Encenador cria uma versão operística, com encenação e figurino sofisticados, do musical criado por Chico Buarque, em 1978
Por Ubiratan Brasil (publicada em 10 de fevereiro de 2026)
Para analisar as questões sociais, políticas e culturais do Brasil, o compositor Chico Buarque de Holanda criou o musical Ópera do Malandro que, estreado em 1978, relacionou o malandro tradicional da Lapa com o “novo malandro”, o engravatado, fazendo uma crítica social sobre a apropriação dessa figura pela elite.
Desde então, surgiram várias montagens e a mais recente promete ser a mais ousada. Ópera do Malandro na Visão de Jorge Farjalla, em cartaz no Teatro Renault, traz, como o próprio título anuncia, um olhar mais contemporâneo e pessoal do musical.
“O projeto nasceu em 2013, quando minha mãe, Hilma das Graças Primo, a Didi, me pediu para montar a Ópera do Malandro. Ela era apaixonada pelo filme do Ruy Guerra, de 1981. Comecei a pensar na produção em 2019, ao mesmo tempo em que criava o musical Clara Nunes, a Tal Guerreira“, conta Farjalla que, durante o processo, promoveu mudanças no original.”

Adaptei o original do Chico, inseri algumas canções, como Tatuagem, Atrás da Porta e Palavra de Mulher, que não estão no original. Também adiantei a personagem Lúcia para o primeiro ato”, conta ele, que manteve a estrutura básica da trama.
A peça conta a história do casal Fernando Duran e Vitória Régia, proprietários de um bordel da Lapa carioca, frequentado por bandidos e policiais e onde a relação entre a lei e o crime é promíscua. Duran e Vitória são os pais de Teresinha, menina delicada que foi enviada para o exterior para que crescesse longe da bandidagem. Ao voltar, porém, Teresinha casa-se com o malandro Max Overseas, revelando um inesperado talento para o submundo ao assumir o controle do contrabando. Outro personagem memorável é a travesti Geni, apaixonado pelo delegado da cidade, Tigrão.
A trilha sonora original é composta por canções conhecidas como Folhetim, Geni e o Zepelim, O Meu Amor e Pedaço de Mim. No ocaso da ditadura militar, falava de falcatruas e negociatas e trouxe de volta aos palcos a atriz Marieta Severo, além de lançar a cantora Elba Ramalho. Chico se baseou na Ópera dos Três Vinténs, escrita 50 anos antes, por Bertolt Brecht e Kurt Weil, que, por sua vez, se inspiraram na Ópera dos Mendigos, de John Gay, lançada em 1728.

“Eu não queria o realismo, mas um mascaramento, uma maquiagem que encobre o tom da pele e que se percebe também no visagismo, nos figurinos. Tudo exagerado, muito operístico, com um toque de melodrama vitoriano. O título da peça une duas coisas antagônicas. Enquanto Clara tem a questão do candomblé, aqui é o cotidiano do povo da rua no qual se destaca o malandro carioca na figura do Zé Pilintra”, explica o encenador.
“A força da montagem está na questão do feminino, diferente do original. Por isso que Geni tem forte poder na montagem”, conta Farjalla. “Sua cena talvez seja a minha obra de arte da carreira. Valéria Barcellos é a segunda travesti a viver esse papel, depois da Andréa de Mayo, na montagem de 1979, que foi um marco para a presença trans nas artes e no imaginário popular da época. Faço uma homenagem a Andréa no número Geni e o Zepellin, quando conto também com a Marina Mathey que, no espetáculo, interpreta uma mulher, Dorinha Tubão, mas é também cover da Valeria.”
Os figurinos, assinados por Ùga Agú e o próprio Farjalla, trazem uma sofisticação que remete a um espetáculo de ópera, detalhe reforçado pela inspirada concepção musical de Gui Leal e o visagismo de Simone Momo. Também a encenação dos atores, com gestos que muitas vezes lembram passos de dança, conferem um tom ainda mais onírico ao espetáculo.
O elenco dessa montagem conta com José Loreto (Max Overseas Navalha), Carol Costa (Teresinha), Totia Meirelles (Vitória Régia), Ernani Moraes (Duran), Amaury Lorenzo (Tigrão/Chaves), Valéria Barcellos (Geni), Andrezza Massei (Lucia), Ana Luiza Ferreira (Fichinha), Isaac Belfort (Barrabás), Marya Bravo (Dóris Pelanca/Cover Vitória Régia), Mateus Ribeiro (Phillip Morris/Cover Barrabás), Patrick Amstalden (Johnny Walker/Cover Max Overseas Navalha), Larissa Grajauskas (Jussara Pé de Anjo/Cover Teresinha), Paulo Viel (Big Ben/Cover Tigrão/Chaves), Marina Mathey (Dorinha Tubão/Cover Geni), Rafael Machado (General Electric/Cover Duran), Carol Botelho (Mimi Bibelô/Cover Lucia), Giu Mallen (Shirley Paquete/Cover Fichinha), Preta Ferreira (Ensemble/Nega Saliva), Dai Ribeiro (Swing/Telma Sanfona) e Dion Seabra (Swing/Dealer).
Serviço
Ópera do Malandro
Teatro Renault. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411
Sextas, 21h. Sábados, 17h e 21h. Domingos, 15h e 19h. R$ 50 / R$ 350
Até 15 de março (estreou 23 de janeiro)
