Com direção de Neyde Veneziano e Giovani Tozzi, espetáculo com dez atores é inspirado no trabalho do italiano Carlo Goldoni, nome fundamental do teatro europeu
Por Ubiratan Brasil (publicada em 14 de janeiro de 2026)
O italiano Carlo Goldoni (1707-1793) é considerado um nome fundamental do teatro europeu do século XVIII por levar as tramas que habitualmente aconteciam nas ruas para dentro de teatros. Além disso, trouxe em suas peças personagens com uma individualidade rica, além de situações inspiradas em seu meio social. Foi trabalhando em uma obra do italiano, Il servitore di due padroni, que a pesquisadora e diretora Neyde Veneziano e o ator e produtor Giovani Tozzi se conheceram há exatos 20 anos.
Para marcar a data, eles se uniram novamente para a montagem de Dois Patrões, que estreia no Teatro Itália na sexta-feira, dia 16. Trata-se de uma versão atualizada do texto de Goldoni. “Segui rigorosamente a estrutura do original, cena a cena, mas atualizei o contexto porque não fazia sentido manter questões que não são mais importantes nos dias atuais”, conta Tozzi que, além de cuidar da versão, divide a direção com Veneziano.
Assim, Dois Patrões conta a história de Pantaleão, bicheiro que deseja casar a filha para estabilizar (e lucrar) a divisão de territórios vizinhos. O Doutor segue advogando, mas agora presta serviço para os bicheiros que aumentam sua fortuna. A história inteira acontece dentro de uma festa de noivado que nunca termina, um ambiente onde todos parecem ser “inimigos do fim”. O clima mistura o absurdo de Buñuel em O Anjo Exterminador com a lógica caótica e sedutora de Vale o Escrito.

Segundo Tozi, o ponto de partida da adaptação foi o conceito das máscaras da commedia dell’arte. “Elas não representam animais ao pé da letra, mas carregam traços animalizados que indicam instinto, energia e função social. A partir dessa lógica, surgiu a associação com algo profundamente brasileiro, popular e simbólico: o jogo do bicho. Essa aproximação me abriu portas para uma leitura atualizada das figuras clássicas”, conta.
Com isso, a peça traz um ritmo acelerado, em que o humor rasgado e muitas vezes crítico é trocado pelos personagens de forma natural. “É o tipo de graça que me interessa fazer, ou seja, dizer algo aparentemente absurdo com total naturalidade”, comenta o ator Jonathas Joba, intérprete de Doutor Salvatti, advogado influente que, ao beber, passa a falar em latim.
Como ninguém para de beber na festa, suas conversas com Pantaleão Lombardi, vivido por Marcelo Lazzaratto, tornam-se cada vez mais confusas. “São encontros assim que me inquietam, me tiram do senso comum e produzem uma faísca que aciona a criatividade”, observa Lazzaratto, um dos principais encenadores da atualidade.

O elenco traz ainda personagens inseridos no universo brasileiro de 2026. O Arlequim de Goldoni se transforma em Tico Sorriso, vivido por Felipe Hintze que, além de carnavalesco de uma escola de samba de quarta divisão, é um PJ que acumula empregos para conseguir pagar as contas no fim do mês. “O título da peça, Dois Patrões, faz referência a esse empregado que não tem patrão fixo, mas depende de vários deles para viver como trabalhador autônomo”, conta Veneziano.
Esmeraldina, interpretada por Mila Ribeiro, torna-se assessora e social media de Clarice Lombardi, personagem de Camilla Camargo, que está decidida a assumir os negócios da família assim que se casar com Silvio Salvatti, um playboy interpretado por Marcus Veríssimo e que vive à sombra do pai, o Doutor Salvatti.
A confusão aumenta quando Frederico Rasponi, papel de Larissa Ferrara, na verdade uma mulher vestida como o próprio irmão para tentar recuperar o dinheiro que ele havia deixado escondido com Pantaleão. Como esse irmão tinha um casamento arranjado com Clarice, Frederico precisa sustentar a farsa e simular um interesse amoroso que nunca existiu.
Enquanto isso, Luca Aretusi, personagem de Gabriel Santana, casado com Beatriz, é o principal suspeito do assassinato do cunhado e surge em busca da esposa desaparecida. Para tentar ajudá-lo, ou complicar ainda mais a situação, entra em cena Briguela, interpretado por Gabriel Ferrara, dono do Hotel Goldoni Palace e responsável por receber todos e manter a festa funcionando.
“São todos personagens que estão no original de Goldoni. Eu apenas acrescentei um DJ, função de Nando Pradho, que dita o ritmo dessa comemoração que simplesmente se recusa a acabar”, conta Tozzi.

Reconhecido como um dos grandes intérpretes do teatro musical brasileiro, Pradho sentiu-se gratificado com a tarefa de compor a trilha sonora. “Sempre senti falta, nas montagens originais nacionais, da presença de temas específicos para os personagens, algo fácil de se notar em Les Miserábles ou Hamilton, por exemplo. Aqui, como a trilha dura o tempo da peça, ou seja, 1h30, compus temas para cada um, pensando em suas características”, comenta.
O espetáculo também desponta como uma homenagem ao dramaturgo italiano Dario Fo, cujo centenário de nascimento acontece nesse ano. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (1997), ele se notabilizou por peças marcadas pelo humor ácido e pela crítica social. Neyde Veneziano trabalhou ao seu lado durante vários anos, ganhando preciosos ensinamentos que trouxe agora para o palco. “Fo era um mestre da improvisação, adorava falar com um espectador sobre o tema do dia para então iniciar o espetáculo. Também era rigoroso com os movimentos do corpo, especialmente das mãos, o que trouxemos para Dois Patrões.”
Serviço
Dois Patrões
Teatro Itália. Avenida Ipiranga, 344, subsolo.
Sextas e sábados, 20h. Domingo, 18h. R$ 100
Até 1º de março (estreia 16 de janeiro)
