Com direção de Ines Bushatsky e texto de João Mostazo, espetáculo é uma continuação do projeto Shakespeare in Drag, criado pela companhia em 2024 e que rendeu a Alexia Twister o prêmio Shell de Melhor Ator
Por Redação Canal Teatro MF (publicado em 15 de outubro de 2026)
No teatro elizabetano, durante a época de Wiliam Shakespeare, séculos XVI e XVII, mulheres não eram vistas em cena e não atuavam nos palcos, os homens que faziam praticamente todos os papéis escritos pelo bardo inglês naquele período. Passados mais de quinhentos anos, a Cia. Extemporânea vai estrear o seu segundo espetáculo onde o elenco é formado por drag queens.
Depois do sucesso de Rei Lear, que rendeu o Prêmio Shell de Melhor Ator para Alexia Twister, agora é a vez de encenarem uma das mais famosas tragédias shakespeareanas. Macbeth chega ao Sesc Pompéia depois de passar pelo Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas.

“Já era um sonho antigo fazer Shakespeare com um elenco formado inteiramente por drag queens. Tive a ideia em 2017, durante os ensaios da peça A demência dos touros, que contava com a drag Lilith Prexeva no elenco e tinha cenas inspiradas em Hamlet. Ali, há quase dez anos, já estávamos explorando muito do que iríamos concretizar futuramente, um espaço de cena onde a drag estabelece diferentes tipos de ambiguidade, entre as performances de gênero, entre o ser ou não ser, e o ser e não ser”, comenta a diretora Ines Bushatsky.
Na trama, ao voltar da guerra, o general Macbeth se depara com três bruxas num descampado, que profetizam o seu futuro como rei da Escócia. Motivados pela previsão, ele e sua esposa, Lady Macbeth, tramam o assassinato do atual rei Duncan e a usurpação de sua coroa. O crime, no entanto, leva o casal a ser consumido pela culpa, precipitando o reino em uma espiral de terror e despotismo. Tomado pela angústia e paranóia, à medida que vê sua coroa ameaçada, Macbeth se converte em um tirano.
Sobre o clássico shakespeariano, João Mostazo, que assina a adaptação do texto, aponta: “Apesar da trama relativamente simples, Macbeth é uma peça de extraordinária complexidade. Quase tudo do que as personagens dizem pressupõe uma segunda camada de sentido, e há um ensurdecedor não-dito pulsando por baixo de toda a ação. Ao contrário de Rei Lear – que, à maneira de um teatro do mundo, contém todas as paixões humanas –, o conjunto de sentimentos que a trama percorre é restrito, e gira em torno de um mesmo eixo emocional: medo, paranoia, traição, desconfiança, ambição. Cada uma dessas emoções, no entanto, é investigada com insuperável profundidade”.

Bushatsky conta que, nas duas montagens do projeto Shakespeare in Drag, os papéis de gênero são suspensos e colocados de forma menos estática e definitiva.
“A drag em relação ao personagem shakespeariano faz ainda mais uma torção, repensando figuras tradicionais a partir de escolhas políticas e estéticas trazidas pelo universo LGBTQIAPN+. Além disso, na adaptação importa menos a fidelidade literal e mais o efeito que o texto causa. Qual efeito Shakespeare conseguia quando seus personagens diziam uma gíria da época? Para isso, Mostazo insere referências a versos e expressões da cultura e da literatura brasileira, trazendo assim para perto do público inspirações poéticas já conhecidas”, ilustra.
Serviço
Macbeth
Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93
Quintas e sábados, 20h. Sextas, 16h e 20h. Domingos, 18h. Não haverá sessão dia 25 de outubro. Sessão extra dia 11 de novembro, 20h. R$ 60
Até 15 de novembro (estreia 22 de outubro)
