Espetáculo em comemoração aos 35 anos do grupo faz uma releitura contemporânea tão cômica quanto crítica, que aproxima o astuto Arlequim do Brasil de hoje e suas contradições sociais
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 5 de outubro de 2026)
A sagacidade e esperteza contidas em Arlequim, uma das personagens emblemáticas da commedia dell arte, já serviu para a criação de algumas personagens marcantes da dramaturgia, como em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, onde a dupla Chicó e João Grilo prepara artimanhas para se ver livre da fome. Ali, o dramaturgo paraibano se valeu do arquétipo desta figura astuta para desenvolver situações cômicas e alegóricas em um Nordeste marcado por uma grande desigualdade social.
Já no século XVIII, muito mais próximo do período em que este teatro popular italiano se desenvolveu, o dramaturgo Carlo Goldoni explicitou na figura cómica de Arlequim a astúcia de se dividir entre as solicitações de dois patrões, tudo para conseguir um prato de comida, daí resultando o clássico texto Arlequim, servidor de dois patrões, de 1746.
Agora, em comemoração aos seus 35 anos, o grupo Parlapatões apresenta uma montagem para esse texto, utilizando o mesmo título dado no século XVIII, mas fazendo uma releitura cheia de brasilidades do clássico de Goldoni. Com direção de Hugo Possolo, a estreia aconteceu no Sesc Bom Retiro.

A montagem do Parlapatões traz elementos indispensáveis, como o improviso e a ideia do arquétipo, mas faz uma mistura com uma visão bastante contemporânea e brasileira, na narrativa e na estética. O protagonista, vivido por Hugo Possolo, continua como modelo fundamental para se compreender o que é a esperteza de quem vive na pobreza, com humor e lirismo.
Sem sair da época e do local onde transcorre a trama original, os Parlapatões se valem da arte da palhaçaria para encenar uma aventura lúdica e cômica com elementos da cultura popular brasileira, acrobacias e música. Em cena, as máscaras dão lugar à maquiagem, a renda e o bordado dão espaço ao fuxico e a cores vibrantes, trazendo um clima festivo e circense, em diálogo com o Brasil de hoje e suas contradições sociais.
“Escolhemos essa peça porque ela é celebrativa, popular e porque trata de um tema que parece que as pessoas abandonaram: que é a fome. O teatro é político e é completamente brincalhão, sem ficar na lamúria, mas valorizando o que a pobreza tem de inteligência para sobreviver, que é a principal característica do Arlequim. Ele é o cara que sobrevive com a famosa jornada dupla, que hoje a gente conhece tão bem, algo que antes era antiético, mas hoje é normal para as pessoas”, explica Possolo, que vem fazendo preparo físico para interpretar Arlequim.
O espetáculo reafirma a marca dos Parlapatões: unir a tradição dos grandes clássicos ao espírito popular, político e inventivo que acompanha o grupo há mais de três décadas.
“Para nós, uma comemoração em grande estilo é dividir com o público a essência da linguagem que costura toda a nossa história: a arte da palhaçaria. E, nos juntamos ainda às comemorações de 80 anos do Sesc. É um prato cheio, com e sem trocadilhos, para a comicidade que sempre buscamos, a de um riso transformador”, diz Hugo Possolo.
Serviço
Arlequim, Servidor de Dois Patrões
Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185
Sextas e sábados, 20h. Domingos, 18h. Sessão extra dia 6/11, 15h. R$ 60
Até 15 de novembro (estreou 2 de outubro)
