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“A Boca que Come Tudo Tem Fome” enfoca traumas de presos na retomada da liberdade

Sinopse

Espetáculo da Cia. de Teatro Heliópolis celebra os 25 do coletivo, conhecido por retratar as consequências da violência na metrópole

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 10 de julho de 2025)

Fundada em 2000, a Cia. de Teatro Heliópolis chega aos 25 anos como reafirmação de resistência em nome de uma pesquisa social voltada às artes cênicas. O espetáculo A Boca que Come Tudo Tem Fome (Do Cárcere às Ruas), que estreia nesta quinta, 10, no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis, é a 14ª montagem do coletivo e aborda as dificuldades de pessoas egressas da prisão para encarar a liberdade

A dramaturgia criada por Dione Carlos e dirigida por Miguel Rocha concentra o universo em seis personagens (interpretados por Cristiano Belarmino, Dalma Régia, Davi Guimarães, Jucimara Canteiro, Klavy Costa e Walmir Bess). Eles têm suas trajetórias cruzadas e enfrentam os estigmas sociais e as resistências tanto para arrumar um trabalho como para conviver com os familiares. As dificuldades do reencontro com os filhos ou pais, a mágoa decorrente do abandono e da falta de visitas e a vergonha por causa do crime que culminou na detenção mapeiam os sentimentos de cada um. “A incerteza de como será a vida gera medos e até a vontade de voltar à prisão”, afirma Rocha, fundador do coletivo. “Os personagens deparam com diversos níveis de complexidade para reorganizar a vida.”

Cena de A Boca que Tudo Come Tem Fome. Foto José de Holanda

A Boca que Tudo Come Tem Fome é resultado do projeto Do Cárcere às Ruas: O Estigma da Vida Depois das Grades, que pesquisa comportamentos, traumas e perspectivas deflagradas na retomada do contato social. Para aprofundar o tema, a Companhia de Teatro Heliópolis entrevistou pessoas que vivem ou viveram essa realidade. “Em 23 de dezembro passado, fomos para a porta do Presídio Feminino do Butantã e conversamos com dezenas de detentas beneficiadas com a saidinha de fim de ano, por exemplo”, conta Rocha. 

Foram ouvidos ainda egressos na comunidade de Heliópolis, e debates abertos ao público reuniram nomes como os do assistente social Fábio Pereira, do rapper Dexter e da ativista Regina Magda Becker, conhecida como Tempestade. “É um apanhado que não limita o espetáculo ao teatro documental, mas traz lapsos dos entrevistados e das memórias de pessoas que tiveram familiares no sistema prisional e como estas experiências transbordam em seus corpos e afetos”, diz Rocha.

O verbo “transbordar” serviu de inspiração para o diretor inserir poesia na montagem e fazer com a violência do tema chegasse ao público de uma forma menos dura. A cenografia assinada por Telumi Hellen reproduz um espelho d’água no palco como metáfora para mostrar a água como um elemento de limpeza e renovação, mas que, em certos casos, pode representar uma força destrutiva. “Como encenador, crio conceitos de lugares e espaços para formar imagens que extrapolem o que está sendo dito”, explica Rocha. “Assim, o espectador pode elaborar diferentes camadas sobre o material que não fiquem restritas a uma primeira leitura.”

O elenco de A Boca que Tudo Come Tem Fome. Foto José de Holanda

Miguel Rocha, de 46 anos, é natural de São Miguel do Fidalgo, no interior do Piauí. Ele levou um susto com a realidade de chegar a São Paulo, aos 21, e morar na maior comunidade da zona sul da metrópole. “Eu andava descalço, nadava na lagoa, comia fruta do pé e, de repente, passei a ver corpos mortos perto da minha casa”, lembra. O choque de realidade, pensa hoje o diretor, foi o estímulo para a criação da companhia, que começou com cerca de 30 jovens, entre 14 e 25 anos, com pouca ou nenhuma experiência teatral.

A primeira peça, uma adaptação do livro A Queda para o Alto, escrito por Sandra Mara Herzer (1962-1982), estreou em novembro de 2000 na Casa de Cultura Chico Science, equipamento da prefeitura no Ipiranga. Um dia, o diretor Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2003) apareceu por lá e, entusiasmado, convidou o jovem elenco para uma apresentação no Teatro Oficina. O grupo começou a ganhar divulgação e chamou a atenção de outros artistas e instituições que se abriram para os seus projetos.

A Cia. de Teatro Heliópolis consolidou uma investigação sobre territorialidade e as consequências da violência sob os pontos de vistas individuais e coletivos sem deixar de explorar contradições. “O trabalho tem um efeito cebola para tratar desse tema relacionado à cidade e ao país para não ficarmos limitados a nossa comunidade”, declara Rocha. 

Nos últimos anos, os conflitos urbanos em atrito com a situação política e social chamaram a atenção em espetáculos que fizeram sucesso de crítica. Em 2019, a peça (In)Justiça discutiu o sistema judicial através de um crime acidental na periferia, e Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos, lançado em 2022, mostrou a reação de duas irmãs diante da prisão dos homens da família. O texto, aliás, escrito pela mesma dramaturga Dione Carlos, premiada pela APCA e pelo Shell, originou o projeto que resulta em A Boca que Come Tudo Tem Fome (Do Cárcere às Ruas).

Outra cena de A Boca que Tudo Come Tem Fome. Foto José de Holanda

Em 2023, os artistas levarem ao palco Quando o Discurso Autoriza a Barbárie, montagem sobre a arbitrariedade do poder público ao longa da história brasileira. Rocha garante que a longevidade da Cia. de Teatro Heliópolis se justifica por duas noções que norteiam o trabalho em grupo, a de realidade e a de coletivo. “Não podemos idealizar o teatro como se ele fosse diferente dos outros ofícios e quando se compreende as particularidades e as necessidades de cada integrante a nossa construção de torna mais sólida”, diz. “Nem tudo vem no tempo que a gente deseja, mas, quando o trabalho tem uma força de expressão, se consegue uma vida prolongada com novas temporadas e participações em festivais.”  

Depois do Sesc 14 Bis, A Boca que Come Tudo Tem Fome (Do Cárcere às Ruas) dá a largada para três meses de apresentações na Casa de Teatro Maria José de Carvalho, a sede da companhia desde 2009, no bairro do Ipiranga. “A possibilidade de ter uma sede amadureceu o nosso projeto de pesquisa e encenação”, afirma Rocha. “Sem falar que o espetáculo ganha nova perspectiva em um espaço onde o público sente até a respiração dos atores.”

Serviço

A Boca que Come Tudo Tem Fome (Do Cárcere às Ruas)

Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez. Rua Doutor Plínio Barreto, 285, Bela Vista

Quinta a sábado, 20h, domingo, 18h. R$ 60

Até 3 de agosto (estreia 10 de julho)

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Ficha Técnica

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Serviço

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