“Barulhos”, do grupo 28 Patas Furiosas, estreia no Sesc Avenida Paulista, estimulando pais e filhos a conversar mais sobre o que sonharam durante a noite, como forma de trocar afeto e autoconhecimento
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 9 de janeiro de 2026)
Um dos assuntos mais recorrentes entre crianças e seus pais é o sonho. Ou, pelo menos, deveria ser. Crianças adoram relatar o que sonharam na noite anterior. Mas será que os adultos realmente prestam atenção na importância disso? Você investiga com seus filhos o motivo de terem sonhado com bruxas, carros, quedas, bichos, fantasmas? Com essa premissa na cabeça, o coletivo paulistano 28 Patas Furiosas vai estrear seu primeiro espetáculo dito infantil, ou seja, criado especialmente para as infâncias (mas não só). Barulhos é o nome da peça, em cartaz a partir de sábado, 10, no Sesc Avenida Paulista.
“A troca de sonhos entre adultos e crianças pode ser um espaço de encontro, de afeto e de aprendizado muito grande para ambas as partes”, declara a diretora do espetáculo, Valéria Rocha. Ela explica que seu grupo, com sede no bairro do Bom Retiro, sempre trabalhou com experimentações de linguagens. Suas pesquisas relacionam teatro, artes visuais e performance, investigando espaços inventivos. “Eu passei a olhar para o sonho como uma tecnologia, um espaço de elaboração de conhecimento”, acrescenta.

No enredo, uma menina chamada Rosa, que acaba de perder a avó e precisa aprender a lidar com a morte, conta para a mãe que sonha toda noite com a mesma garota, que perdeu sua casa. Nos sonhos, Rosa ajuda essa menina a procurar seu lar e, juntas, conhecem figuras estranhas, como uma onça falante e até uma cabeça sem corpo. Ao final, Rosa descobre que a garota misteriosa é sua avó quando criança. Ao compartilhar esse sonho com a mãe, ambas abrem entre si um espaço de muito afeto e alteridade. Valeria Rocha, a diretora, falou com o Canal Teatro MF sobre o processo de criação e realização de Barulhos.
Por que a companhia, criada em 2013, demorou todos esses anos até estrear seu primeiro infantil?
Desde o início do 28 Patas Furiosas, em 2013, as infâncias e juventudes sempre estiveram muito presentes no nosso trabalho. Durante todos esses anos, essa relação aconteceu principalmente pelo caminho da formação: oficinas, encontros livres, rodas de conversa e na curadoria dos festivais que fizemos. A gente sempre acreditou em apresentar a arte contemporânea de forma lúdica, porque a criança se relaciona com a arte com muita liberdade — ela brinca, olha sem vícios, encontra o lúdico onde muitas vezes o adulto já não vê. Quando começamos a pesquisar os sonhos, realizamos cinco edições de uma oficina de dois meses, com a proposta de brincar de arte e falar sobre sonhos. Escutamos tantos sonhos das infâncias, tantas imagens e histórias potentes, que algo foi sendo despertado em nós. Foi desse encontro, dessa escuta ativa e afetiva, que nasceu o desejo de articular nossa pesquisa estética com o sonhar da perspectiva da criança.
Que sonhos você tinha quando criança e como lidava com isso?
Quando eu era criança, eu tinha muitos pesadelos. Minha mãe me ensinou uma oração – “Anjo da Guarda, meu bom guardador, guarde minha alma para nosso Senhor e me dê uma boa noite de sono, sem nenhum sonho” – e, por um tempo, eu parei de sonhar. Meus sonhos eram muito de perseguição, de fuga, de casas. Mas havia também um sonho bom, recorrente, que era o de voar. Voar sobre os prédios. Às vezes, no meio do pesadelo, eu começava a voar, e isso mudava tudo. Quando a gente deu oficinas para crianças, percebemos que isso aparecia muito nos relatos delas também: o voar e outros superpoderes ligados aos heróis e heroínas – super força, visão de Raio-X, raios. Na minha infância, eu não tinha algo que hoje, depois da pesquisa do 28 Patas Furiosas, eu passei a ter, que é olhar para o sonho como uma tecnologia, um espaço de elaboração de conhecimento. Nos primeiros encontros com a equipe do espetáculo, quando discutíamos o que queríamos com esse trabalho, uma das coisas que apareceu foi o desejo de incentivar adultos e crianças a conversarem sobre seus sonhos. É um exercício que eu faço com o meu filho. Quando ele acorda, eu sempre pergunto com o que ele sonhou. E, se teve um pesadelo, a gente conversa. Por que será que ele sonhou com isso? Será que tem relação com algo que aconteceu no dia anterior, com alguma angústia? Uma vez ele sonhou com uma boneca assassina, mas, conversando, percebemos que não era sobre a boneca. Era sobre uma situação que o estava deixando angustiado. Essa troca de sonhos entre adultos e crianças pode ser um espaço de encontro, de afeto e de aprendizado muito grande para ambas as partes.

O espetáculo, ao que parece, não encara o teatro para crianças de forma convencional e retrógrada. Conte um pouco sobre sua visão do que deve ser encarado no ofício de fazer teatro para crianças hoje.
Eu acho que, fundamentalmente, é pensar o teatro para crianças como um espaço de pesquisa tão rico e potente quanto o teatro adulto. Muitas vezes, a gente acaba caindo num lugar de reprodução de fórmulas que funcionam, mas que não nos colocam em risco. Existe um desejo muito forte de “dar certo”, de agradar, e isso pode afastar a pesquisa. Para nós, o ponto central é justamente o contrário: se colocar em risco, pesquisar — pesquisar temas, estéticas, linguagens — e compartilhar isso com as crianças. Ao longo do processo, realizamos uma série de ensaios abertos com crianças, entendendo o encontro como parte da pesquisa. A nossa proposição, que o público vai ver a partir do dia 10 de Janeiro, é investigar como a pesquisa que o 28 Patas desenvolve — com a materialidade, com a palavra como matéria, a escuta do que a própria matéria nos propõe, não é sobre manipular, mas sobre o diálogo entre corpo, palavra, matéria — como essa pesquisa existe e se reinventa no teatro para as infâncias.
Como foi sua relação de diretora com o texto final entregue pelo dramaturgo?
O texto foi construído em muito diálogo com o dramaturgo, que é o Tadeu Renato. Começamos com uma primeira reunião em que toda a equipe esteve presente – direção, elenco, cenografia e iluminação, direção musical – para escutar os desejos e entender o que era importante para cada um(a). Dessa conversa inicial, saímos com uma espécie de sinopse muito breve, quase duas linhas, que serviu como ponto de partida. A partir disso, o Tadeu desenvolveu um primeiro roteiro de ações. Esse material foi levado para a sala de ensaio, onde levantamos uma primeira versão do trabalho. Só então ele escreveu o texto, que voltou para os ensaios, passou por cortes, ajustes e retornos até chegar ao texto final. Foi um processo realmente orgânico, em que dramaturgia e cena se alimentaram mutuamente. O texto final é muito poético, como é característico do trabalho do Tadeu, e ao mesmo tempo muito preciso. Cada figura que aparece carrega uma linguagem própria, algo muito cuidadoso textualmente. É um texto seco, de poucas palavras — e ele precisa ser assim para abrir espaço para o diálogo com a materialidade, com os corpos em ação, para a instalação cenográfica, a luz, os figurinos, os tecidos, as imagens que tudo isso cria no espaço, e também para a trilha criada pela Júlia Ávila. Há uma escolha em relação ao som: o barulho, na peça, é o silêncio. A música está presente o tempo todo, e quando o “barulho” entra, ele se dá justamente pela ausência de som. Foi um processo de muito diálogo entre toda a equipe. E, nessa reta final, temos sido bastante disciplinados em relação ao texto: dizer as palavras que estão escritas, tratando o texto também como matéria. Essa é a matéria que o dramaturgo nos trouxe, e a nossa pesquisa é entender como dialogar com ela em cena.

Como se dá a relação da companhia com o entorno do bairro do Bom Retiro? Existe uma interação orgânica da vizinhança com as atividades da sede? Comente.
O 28 Patas Furiosas está nessa sede desde 2021. Antes, o grupo tinha uma sede em outro bairro da cidade. Realizamos muitas ações no espaço: temporadas nossas e de outros grupos, residências, oficinas, festas. Mas sentimos que ainda não encontramos uma relação totalmente orgânica com o entorno do Bom Retiro. Muitas vezes, acabamos nos relacionando mais com pessoas de outros pontos da cidade do que propriamente com o bairro. É um espaço que a gente está, de fato, buscando construir. Nesse percurso, estabelecemos algumas relações com escolas do bairro, especialmente a partir das ações de formação que realizamos. Algumas dessas escolas vieram assistir ao espetáculo adulto, com turmas do ensino médio e técnico. Também construímos uma relação com uma associação que trabalha com crianças, que foram justamente as crianças que acompanharam um pouco do processo de montagem de Barulhos. Além disso, criamos vínculos com alguns coletivos do bairro, tanto artísticos quanto sociais. Mas seguimos com o desejo de ampliar esse campo de atuação, para que essa relação se torne cada vez mais orgânica, não apenas com instituições, mas também com os moradores e moradoras do Bom Retiro.
Serviço
Barulhos
Sesc Avenida Paulista. Arte II (13º andar). Avenida Paulista, 119. Telefone (11) 3170-0800
Sábados e domingos, 11h. R$ 40 (grátis para crianças até 12 anos)
Até 1º de fevereiro (estreia 10 de janeiro)
