Peça do italiano Eduardo De Filippo ganha montagem no Teatro do Sesi São Paulo com o Grupo Tapa apostando na comédia sutil e bem montada
Por Ubiratan Brasil (publicada em 20 de outubro de 2026)
O dramaturgo italiano Eduardo De Filippo (1900-1984) usou do humor para retratar a crise da sociedade patriarcal, escrevendo comédias agridoces sobre a vida familiar italiana e, especialmente, sobre a sociedade napolitana durante e após a Segunda Guerra Mundial. Foi assim em A Grande Magia, com que a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico comemorou seus 25 anos em setembro de 2025. E agora se repete com Filumena Marturano, que estreou no Teatro do Sesi, em São Paulo.
Escrita em 1946, a comédia conta a história de uma ex-prostituta (Sandra Corveloni) que finge estar morrendo para forçar seu parceiro de longa data, Domênico Soriano (André Garolli), a se casar com ela no leito de morte. Após a revelação da farsa, conflitos familiares e revelações sobre seus filhos testam os limites da dignidade e do afeto.
Com direção de Eduardo Tolentino de Araújo, a peça é a mais recente montagem da importante companhia do Grupo Tapa. Conhecido por montagens austeras, o grupo aposta agora em um peça que, apesar de incentivar a reflexão, provoca muitas risadas.
“Filumena Marturano fala da família e das contradições da moral, das relações de classe e da condição da mulher. É uma mulher do povo diante de uma burguesia que foi inoperante durante a guerra. Existe ali, simbolicamente, uma união entre essas duas partes de uma Itália destruída pelo conflito, que precisa se reconstruir”, comenta o encenador.

Segundo ele, a trama não fala diretamente da guerra ou da política, mas tudo isso está presente de maneira simbólica. E, ao mesmo tempo, é uma comédia que tem uma comunicação com o público, porque se ri muito, mas também existe um teor sentimental com todos os ingredientes que uma família tem.
Inspirada em uma notícia de jornal sobre uma mulher que simula estar em estado terminal para convencer o homem que ama a se casar com ela como seu último desejo, a mais popular peça de Eduardo De Filippo tem sua trama desenvolvida ao questionar o poder masculino e a função do feminino.
O pano se abre com a revelação do golpe da protagonista que, depois de vinte e cinco anos de convivência extraoficial com Domênico, que a retirou de um bordel, Filumena revela um segredo que vem à tona: ela teve três filhos e deseja o casamento para legitimar a paternidade. Mas há uma carta na manga: apenas um deles é filho de Domênico.
O diretor traduziu o espetáculo em parceria com Maurizio De Simone, diretamente do napolitano, buscando preservar as particularidades do texto original e explorar seus sentidos e sonoridades. “Eduardo De Filippo é chamado de ‘Shakespeare napolitano’. Por incrível que pareça, ele é muito menos conhecido no Brasil do que deveria ser. Isso aconteceu, entre outras razões, porque os direitos não chegavam até o autor e por causa da ditadura militar”, diz Tolentino.
Filumena foi um grande sucesso dele, no momento em que dá um salto na carreira. “Ele já era um autor popular, mas, a partir dessa peça, ganha outra dimensão e passa a ser montado no mundo inteiro”, acrescenta o encenador.
Completam o elenco os atores Walter Breda (Alfredo), Maria do Carmo Soares (Rosália), Daniel Volpi (Nocella), Ivan Nobrega (Michaele), Felipe Souza (Ricardo), Ruiz Angellus (Umberto), Luísa Ferrari (Diana) e Mari Teixeira (Lucia). Grupo afiado, capaz de retirar proveito do texto do dramaturgo italiano e provocar muitas risadas dos espectadores. Apesar da boa presença em cena de todos, Sandra Corveloni e André Garolli se destacam com timing perfeito para comédia.
Serviço
Filumena Marturano
Teatro do Sesi São Paulo. Av. Paulista, 1.313.
Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h. Ingressos gratuitos – reservas no site sesisp.org.br/eventos
Até 20 dezembro (estreou em 16 de outubro)
