Adaptada da obra de Elena Ferrante, montagem, dirigida por Fernanda Castello Branco e Paula Weinfeld, estreou em 2024, fez rápidas temporadas e tem potencial para atrair fãs da escritora italiana
Por Dirceu Alves Jr. (publicada 29 de janeiro de 2026)
A escritora italiana Elena Ferrante virou coqueluche em meados da década de 2010. Com narrativas profundas e corrosivas sobre o universo feminino, a autora publicou a tetralogia napolitana, formada pelos romances A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida, e não tardou para sua obra dialogar com outras linguagens.
No audiovisual, a história de rivalidade das amigas Lenu e Lila foi adaptada para uma série da HBO, e o romance A Filha Perdida, lançado na Itália em 2006, originou um filme da Netflix protagonizado pela inglesa Olivia Colman.
A primeira incursão teatral brasileira inspirada em Ferrante também foi baseada em A Filha Perdida, sob a direção de Fernanda Castello Branco e Paula Weinfeld. A bela montagem estreou no Sesc Bom Retiro em junho de 2024 para um mês de temporada – duração regulamentada nas salas da instituição –, fez cinco sessões no Teatro Cacilda Becker em outubro e ficou nisso. Uma nova e importante oportunidade de vitrine começa a ser testada nesta quinta, dia 29, data da reestreia de A Filha Perdida no Teatro Vivo.
Com idealização e dramaturgia de Juliana Araujo, o espetáculo tem potencial para atrair os admiradores da autora. A adaptação é muito bem-feita e conserva a essência dos personagens, a encenação recorre a um eficiente espelhamento das protagonistas e, em uma fase de um excesso discursivo, o resultado equilibra imagens e significados em nome de um bom teatro.
A entrada no elenco da atriz Chris Couto, de 65 anos, que substitui Maristela Chelala no papel de Leda, pode estimular uma visibilidade e quebrar a frustração de os fãs de Ferrante que nem tiveram tempo de descobrir a montagem. Além de Chris e Juliana, o ator Alex Huszar está no palco se revezando nos personagens masculinos.
Na trama, Leda é uma professora universitária que tira férias em uma praia. Ao observar a jovem Nina (vivida por Juliana) brincando com a filha pequena, é tomada por memórias que incluem a negação à maternidade e o escasso afeto dedicado às filhas, hoje adultas. Em um impulso, Leda rouba a boneca da garota e, mesmo testemunhando o seu sofrimento, não consegue devolvê-la.
Chris Couto é puro entusiasmo e apreensão para dar corpo e voz à personagem. Ela, que não viu a peça na estreia, tinha assistido ao filme e, depois de receber o convite, leu duas vezes o romance. Já era fã de Ferrante por causa da tetralogia que devorou um livro atrás do outro. “A autora constrói um cenário coeso das mulheres, sem poupar competições que presenciamos o tempo todo”, justifica.

A cobrança em torno da maternidade é o que mais toca a intérprete nesta história. Para ela, é fundamental que a mulher carregue uma vocação ou ressentimentos aparecerão com o tempo. Filhos exigem dedicação extrema e, por via de regra, a responsabilidade maior recai sobre as mulheres – algo explicitado no texto de A Filha Perdida. “Minha mãe me lembra muito a mãe da Leda, aquela mulher rígida, dura”, compara. “Fui criada como a filha do meio entre dois meninos, e minha mãe sempre se achou um doce de coco, mas só fui compreendê-la ao vê-la amorosa com a neta.”
Chris é mãe de Maria, de 30 anos, que, além de dar oportunidade de aflorar o instinto materno, repaginou a artista como ser humano. Maria nasceu com problemas cardíacos e sofreu uma parada respiratória que lhe rendeu deficiências de locomoção, coordenação e cognição. As duas moram sozinhas há 27 anos e, apesar de a jovem ter pouca independência, Chris ressalta que é muito comunicativa, sociável e integradas às atividades que faz, como aulas de teatro.
“A Maria é o meu sol, norteia minha vida e, muitas vezes, eu ouvi ‘por que você não tentou outro filho?’, como se ela não tivesse dado certo, sabe?”, comenta. “Acho isso tão agressivo e faz parte de um pensamento de pessoas que não entendem o sentido da maternidade.”
Chris é uma rara artista que emenda um espetáculo no outro, transita por filmes e séries com relativa constância e agradece por ser assim. Entre as participações recentes estão a peça A Médica, dirigida por Nelson Baskerville, a série infantil As Meninas da Garagem Secreta e um episódio da série Amoras, rodado em Porto Alegre, em que contracenou com a atriz Magali Biff. “Nunca pude ficar sem trabalhar porque jamais contei com respaldo da família”, declara.
Nascida em Americana, no interior paulista, ela cresceu em São Paulo, morou em Brasília até se fixar no Rio de Janeiro aos 15 anos, quando começou a estudar teatro no Tablado. Em seguida, fez parte do elenco de apoio das novelas Locomotivas (1977), Te Contei? (1978) e Coração Alado (1980). A profissionalização veio com o Grupo Tapa em peças como Apenas um Conto de Fadas (1979), O Tempo e os Conways (1986) e Solness, O Construtor (1989), dirigidas por Eduardo Tolentino de Araujo, um dos seus mais constantes parceiros profissionais até hoje.
Em 1991, o jornalista Zeca Camargo assistiu ao espetáculo As Raposas do Café, do Tapa, e convidou Chris para um teste na MTV, a emissora que despontava com a exibição de clipes. “Diferentemente de todos os VJs, eu não assistia à MTV, não era ligada em música e meu foco era o teatro”, assume. “Só que a vida andava difícil de grana, pensava até em morar fora e fiz um, dois, três testes até que me chamaram.”
Foram oito anos na MTV e uma história que se transformou totalmente. “Eu me assistia e me achava péssima, parecia um poste, mas fui me autodirigindo e deu certo porque as pessoas falam em mim como VJ até hoje”, reconhece. O tempo em que a atriz decantou na emissora não interferiu na trajetória, pelo contrário chamou a atenção para o seu nome e rendeu convites para novelas, filmes e espetáculos na sequência. “Quando fiz a peça As Mulheres da Minha Vida (2006), com o Antonio Fagundes, tinha debate no final e as pessoas me perguntavam se eu preferia teatro, televisão ou cinema”, conta. “Minha resposta é que gosto de trabalhar e quanto mais experiências diferentes, maior é a possibilidade de me aprofundar no meu ofício.”
Serviço
A Filha Perdida
Teatro Vivo. Avenida Chucri Zaidan, 2460, Morumbi
Quarta e quinta, 20h. R$ 100
Até 26 de março (estreia em 29 de janeiro)
