Com adaptação de Pedro Kosovski, peça une Malu Galli e Tiago Martelli como mãe e filho que, sob a direção de Inez Viana, buscam a recuperação da própria voz
Por Ubiratan Brasil (publicada em 21 de janeiro de 2026)
O jovem escritor francês Édouard Louis, de 33 anos, tornou-se referência no gênero auto ficção literária, formada por obras em que retrata e discute sua difícil ascensão como autor, com obras traduzidas para mais de 20 idiomas. No Brasil, tem uma legião de fãs e seus livros inspiram outros meios, como o teatro. Um exemplo é Mulher em Fuga, em cartaz no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis.
Trata-se da adaptação nacional de duas de suas obras, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, ambas publicadas no Brasil pela editora Todavia. A dramaturgia inédita é assinada por Pedro Kosovski e a trama acompanha Monique, a mãe do autor, vista sob distintas perspectivas. Em Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021), Louis reconstrói a trajetória da mãe a partir do olhar do filho que testemunhou – muitas vezes à distância, outras de muito perto – um percurso marcado por pobreza, humilhações, trabalho exaustivo e um casamento abusivo.

Já em Monique se Liberta (2024), a narrativa é assumida por Monique, descrevendo o que significa sobreviver – e resistir – dentro de um sistema que silencia mulheres da classe trabalhadora. O livro nasceu de um momento de desespero. Louis estava em Atenas, na Grécia, quando recebeu uma ligação desesperada de Monique, que estava em Paris e pedia ajuda para escapar do atual companheiro, um homem violento que a insultava e a ameaçava. Com a colaboração de um amigo, Louis arquitetou a fuga e a acolheu em seu apartamento, na capital francesa.
Em sua dramaturgia, Kosovski aproxima mãe e filho em um gesto cênico que evidencia tanto o conflito quanto o afeto, a memória e a insurgência presentes na obra de Édouard Louis, cuja voz é escuta em off durante o espetáculo. “Busquei a ação emocional da escrita autobiográfica de Louis, uma ação que rompe decisivamente com o estado de anestesia que muitas vezes marca existências em nossa sociedade. Entre dívidas e reivindicações, algo do impossível desse encontro entre mãe e filho pronuncia imperativamente um chamado emocional: é urgente que se façam sentir as existências neste mundo, apesar desse mundo”, explica.
Em cena, sob a direção de Inez Viana, Malu Galli e Tiago Martelli assumem os papéis de uma trama que propõe reflexões sobre violência de gênero, apagamento das histórias da classe trabalhadora e o poder das narrativas pessoais na construção da memória coletiva.

“Monique é uma mulher comum: dona de casa, mãe de cinco filhos. E, como toda mulher comum, dona de casa, mãe de cinco filhos, Monique é uma mulher extraordinária“, comenta Galli. “Uma mulher com uma força gigantesca, um amor pela vida e uma coragem de leoa. Basta dar a ela a oportunidade de ser quem é para que todos possam comprovar isso. E, quando falamos de oportunidade, falamos de autonomia. E, quando falamos de autonomia, o dinheiro está sempre no centro.”
Além de atuar, Martelli é também o idealizador do projeto, apresentado como uma homenagem a todas as mulheres que lutam para reconquistar suas próprias vozes. “Na obra de Édouard Louis, encontrei uma narrativa que nos confronta com a coragem, a vulnerabilidade e a reinvenção de uma mulher que se recusa a desaparecer”, observa.
Para Inez Viana, ao conduzir a própria mãe para o centro da narrativa, Louis propõe um grito contra o sistema patriarcal que oprime e faz com que haja a naturalização da violência, que encontramos eco aqui e agora. “Através de sua ajuda para a terceira fuga de sua mãe, o filho tenta não só recuperar sua relação interrompida com ela, mas entende, assim como o público, que a liberdade e o caminho não percorridos sempre poderão ser retomados, independentemente do tempo”, afirma.
Serviço
Mulher em Fuga
Teatro Raul Cortez – Sesc 14 Bis. Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – 2º andar
Quintas, sextas e sábados, 20h. Domingos, 18h. R$ 70
Até 8 de fevereiro (estreou em 15 de janeiro)
