O espetáculo, escrito pela inglesa Sarah Kane e dirigido por José Fernando Peixoto de Azevedo, assume a provocação de colocar um ator preto na representação de um homem branco
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 15 de janeiro de 2026)
Em 2023, o diretor paulistano José Fernando Peixoto de Azevedo, de 51 anos, criou a Sociedade Arminda, agrupamento teatral para desenvolver junto a parceiros constantes, como o ator Rodrigo Scarpelli e a atriz Thainá Muniz, uma investigação sobre a violência na sociedade.
Ensaio sobre o Terror, solo de Scarpelli inspirado no conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis (1839-1908), foi a peça inaugural, que teve sequência em 2024 com Depois do Ensaio, Nora, Persona, a partir das obras do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) e do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Elisa em Fuga, Segundo Ensaio sobre o Terror, monólogo de Thainá, originado de outro conto de Machado, Virginius, cumpriu temporada em abril passado.
Para fechar uma involuntária trilogia machadiana, uma versão do conto O Espelho é planejada para o ano que vem. “Não será um novo monologo, a ideia é trabalhar com um coro”, adianta o diretor, que, ainda em 2023, montou Dois Perdidos numa Noite Suja – Delivery, atualização da peça de Plínio Marcos (1935-1999), com os atores Michel Joaquim e Lucas Rosário.

Azevedo, que, entre 1997 e 2016, dirigiu outro coletivo, o Teatro de Narradores, queria entender com calma se valeria a pena investir na estrutura de uma companhia ou, simplesmente, contar com uma equipe disposta a desenvolver pesquisas. Assim, a Sociedade Arminda teve o seu desenho definido aos poucos, e ele concluiu que a segunda opção seria mais coerente. “A realidade do teatro mudou nos últimos anos e não é mais possível ninguém se dedicar exclusivamente a um grupo, porque, até para pagar as contas, atores e atrizes trabalham em teatro, cinema e televisão”, justifica o diretor. “Somos uma base de pessoas interessadas em viabilizar pesquisas e fazer um espetáculo acontecer sem que se comece do zero.”
O drama Blasted, a primeira peça da dramaturga inglesa Sarah Kane (1971-1999), montada no Brasil somente em 2006 sob o comando de Marco Antônio Rodrigues, é a nova empreitada do agrupamento. O espetáculo, que estreou dia 14 no Teatro Laboratório Manás, no Bixiga, é protagonizado pelos atores Lucas Rosário e Michel Joaquim, a mesma dupla de Dois Perdidos numa Noite Suja – Delivery, e a atriz Juliane Arguello. Samurai Cria manipula a câmera em cena, enquanto Gustavo Calbo edita as imagens ao vivo e Agá Péricles faz a direção musical e executa a trilha sonora.
Na trama, um jornalista (interpretado por Rosário) leva uma jovem da periferia (papel de Juliane) para um refinado quarto de hotel e uma explosão de contrastes e violência explicita a misoginia, o racismo e a naturalização da brutalidade. “A nossa primeira ideia foi trabalhar o terror na questão interracial e o que pode acontecer quando as pessoas se misturam”, conta o diretor. “Rosário é um ator preto representando um homem branco com índole neonazista e a nossa pergunta é o que vemos quando um ator preto nos dá a visão do que em homem branco faz?”
Revelação da década de 1990, Sarah teve uma radical e meteórica carreira com peças como Blasted, O Amor de Fedra, Purificados e 4:48 Psicose, esta última apresentada em São Paulo em 2003 com a atriz francesa Isabelle Huppert. Seus personagens de grande intensidade psicológica despertaram a atenção da crítica e o fim trágico da dramaturga, que cometeu suicídio aos 28 anos, colaborou para expandir a visibilidade do seu trabalho na década de 2000.
Antes de chegar a Blasted, os integrantes da Sociedade Arminda esboçaram uma adaptação de Otelo, de William Shakespeare, e cogitaram até a elaboração de uma dramaturgia inédita. Azevedo, que nunca alimentou grande interesse por Sarah Kane devido a sua forte carga de subjetivismo, percebeu novas qualidades assim que a obra foi sugerida e começou a ser trabalhada pelo grupo. “Depois de uma leitura do texto, do qual eu tinha vaga lembrança, enxergamos a extrema atualidade e a explicação para muitas questões que queríamos levantar em cena”, reconhece.
Um dos aspectos importantes para salientar era a abordagem da misoginia, que veio forte depois da montagem de Elisa em Fuga, Segundo Ensaio sobre o Terror. “Lendo Sarah Kane entendemos um diálogo dela com os clássicos, como com o próprio Shakespeare e Samuel Beckett, fortalecido pela ideia da devastação cada vez mais forte nos dias de hoje”, diz o diretor, que preferiu manter o título em inglês. “Poderíamos ter adotado o nome da peça como ‘ruínas’, embora a melhor tradução seja mesmo ‘fodidos’, mas achamos que ‘blasted’ já carrega muitos significados.”

Com o trabalho no palco, Azevedo reconhece que a problemática da destruição, que permeia o texto e a encenação, está muito mais visível hoje que, por exemplo, em setembro, quando começaram os trabalhos. “Há um desdobramento da cena presencial com a imagem que concretiza algo apenas sugerido na dramaturgia”, diz.
Como a pesquisa não para, Azevedo desenha outros espetáculos, além da adaptação de O Espelho, de Machado. Ao lado do ator Rodrigo Scarpelli, ele toca um projeto sobre o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975) e seus ensaios do livro Os Jovens Infelizes e planeja uma versão negra da peça Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), que espera contar no elenco ainda com os atores Rogério Brito, Eduardo Silva, Raphael Garcia, Dagoberto Feliz e a atriz Clara Carvalho, entre outros. “Penso na figura de um militante político negro dos anos de 1980 em conflito com o filho e a dinâmica das pautas identitárias da atualidade”, adianta.
Serviço
Blasted
Teatro Manás Laboratório. Rua Treze de Maio, 222, Bela Vista
Quarta a sábado, 21h. Domingo, 19h. R$ 60
Até 8 de fevereiro (estreou 14 de janeiro)
