“Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes” é uma fábula sobre violência, justiça e juventude no Brasil contemporâneo
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 20 de abril de 2026)
Um espaço para produções de cinema se transformou, em julho de 2025, em uma sala de espetáculo, o Teatroiquè, localizado no bairro do Butantã, em São Paulo. Como ainda mantem características de seu antigo uso, o local torna-se ideal para determinados projetos cênicos, como Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, que estreia no dia 24 de abril.
Trata-se do desfecho da Residência Sociedade Arminda, que contou antes com os espetáculos Ensaio sobre o Terror e Blasted, todos dispostos a radicalizar a investigação do coletivo ao lançar o público em uma fábula sobre violência, justiça e juventude no Brasil contemporâneo. Dirigida por José Fernando Peixoto de Azevedo, a peça permite que o público acompanhe o aprofundamento de uma linguagem própria, definida por ele como “peça-filme”.
Na trama, dois jovens moradores da periferia de São Paulo decidem vingar o assassinato do pai. O sequestro do principal suspeito, um policial, os coloca diante de uma situação limite, atravessada por impasses, divergências e tensões que ameaçam redefinir seus destinos. “Vamos matar esse fascista”, gritam os irmãos, em um gesto que condensa revolta e desespero.

A dramaturgia parte de textos e entrevistas de Pier Paolo Pasolini, entre eles o artigo Os jovens infelizes, o poema Hierarquia e a última entrevista concedida pelo artista italiano poucas horas antes de seu assassinato, em 1975, aos 53 anos, intitulada Estamos todos em perigo.
Pasolini foi um crítico radical da sociedade de seu tempo, destacando-se como um dos que, por primeiro, souberam enxergar a virada irreversível do mundo, tornando-se um “diagnosticador” dos tempos que viriam, ressaltando os dois pontos que defendeu ao longo da vida: a observação de que o mundo está constituído de forças contrastantes, sem que, todavia, isso signifique o conformismo estéril; e o segundo é que a arte exige conhecimento prévio e técnico, não sendo ato de pura vontade nem dom natural.
“A peça-filme é o que o nome descreve: uma peça e um filme ao mesmo tempo”, afirma Azevedo. “Deslizamos entre a cena de teatro e o set de gravação, compondo um jogo em que o filme não é comentário ou duplicação da ação, mas parte da própria cena. Ao fim, tudo é teatro, e o cinema nos devolve ao teatro”.
Câmeras, projeções e uma grande tela em formato 16:9 estruturam um dispositivo que articula presença ao vivo e imagem captada em tempo real. No espetáculo, esse mecanismo se expande: o teatro se converte em locação, atravessando rua, corredores, estúdio, piscina, porão e terraço, compondo um campo de ação que transborda o palco.
Duas câmeras instauram duas instâncias: em preto e branco, uma narrativa ficcional em diálogo direto com o público; em cor, um personagem registra seu próprio documentário. Dois filmes emergem simultaneamente, enquanto o teatro se afirma como campo de fricção entre eles.
“Ao trabalhar aqui, encontramos um espaço que potencializa essa imaginação que nasce justamente do encontro entre teatro e cinema”, comenta Azevedo sobre a parceria com o Teatroiquè. “Não se trata de produzir ilusão, mas de expor o mecanismo e revelar como as imagens e as narrativas são construídas”.
Em cena, Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria transitam entre personagens, depoimentos e fragmentos textuais, contracenando com uma banda e uma cantora, enquanto imagens captadas ao vivo desdobram a ação em múltiplos pontos de vista.
Serviço
Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes
Teatroiquè. Rua Iquiririm, 110
Sexta-feira, sábado e segunda-feira, 21h. Domingo, 18h. R$ 80 (vendas pelo site byinti.com)
Até 25 de maio (estreia 24 de abril)