Bentivegna, na cenografia e iluminação, também seguiu bastante essas orientações. ”Há um momento do espetáculo que corresponde à crise da personagem, em que utilizamos estroboscópio”, detalha a diretora. “Esse recurso foi totalmente regulado para um nível de suporte, tanto no sentido do estímulo visual quanto da música que o acompanha, que ficou absolutamente pianinho, para não causar nenhum transtorno ou crise. Ou seja, a equipe foi fundamental na construção desse espetáculo, porque são muitos olhares envolvidos, mas, principalmente o olhar de dentro da cena: o da atriz, que conduziu a finalização dos elementos cênicos.”

O nível de adesão da diretora à proposta teatral tão delicada é tocante e claramente comprovada no seguinte depoimento de Cris Lozano: “Enquanto direção, estudo e pesquisa, você precisa criar um campo de criação que seja estimulante e desafiador, mas também confortável – ainda mais porque estamos lidando com um tema muito sensível. Um tema que, neste momento em que estamos, começa a ser reconhecido como primordial no campo do comportamento, com potencial de mudar o olhar nas escolas, nas famílias e nas relações entre as pessoas. O autismo sempre foi visto de maneira muito individualizada, como um comportamento isolado, de alguém que não se comunicava, com uma complexidade própria na relação com o mundo.”

Amanda Nascimento, Tertulina Alves e Alessandro Hernandez em Prisma – Eu Sou Assim. Foto Cacá Bernardes

Ela ainda esclarece mais: “Passamos o tempo todo procurando uma linguagem física, a partir da direção de movimento, mas também um comportamento estranho em relação ao mundo, partindo do entendimento de que todo mundo carrega alguma estranheza – algo que não é padronizado, que não corresponde exatamente ao comportamento socialmente esperado. Nesse sentido, o espetáculo fala mais desses muitos olhares sobre os comportamentos do que exclusivamente sobre o autismo. O foco está, sim, na biografia de uma criança autista, mas também evidencia que pais, professores e todas as pessoas têm suas próprias idiossincrasias.”

Quis saber também, com Cris Lozano, como foi trabalhar pela primeira vez com a Cia. Terralina.  “Ao trabalhar com muitos grupos, às vezes você reencontra atrizes, atores e criadores com quem já trabalhou antes”, explica ela. “Nesses casos, existe uma escuta e uma comunicação mais confortáveis. Neste grupo específico, eu conhecia só o ator Alessandro Hernandez, mas nunca tinha trabalhado com a Tertulina nem com a Amanda. E isso é muito potente, porque nos obriga a sair, de fato, de uma zona de conforto. Para mim, trabalhar com pessoas diferentes, com artistas que vêm de outras experiências, de outros grupos ou de trajetórias próprias, é sempre muito estimulante. Quando esses percursos se encontram e se misturam, o resultado costuma ser um processo criativo muito rico e, quase sempre, um resultado bastante interessante.”

Serviço

Prisma – Eu Sou Assim

Sesc Consolação – Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque

Sábados, 11h. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos

Até 14 de março (estreia 17 de janeiro)

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Ficha Técnica

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Serviço

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