Musical traz trilha sonora original de Zeca Baleiro, que também está em cena, sob a direção de Dani Angelotti e produção de Celia Forte e Selma Morente
Por Ubiratan Brasil (publicada em 8 de janeiro de 2026)
Foi durante o isolamento social provocado pela pandemia da covid 19 que o cartunista Caco Galhardo teve a ideia para uma peça de teatro. Ao ouvir uma canção de Tom Zé, Vai (Menina Amanhã de Manhã), ele pensou em questionar a alegria em tempos de desconforto e, com isso, escreveu a dramaturgia de Felicidade, musical em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso.
A música de Tom Zé, gravada há 50 anos, traz uma falsa descontração e um jogo de palavras que permitiram-no criticar a ditadura militar com sutileza. “Menina, amanhã de manhã/ Quando a gente acordar/ Quero te dizer que a felicidade vai/ Desabar sobre os homens, vai”, diz o início da canção que, na década de 1970, fazia alusão a um clima de felicidade forçada.

“Comecei a imaginar como seria se, no dia seguinte, a felicidade desabasse sobre nós”, conta Galhardo, que criou a história de Flávia, mulher que é uma jornalista e influenciadora de sucesso, mas vive infeliz no casamento e na relação com a mãe e os amigos. Certa manhã, sem nenhuma razão aparente, ela acorda com uma felicidade radiante e inexplicável. O que antes parecia chato – lual na praia, encontro com ex-amigos da escola, fazer compras com a mãe – se transforma em momentos de muito prazer.
O que poderia ser um novo bem estar, porém, se transforma em problema: as pessoas que cercam Flávia têm dificuldade para aceitar tanta alegria. Com isso, começa a sequência de reveses. “A peça questiona como ser feliz num mundo cruel”, afirma Galhardo. “Mostra também como a felicidade se transformou num produto, especialmente nas redes sociais”, diz a atriz Martha Nowill, para quem o cartunista encaminhou a peça.

Apesar de bom, o projeto demorou para sair do papel, o que só aconteceu quando se uniram as produtoras Celia Forte e Selma Morente (que comemoram 40 anos de atuação no teatro) junto com a diretora Dani Angelotti. A encenadora, aliás, logo percebeu a cadência rápida com que as cenas se sucediam. “Era o mesmo ritmo dos quadrinhos e também da música, o que poderia resultar em uma união perfeita”, conta ela, que então convidou Zeca Baleiro para criar a trilha sonora e fazer uma participação pontual em cena.
Com a experiência de ter criado canções para outros espetáculos (como Roque Santeiro), Baleiro, iniciou a carreira compondo melodias e músicas para peças infantis que se destacaram pela qualidade de suas letras, aceitou o desafio, principalmente o de aparecer em cena. “Não sou ator, o que faço nesses casos é pôr em ação o meu próprio personagem de palco. É um processo sempre delicioso e divertido. Esse ‘papel’ é um exu, um anjo que canta, que conduz os destinos”, comenta.

No palco, além de Martha Nowill como Flavia e Zeca Baleiro como a “entidade”, estão também a percussionista Layla Silva e os atores Eduardo Estrela, Luisa Micheletti, Nilton Bicudo e Willians Mezzacapa. “O que eu gosto da dramaturgia do Caco é que apesar de ser homem, suas protagonistas são sempre mulheres. Gosto muito do tom dos textos e diálogos, que acabam sendo uma mistura do teatro com os quadrinhos. Essa mistura é sempre cômica e tem um quê de nonsense que eu gosto muito. Parece realismo, mas em todos os seus textos, tem sempre um fator que desloca os personagens da realidade, algo que não se explica, meio surreal”, diz Martha.
Serviço
Felicidade
Teatro Sergio Cardoso – Sala Nydia Licia. Rua Rui Barbosa, 153
Quartas, quintas e sextas-feiras, 20h. Sábados, 17h e 20h. Domingos, 17h. R$ 70 / R$ 220
Até 1º de fevereiro (estreou 7 de janeiro)
