Rodrigo Andrade, da premiada companhia. O Que de Que, encena os sustos de ter uma filha nascida prematuramente, em montagem carregada de poesia e delicadeza, exatamente como pedem os espetáculos voltados para público da primeira infância
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 29 de maio de 2026)
Uma raridade nos palcos. Um pai falando da experiência da gestação, a hora do parto, o hospital, a UTI, os primeiros dias do bebê. É o espetáculo O Que Esqueci de Lembrar, nova criação da Cia. O Que De Que, reconhecida internacionalmente por seu trabalho com teatro de animação.
É um sensível trabalho sobre nascimento e memória, na visão masculina. Foi criado a partir de cartas escritas pelo ator e diretor Rodrigo Andrade para sua filha, Mia, nascida prematuramente no fim de janeiro. Os sustos do nascimento antecipado sedimentam a obra, criada sob orientação do veterano Grupo Sobrevento, um dos mais ativos no País nessa nova modalidade chamada de ‘teatro para bebês’ ou para a primeira infância.
Rodrigo Andrade, sozinho em cena, apoia-se na companhia de expressivos vasos de barro, que conduzem sua travessia, evocando a passagem do tempo e as transformações que compõem a aventura de se tornar pai. Nas quatro perguntas a seguir, que Andrade responde com riqueza de detalhes, ele destrincha todo o processo de criação da peça, o que será extremamente útil para quem ainda não entendeu como é que se faz teatro para recém-nascidos e suas famílias. Confira.

Conte um pouco sobre como tem sido a recepção do público desde a estreia.
A recepção do público tem sido muito, muito especial. Estudamos profundamente que, nos espetáculos para bebês, mais importante do que a história ou o texto falado, é a verdade e a simplicidade das relações que o ator constrói em cada ação. Mas, em O Que Esqueci De Lembrar, descobri que essa verdade também alcança os bebês que vivem dentro de cada adulto. Com certeza, este é o espetáculo mais difícil em que atuo – e olha que temos 10 trabalhos em repertório. Mas também é aquele em que mais percebo o público adulto se emocionar e os bebês mergulharem, de fato, na contemplação da cena.
É um trabalho muito particular, uma dramaturgia muito pessoal e confessional. Como foi esse processo de criação falando de si e querendo atingir a todos?
Essa dramaturgia foi arrancada de mim pela grande amiga, parceira, mestra e provocadora deste processo criativo: Sandra Vargas, do Grupo Sobrevento. Existe um jeito muito especial de o Sobrevento levantar dramaturgias para o teatro para bebês. E foi neste trabalho que descobri, de forma muito concreta, a potência desse modo de criação. Minha filha nasceu prematura, no dia 23 de janeiro, bem no início do processo criativo. Foi um período bastante complexo: eu tentava conciliar os cuidados na UTI com a criação deste espetáculo, no qual já vinha investigando materiais com a codireção de Lu Favoreto, da Cia Oito Nova Dança, minha grande mestra no mundo das artes. Fazíamos encontros online, muitas vezes comigo ainda no hospital, e encontros presenciais no Chiquita, onde discutíamos o tema do barro — matéria que eu vinha investigando para este trabalho e que havia surgido durante a oficina realizada com o Grupo Sobrevento, dentro do nosso projeto contemplado pelo Fomento ao Teatro. Levantamos materiais, cenas, imagens, caminhos possíveis. Mas a dramaturgia ainda não se revelava. Até que chegou o encontro, já programado, com Sandra Vargas e Luiz André Cherubini. Apresentamos tudo o que havíamos criado até ali e, logo no primeiro dia, Sandra me disse: “Quero que você escreva e traga amanhã cartas para sua filha que acabou de nascer.” Foi o que fiz. Sem muito julgamento. Sem nenhuma intenção de que aquelas cartas se tornassem, depois, a dramaturgia do espetáculo. No segundo dia, apresentei a primeira carta. Sandra a levou. No dia seguinte, voltou com trechos dela organizados em uma proposta de caminho dramatúrgico. Não era uma história no sentido tradicional, mas uma estrutura que revelava, com muita delicadeza, a inspiração mais profunda deste trabalho. Depois disso, vieram longos ensaios com Sandra e Luiz André, nos quais fomos lapidando essa dramaturgia, investigando ressonâncias entre palavra, silêncio, gesto, memória e presença. Desde o princípio, confiamos muito na experiência do Grupo Sobrevento e na forma como eles percebiam que este trabalho poderia chegar ao público. E, hoje, vemos que isso realmente aconteceu de maneira muito próxima ao que eles provocaram em nós. O espetáculo se comunica com os adultos e com os bebês em um lugar muito especial. Um lugar que talvez nós ainda estivéssemos tentando encontrar, mas que Sandra e Luiz André já enxergavam desde o início do processo.
Comente um pouco sobre a metáfora dos vasos de barro.
O barro era o meu elemento disparador para este processo. Depois de meses com essa matéria habitando meus pensamentos, Lu Favoreto encontrou, em um livro antigo sobre símbolos, uma imagem que abriu outro caminho para o processo: um vaso de barro de Lepenski Vir, associado à ideia ancestral do útero. O vaso trazia a presença de um interior invisível – um dentro que não se pode ver e que, justamente por isso, permanece desconhecido, misterioso, em gestação. A partir daí, o barro deixou de ser apenas matéria: tornou-se abrigo, corpo, memória, ventre. E os vasos que inundaram a cenografia passaram a carregar essa dupla presença: objetos de barro e, ao mesmo tempo, espaços de silêncio, espera e nascimento. Daí foi um pulo para compreendermos a relação entre o barro e o útero. A matéria que eu vinha investigando ganhou, então, outra camada: o barro como origem, abrigo, mistério, gestação, memória e transformação. A partir disso, passamos a construir paralelos com os vasos de barro, que pouco a pouco inundaram a nossa cenografia — não apenas como objetos, mas como presenças, como corpos, como cacos de vida, silêncio e segredo.

É uma visão paterna sobre gestação, nascimento, primeiros dias. E isso é raro no teatro. Que cuidados você teve para não ferir suscetibilidades maternas ao entrar num assunto que é tão mais comum sob a ótica do universo feminino?
Fui honesto. E essa honestidade foi muito cobrada de mim pelo Luiz André Cherubini durante o processo. Eu sabia que não poderia falar do lugar da mãe, nem tentar traduzir uma experiência que não é minha. Mas também compreendi que, antes de sermos pai, mãe, homem ou mulher, existem sentimentos que atravessam todos aqueles que são invadidos por essa infinitude chamada nascimento. É muito difícil – para não dizer impossível – explicar o que acontece dentro da gente quando uma vida chega. Esses sentimentos precisaram ser trabalhados com muito cuidado para aparecerem nas minhas relações com os vasos em cena. Parece simples, mas chegar a essa simplicidade foi uma das coisas mais difíceis do processo. Na nossa gestação, eu, como pai, também precisei atravessar muitos percursos: o nascimento prematuro, a UTI, o pós-parto, o medo, a espera, a tentativa de permanecer inteiro. Em muitos momentos, meu único apoio era acreditar em um sonho que eu havia tido com uma bebê chamada Mia, aqui em casa. Hoje, ela está aqui. É essa certeza que levo para o trabalho a cada apresentação. Fazer esse espetáculo é muito difícil, porque significa reviver, todos os dias, muitos daqueles sentimentos. Mas, ao ver o retorno dos adultos – homens e mulheres – e, principalmente, os olhos vidrados dos bebês diante da cena, sinto que conseguimos tocar um lugar comum, profundo e verdadeiro. E talvez seja disso que os sonhos são feitos: da coragem de atravessar aquilo que ainda não sabemos explicar.
Serviço
O Que Esqueci de Lembrar
Chiquita – Sala de Teatro para Bebês. Rua Cel. Domingos Ramos 54, Vila Leopoldina
Sábados e domingos, 11h. Grátis (reserva antecipada em bilheteriainteligente.com.br)
Até 14 de junho (estreou 10 de maio)
