Em espetáculo celebrativo escrito e dirigido por Eduardo Barata, dupla relembra fatos marcantes e engraçados da trajetória no teatro
Por Ubiratan Brasil (publicada em 28 de agosto de 2025)
O local onde se conheceram não poderia ser mais inusitado: durante aulas na tradicional Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, em São Paulo. Era o final dos anos 1950 e, na turma do fundão, reuniam-se os jovens Renato Borghi, Amir Haddad e José Celso Martinez Corrêa. “Eu me sentava na última fila, onde conseguia dormir”, diverte-se Borghi que, ao lado dos amigos, logo descobriu que as leis que realmente lhes interessavam era as que regem o teatro.
“Eles me convidaram para participar de uma montagem de Cândida, de Bernard Shaw, e eu aceitei. Mas, durante a distribuição de papeis, fiquei sobrando”, conta Haddad. “Foi aí que eu disse: ‘então o Amir vai dirigir'”, completa Borghi.

Cada um com 88 anos, Borghi e Haddad conversam com o Canal Teatro MF no camarim do Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo. Dali alguns minutos, eles vão ensaiar a peça Haddad e Borghi: Cantam o Teatro, Livres em Cena, que chega a São Paulo após temporada de sucesso no Rio de Janeiro.
Trata-se de uma celebração criada pelo produtor Eduardo Barata, também diretor do espetáculo. “Em março do ano passado, estávamos jantando em minha casa, no Rio, em homenagem ao Borghi. Os dois começaram a conversar, e o encanto foi acontecendo. Borghi, carioca da gema, tijucano, classe média alta. Já Amir, filho de pai sírio que vendia rapadura, nasceu em Guaxupé, no sul de Minas Gerais, cresceu em Rancharia, no interior de São Paulo, classe média baixa. Não tinha me caído a ficha de que, junto a Zé Celso, eles fundaram o Teatro Oficina, nos anos 1960″, conta o produtor, que decidiu levar para o palco relatos e memórias.
O texto nasceu a partir de dez encontros que a dupla teve então com Barata e Elaine Moreira. “É uma narrativa em trânsito, em ebulição e com imensa liberdade artística, assim como a trajetória de Amir e Renato. Tudo para homenagear estes gigantes da cena”, comenta ela. “Há um roteiro prévio em que o elenco vai nos fazendo perguntas sobre nossa trajetória e nós vamos respondendo”, conta Borghi.

O elenco é formado por Débora Duboc, Élcio Nogueira Seixas, Duda Barata e Máximo Cutrim, que cutuca a dupla da velha guarda, trazendo lembranças e referências de suas vidas dentro e fora dos palcos. “Em 1959, ele me dirigiu em A Incubadeira, texto do José Celso, que lhe valeu seu primeiro prêmio de melhor direção”, relembra Borghi.
“Eu sempre entendi o trabalho de direção como um trabalho de ator. Assim, mesmo não estando em cena, eu oriento os atores como se estivesse”, conta Amir, que estreia justamente como intérprete neste espetáculo. “E a glória maior é fazer isso ao logo do Borghi, sou feliz de tê-lo conhecido e por termos caminhado tanto pela vida cultural brasileira”, diz ele.
A peça dialoga com múltiplas linguagens – ópera, circo, artes visuais e carnaval -, inspiradas em artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Elis Regina, Zé Kéti, Braguinha, Emilinha Borba, Bizet, Donizetti e Charles Gounod.

A trilha é executada ao vivo pelo Trio Júlio (que também assina a direção musical), com participações da cantora lírica Ananda Gusmão, das palhaças Lenita Magalhães e Renata Maciel (também sanfoneira) e, na semana de estreia, dos músicos Awane Borges (cavaquinho), Maira Ranzeiro (pandeiro e percussão) e Thiago Mota (violão).
A importância deles na cena brasileira é fundamental. Haddad é referência no teatro de rua e na valorização da cultura popular. Em 1980, criou o grupo Tá na Rua, que revolucionou a cena teatral ao levar espetáculos a espaços públicos, promovendo acesso democrático à arte. Sua abordagem combina improviso, crítica social e participação do público, rompendo barreiras entre palco e plateia. Também dirigiu inúmeras peças memoráveis – entre as mais recentes, destaque para o monólogo Antígona, com Andrea Beltrão.
Já Borghi realizou trabalhos marcantes, como Pequenos Burgueses e O Rei da Vela. Nos anos 1970, criou o Teatro Vivo, produzindo espetáculos de resistência à ditadura militar. Como dramaturgo, assinou peças de sucesso nos anos 1980, incluindo Lobo de Ray-Ban e A Estrela Dalva. Em 1993, fundou o Teatro Promíscuo com Élcio Nogueira Seixas, obtendo êxito com diversas montagens. Ícone do Tropicalismo, imortalizou-se com O Rei da Vela e, em 2010, participou da Embaixada do Teatro Brasileiro, apresentando-se em 15 países.
Como o espírito reinante é o do descompromisso, fatos inesperados acontecem. Como a saída de palco de algum dos dois atores para ir ao banheiro. Ou como a orientação recebida pelos atores de notarem uma provável sonolência em cena da dupla. “Aí alguém do elenco abraça, acaricia e até dá um lanchinho para quem estiver assim”, diverte-se Barata.
Serviço
Haddad e Borghi: Cantam o Teatro, Livres em Cena
Teatro Anchieta. Sesc Consolação. Rua Dr Vila Nova, 245
Sextas e sábados, 20h. Domingos, 18h. R$ 70
Até 28 de setembro (estreia 29 de agosto)
