A comédia farsesca, escrita e dirigida por Marcos Damigo, conta com José Rubens Chachá, Daniel Costa, Fabio Esposito e Thiago Claro França no elenco
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 22 de janeiro de 2026)
De 2004 a 2014, o ator, dramaturgo e diretor paulistano Marcos Damigo, de 52 anos, morou no Rio de Janeiro e, de volta a São Paulo, começou uma virada que se definiu como assinatura de carreira. O interesse por um teatro relacionado a fatos históricos rendeu uma pesquisa que soma cinco espetáculos. A comédia farsesca Entre a Cruz e os Canibais, que estreia nesta quinta, 22, no Teatro Arthur Azevedo, explora o desajuste entre o projeto colonial e a realidade da Vila de São Paulo de Piratininga, o embrião da metrópole, fundada em 25 de janeiro de 1554.
Na época em que era aluno da EAD (Escola de Arte Dramática), Damigo criou sua primeira dramaturgia histórica, a peça Cabra – Dois Atores na Corte de Canudos, inspirada no conflito entre o exército e os seguidores do líder religioso Antônio Conselheiro (1830-1897) na Bahia. A montagem, protagonizada por ele e Joca Andreaza, marcou a primeira direção de Georgette Fadel e cumpriu temporada no Centro Cultural São Paulo em 1999. As oportunidades como ator tomaram a dianteira na década atravessada no Rio, e o investimento na escrita sofreria um hiato.

Somente em 2018, como autor e diretor, o artista estreou Leopoldina, Independência e Morte, que deu voz para a primeira mulher de Dom Pedro I e sua contribuição no processo de libertação do país. A peça, protagonizada por Sara Antunes, chamou atenção, entre tantos méritos, pela valorização de um discurso feminista que apenas começava a despontar novamente na cena teatral.
Na esteira, vieram a montagem infantil Dias de Independência e Babilônia Tropical – A Nostalgia do Açúcar, projeto adulto sobre a pernambucana Anna Paes (1617-1674), uma dona de engenho do século XVII, que percorreu diversas cidades em 2023.
“Minha volta a São Paulo e o começo da pesquisa coincidiram com uma época em que se acentuaram as disputas pelas narrativas e vi a importância de enfatizar a nossa história”, comenta Damigo, sobre a fase que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff e a ascensão do bolsonarismo. “As narrativas sempre estão a serviço de algum interesse ou visão de mundo, então as pessoas devem ter acesso aos fatos para interpretá-los.”

O trabalho da vez, Entre a Cruz e os Canibais, protagonizado pelos atores José Rubens Chachá, Daniel Costa, Fabio Esposito e Thiago Claro França, que ainda executa a trilha sonora ao vivo junto de Adriano Salhab, opera com a desconstrução do mito dos bandeirantes na formação da cidade e do estado de São Paulo. “Existe um debate acirrado em torno dos bandeirantes como heróis”, afirma o autor. “Só que eles eram odiados pelos jesuítas e, até o século XVIII, eram tidos como vilões.”
Esta visão, segundo Damigo, começou a mudar graças ao poder da elite cafeeira e dos republicanos que precisaram forjar novos heróis como símbolos da ideia de desenvolvimento associada a São Paulo. A identidade dos paulistas como herdeiros dos desbravadores foi vinculada à vocação para o trabalho que transformou uma terra que era nada em potência. “Os bandeirantes passaram a ser cultuados na forma de estátuas, nomes de ruas, estradas e até do palácio do governo”, justifica. “E, nós, ainda estamos aqui, cada vez mais exaustos e preocupados em produzir.”
A peça começa com a chegada do governador-geral do Brasil, Dom Francisco de Souza (interpretado por França), à Vila de São Paulo de Piratininga. Os moradores perderam o respeito pelo Juiz (papel de Chachá), que, apesar da veia autoritária, parece apavorado com um possível ataque indígena, já que o Vereador (vivido por Espósito), desaparecido há meses, sequestrou tupis aliados.

O Procurador (representado por Costa), por sua vez, tem uma relação próxima com os tupis e espera que Dom Francisco fiscalize a lei que proíbe a escravização dos povos originários. Só que o governador-geral quer privilegiar os próprios interesses e, como um grande paradigma, quando São Paulo conhece o seu primeiro progresso econômico, os moradores começam a explorar a mão-de-obra indígena. “A escravização indígena é o ponto polêmico da peça e, conforme as analogias vão brotando, enxergamos que estamos falando sobre o passado, mas sempre sobre nós e a atualidade.”
Entre a Cruz e os Canibais traz à tona todas as dicotomias sob o viés cômico e, para atingir um equilíbrio, o autor e diretor optou por investir em personagens fictícios. “É uma comédia farsesca, assumidamente não-realista e sem a ambição de uma reconstituição histórica”, explica. “Com exceção do governador-geral Dom Francisco de Souza, os demais personagens são apenas inspirados em figuras da época e a gente ri destes homens brancos para desconstruir o que foi perpetuado em nosso imaginário.”
Lidar com temas reais, mesmo no registro cômico, exige comprometimento, e Damigo jamais fez vistas grossas para o peso da empreitada. O autor contou com a consultoria dos historiadores Paulo Rezzutti e Rodrigo Bonciani e do dramaturgo Luís Alberto de Abreu, um dos nomes mais respeitados do teatro de linguagem popular no país. Foi Abreu quem alertou Damigo da importância de materializar Dom Francisco de Souza como personagem no palco. “Quando você se propõe a meter a mão em um assunto, tem que entender a responsabilidade de deixar tudo o mais claro possível e isso envolve a escuta e o letramento”, diz.
Damigo ressalta que um fator fundamental para a peça foi a sua experiência com a diretora Cibele Forjaz e a Cia. Livre no processo do espetáculo Os Um e os Outros (2019), que incluiu uma visita ao Xingu e o contato com tribos guaranis de São Paulo. “Esse trânsito me deu lastro para entrar em um assunto delicado”, observa. “Só será fomentado um debate se existir um cuidado para evidenciar que somos aliados da causa indígena.”
Serviço
Entre a Cruz e os Canibais
Teatro Arthur Azevedo. Avenida Paes de Barros, 955, Alto da Mooca
Quinta a sábado, 20h; Domingo, 19h. R$ 20 (entrada gratuita entre os dias 22 e 25 de janeiro)
Até 15 de fevereiro (estreia 22 de janeiro)
