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A periferia retratada no teatro, de jovem para jovem

Sinopse

Circo Teatro Palombar está fazendo ferver o teatro do Sesc Belenzinho com o espetáculo “Somos Periferia”, que mostra toda a pulsação artística de Cidade Tiradentes, na zona leste paulistana, pelo olhar dos adolescentes

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 13 de fevereiro de 2026)

Está em cartaz no Sesc Belenzinho uma raridade de espetáculo. Duplamente raro. Primeiro porque é destinado prioritariamente, mas não só, a adolescentes – uma faixa etária pouco contemplada no teatro. E segundo porque retrata a realidade dos jovens de periferia – e isso é extremamente precioso e necessário, como potencial para criar empatia e espalhar a diversidade, descentralizando os locais de produção de arte. 

O nome da peça é justamente Somos Periferia, do grupo Circo Teatro Palombar, que mais uma vez assume Cidade Tiradentes como identidade e celebra seu pertencimento ao bairro, retratando episódios e vivências com uso criativo de diferentes linguagens artísticas, mas sobretudo a música e o circo.

  “Somos Periferia mistura projeções, poesias, dança, números circenses, ritmos musicais diversos, e isso encontra um eco no público jovem, porque fortalece a identidade e a autoestima deles”, declara Adriano Mauriz, diretor da peça. “Eles se reconhecem. O espetáculo carrega a posição desses jovens diante da vida e do mundo em que vivem, que muitas vezes é violento. Mas eles respondem com poesia e beleza. No final, esses jovens saem inspirados, com vontade de fazer arte, ou pelo menos de tornar o mundo, ou o espaço que eles quiserem ocupar, mais vibrante, mais vivo.”

Cena do espetáculo Somos Periferia, do Circo Teatro Palombar. Foto Toni Baptiste

Mauriz contextualiza um pouco mais a realidade em seu entorno: “A Zona Leste é o território com a maior população da cidade de São Paulo e, no nosso caso, Cidade Tiradentes é o maior conjunto habitacional da América Latina. Aqui, a população é majoritariamente jovem, composta por pessoas migrantes, negras, nordestinas, que estão descobrindo e afirmando a própria identidade. É um bairro jovem, de apenas 40 anos, mas que já carrega uma história cultural muito rica. A gente convive com os fundadores da primeira escola de samba da região, com o primeiro mestre de capoeira, e a sede do Palombar é o Centro Cultural Arte em Construção, do Pombas Urbanas, que foi o primeiro centro cultural daqui. Esses pioneiros estão, de certa forma, inventando uma tradição cultural própria deste território”.

Ele prossegue, esperançoso: “Ao mesmo tempo, observamos os moradores criando soluções para sobreviver às adversidades do dia a dia. Mas eles não fazem isso só para si: eles inovam coletivamente, mesmo com poucos recursos, oportunidades e acessos. A Cidade Tiradentes está pulsando. Estão surgindo muitos cursinhos populares, cozinhas solidárias, manifestações culturais como o funk, o futebol de várzea (que é tricampeão da Taça das Favelas), e uma musicalidade extremamente rica. É um território de corpo ativo, de gente cheia de vitalidade, lutadora, e que, no nosso caso, também se manifesta no circo, nas artes e na criação cultural.”

A reação do público, no Sesc Belenzinho, tem sido incrível na temporada. A juventude realmente se integra ao espetáculo. O diretor detalha essa alegria toda: “Cada número de circo, cada projeção, cada símbolo com que eles se identificam, eles vibram demais”, conta Mauriz. “Apontam, comentam entre si, comentam depois, enfim, se reconhecem. Aquilo tudo faz parte da vida deles, né? E eles valorizam, enquanto para muita gente é um mundo desconhecido ou sem importância. Ver isso sendo retratado e celebrado faz eles sentirem: ‘O que a gente vive aqui é cultura, sim’. E isso é potente, porque transforma a percepção deles sobre si mesmos e sobre o que podem criar”.

Outro momento do espetáculo Somos Periferia, do Circo Teatro Palombar. Foto Toni Baptiste

Mauriz reconhece que, para quem é de fora desse universo, há muita sutileza no espetáculo que passa sem ser notada. “Mas os jovens piram”, exulta o diretor. “Os tablados onde fica a big band, por exemplo, foram propositalmente rebaixados e tem uma luz na parte inferior, lembrando os carros tunados que na quebrada representam cultura, estilo e personalização. Tem elementos do hip-hop, como breaking, beatbox, rádios boombox nas projeções. Tem até o gramado do futebol de várzea, que eles amam.” 

O melhor jeito de definir Somos Periferia, do Palombar, segundo Adriano Mauriz, é dizer que se trata de um “caldeirão de linguagens artísticas e estilos, que representa um Brasil jovem, um Brasil que pulsa na quebrada, e que muita gente ainda não conhece de verdade”. Ele continua: “O espetáculo não é nem circo tradicional nem circo contemporâneo. É uma espécie de show multilinguagem, que celebra a diversidade da periferia. Os artistas estão em cena, se revezando: tocam as músicas que eles mesmos compuseram e fazem suas performances de circo”.

Atração à parte é observar a riqueza da trilha sonora. O diretor explica: “A trilha traz os ritmos que circulam pelo bairro: samba, rap, funk, rock, cumbia e até música gospel. E, olha, a música gospel está em todo lugar da quebrada o tempo todo, então a gente sentiu que precisava se apropriar dessa estética pra contar outras histórias”.

Poemas também se juntam aos ritmos, para complementar a fusão de linguagens. “As poesias refletem a visão dos jovens sobre o mundo em que vivem, e estão atravessadas pelo vídeo mapping do coletivo Coletores, também da Zona Leste, mas que faz um trabalho universal: eles já viajaram pra África, França e vários outros países, e se tornaram referência nas artes visuais, contando sobre o próprio território.”

Um orgulho especial da ficha técnica é ter a participação do poeta Jé Versátil. Mauriz atesta essa importância: “Jé é uma grata novidade! Ele é um morador do bairro e vizinho do Centro Cultural Arte em Construção (sede do grupo). Nós o conhecemos como cidadão e não como artista, mas ele entrou no espetáculo trazendo toda sua potência. É um jovem negro do bairro que faz beatbox, rap e poesia, e costura o espetáculo como um mestre de pista faz no circo tradicional. Só que ele é um MC (Mestre de Cerimônias), daqueles que conduzem batalhas de slam, de rima, de breaking, e tudo que pulsa dentro do hip-hop e da cultura urbana. E ele traz a força das ruas para dentro do circo periférico”.

Alguém ainda duvida da grandiosidade dessa proposta e de como ela se transforma em uma experiência imersiva realmente proveitosa?  Somos Periferia aguarda sua visita. 

Serviço

Somos Periferia

Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos 1. Rua Padre Adelino, 1000.

Sextas e sábados, 20h. Domingos, 17h. Durante o carnaval, apresentações sábado, domingo, segunda e terça, 17h. R$ 50

Até 22 de fevereiro (estreou em 6 de fevereiro)

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Ficha Técnica

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Serviço

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